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Angola, África Central, Política

Crise política na República Democrática do Congo afetará Angola e região

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As forças de segurança invadiram as ruas de Kinshasa, depois da suspensão das conversações para encontrar uma solução pacífica para a crise política na República Democrática do Congo, resultante do fim do mandato do Presidente Joseph Kabila. O MPLA/regime reiterou o claro, inequívoco e musculado empenho do Governo angolano a Kabila, mascarado com o rótulo de ajuda à resolução do conflito.
Por Norberto Hossi
As negociações para uma saída da crise, resultante do fim do segundo e teoricamente último mandato do actual chefe de Estado no próximo dia 20, foram interrompidas sem a obtenção de quaisquer progressos.
Com Kabila a recusar marcar eleições e a dar sinais de estar indisponível para abandonar o poder (cuja manutenção lhe é assegurada pelo patrono José Eduardo dos Santos), os receios do ressurgimento da violência regressaram a este país que tem um extensa fronteira com Angola.
As conversações deverão ser retomadas na próxima quarta-feira, quando os bispos católicos que têm assumido a mediação regressarem de uma viagem a Roma há muito planeada.
As forças de segurança de Kabila (onde se ouve falar frequentemente em português) foram colocadas em larga escala nos pontos de maior concentração da oposição em Kinshasa.
Kabila, impedido pela Constituição (como se isso tivesse algum valor – veja-se o caso de Angola) de concorrer a um terceiro mandato presidencial, fez saber que quer permanecer no poder até ser escolhido um sucessor, porém, várias figuras da oposição reclamam que o actual Presidente entregue o poder a uma liderança de transição enquanto o próximo chefe de Estado não for escolhido pelo voto.
Joseph Kabila, de 45 anos, está no poder da República Democrática do Congo desde que o seu pai, Laurent Kabila, foi assassinado em 2001. O actual presidente foi eleito em 2006 e reeleito em 2011.
O líder da oposição, Étienne Tshisekedi, ameaçou apelar às manifestações a partir desta segunda-feira, se as conversações não ganharem um bom rumo.
Começaram já a circular na capital da RDC panfletos que apelam ao povo para que retome Kinshasa “rua a rua, bairro a bairro, até ganhar toda a RDC”.
congoCom a cobertura das Nações Unidas
Joseph Kabila é um servo ao serviço dos interesses regionais de José Eduardo dos Santos. Ou faz o que ele manda ou vai suceder-lhe o mesmo que ao pai.
A respaldar o apoio institucional (tal como o oficioso) de Angola a Kabila está o facto de os membros do Conselho de Segurança da ONU reconhecerem o papel (sobretudo militar) que o regime de Eduardo dos Santos representa na região.
No início de Novembro, Georges Chikoti, chefe da diplomacia angolana frisou que Angola, como membro da comunidade internacional pensa que é necessário que o Conselho de Segurança da ONU assuma o papel de trabalhar em coordenação com a região, com a RDCongo, para que possa ajudar este país amigo e servil ao regime de Luanda.
Angola no âmbito da presidência da CIRGL (Conferência Internacional da Região dos Grandes Lagos) tem-se engajado para encontrar soluções para resolução de conflitos políticos na RDCongo e que, é claro, mantenham no poder o seu servil amigo Joseph Kabila. Se assim não for… não haverá paz para ninguém.
Recorde-se que na guerra civil na RDCongo, entre 1998 e 2002, Angola e o Zimbabué enviaram tropas para aquele país para apoiar o regime do então Presidente, Laurent Désiré Kabila, pai de Joseph Kabila, contra os rebeldes, apoiados pelo Ruanda, Uganda e Burundi.
Laurent Kabila foi… ingrato
Quem de facto manda na RDCongo é o regime angolano e, por isso, ou Joseph Kabila faz o que Eduardo dos Santos manda ou, é claro, corre o risco de ter, na melhor das hipóteses, de se exilar.
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É por isso que regularmente Kabila manda enviados a Luanda garantir a sua total subserviência a Eduardo dos Santos.
