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Ivair Augusto Alves dos Santos

Ivair Augusto Alves dos Santos tem escrito 3072 posts para Observatório da África

Africa do Sul:ANC enaltece memória de Mugabe

Cidade de Cabo – O secretário-geral do Congresso Nacional Africano (ANC), Ace Magashule, apresentou esta sexta-feira as condolências do partido no poder na África do Sul à família do antigo Presidente zimbabweano, Robert Mugabe, que morreu aos 95 anos de idade.

 

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Robert Mugabe, Ex-Presidente do Zimbabwé (arquivo)

FOTO: FRANCISCO MIÚDO

LOGOTIPO DO ANC

A vida de Mugabe foi um perfeito exemplo do “novo africano” que, tendo-se desembaraçado do jugo colonial, fazia todo o seu possível para se garantir que o seu país se integre no concerto das nações e seja firmemente responsável pelo seu próprio destino, indicou Magashule.

Acrescentou que o Mundo vai lembrar-se sempre do slogan do antigo herói da libertação: “África aos Africanos e Zimbabwe aos Zimbabweanos”.

“Embora o ANC e os seus responsáveis não tenham conseguido estar de acordo, as vezes de maneira virulenta, com Mugabe sobre questões de interesse nacional, enquanto organização fraternal, consideramos como sacrossanto o princípio de soberania.

“Só a história julgará se as medidas tomadas pelos dirigentes no interesse dos seus concidadãos eram correctas. Lembramos as palavras imortais de William Sheakespeare, segundo as quais , ‘o mal que os homens fazem sobrevive-lhes, o bem  é as vezes enterrado com os seus ossos”, afirmou.

Magashule endereçou as suas condolências à família de Mugabe e à ZANU-PF, o partido no poder no Zimbabwe e que ele liderou durante anos até à sua saída do poder, em 2017.

 

Fonte:https://www.angop.ao/angola/pt_pt/noticias/africa/2019/8/36/Africa-Sul-ANC-enaltece-memoria-Mugabe,8cf37abb-1957-423a-94d5-9c26e0c26955.html

Robert Gabriel Mugabe, 1924-2019

Chairperson