Recorde-se que o anterior presidente, Laurent Kabila, subiu ao poder graças à ajuda militar angolana. O exército angolano ofereceu a Kabila uma brigada de 3 mil homens muito bem armados e treinados. Na maioria, esses homens eram antigos gendarmes catangueses, desejosos de vingar a derrota sofrida frente a Mobutu quando foi da revolta do Catanga.
Laurent Kabila pediu ajuda ao leão angolano para derrotar os mabecos que o atacavam. O leão derrotou os mabecos e depois… comeu-o.
Laurent Kabila pediu ajuda ao leão angolano para derrotar os mabecos que o atacavam. O leão derrotou os mabecos e depois… comeu-o.
Kabila aceitou a ajuda desses militares mas, logo após a vitória, em Maio de 1997, dissolveu essa brigada porque a consideraria perigosa por suspeitar (e com razão) que seria leal aos interesses angolanos.
Kabila desconfiava do amigo angolano… e, assim, percebe-se melhor a forma como morreu assassinado em Janeiro de 2001.
Já Joseph Kabila mostra que é um bom aluno do mestre presidente de Angola, e do MPLA, partido está no poder desde 1975 e cujas forças armadas, com mais de 100 mil efectivos, é das mais modernas e poderosas de África.
Também em matéria de liberdades Joseph Kabila mostra o que aprendeu com o mestre angolano. Recordam-se que ele mandou prender cinco jornalistas de uma televisão privada em Kinshasa depois da difusão de uma entrevista com um adversário político do seu Governo?
Tal como em Angola, então os jornalistas (essa espécie que deveria ser banida da face da terra) julgam-se no direito de entrevistar os adversários políticos do dono do poder? Onde julgam eles que estão?
Recordemos Novembro de 2008. A crise humanitária e a continuação dos confrontos militares na República Democrática do Congo justificaram uma intervenção “forte” de Luanda para apoiar Joseph Kabila.
Os confrontos entre a milícia Mai-Mai, aliada do Governo congolês, e os rebeldes tutsis do Congresso Nacional para a Defesa do Povo (CNDP), ameaçavam a dita “estabilidade”.
As hostilidades no leste era de tal ordem que não pouparam os funcionários da ONU que tinham chegado à região com o primeiro comboio de ajuda humanitária para os 250 mil deslocados concentrados na zona de Kiwanja.
Soldados uruguaios e indianos dos Capacetes Azuis da Missão das Nações Unidas na República Democrática do Congo (MONUC) tiveram de usar a força para resgatar 12 membros da missão humanitária que estava na área de Kiwanja, a dois quilómetros de Rutshuru, tomada pelos rebeldes tutsis em 26 de Outubro de 2008.
O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) confirmou que três campos de refugiados, perto de Rutshuru, tinham sido destruídos, causando a fuga de mais de 50 mil pessoas.
Por sua vez, os rebeldes da CNDP denunciaram a presença de soldados zimbabuanos e angolanos na província de Kivu Norte. Além disso, o chefe do contingente militar uruguaio da ONU em Kivu Norte, general Jorge Rosales, afirmou que os seus soldados foram atacados por tanques ruandeses, o que sustentou a acusação de que Ruanda apoia os rebeldes.
Sobre as acusações a Angola, alguns analistas angolanos disseram na altura que essa situação era “incontornável”. Graça Campos, director do “Semanário Angolense”, disse que Luanda só aguardava pelo “apoio formal” da comunidade internacional para enviar militares em apoio de Joseph Kabila.
Por seu lado, Nelson Pestana “Bonavena”, professor universitário, lembrava que “Angola é parte integrante da solução do conflito na RDCongo” frisando que Luanda “faz parte do sistema de sustentação de governação” daquele país.
“Angola é um aliado natural e forte de Kabila, pois tem participado em todos os processos de pacificação, na procura de entendimentos, e, obrigatoriamente, tem de participar nesse processo”, afirmou Nelson Pestana.
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O Observatório

Este observatório é uma iniciativa do Grupo de Estudos Africanos vinculado ao Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (GEA/IREL-UnB), que busca refletir sobre a vida política, social e econômica da África contemporânea, com destaque para sua inserção internacional. Preocupando-se com o continente marcado pela diversidade, o Grupo de Estudos Africanos, por meio do Observatório, propõe um olhar crítico e compreensivo sobre temas africanos, em suas mais diversas dimensões.
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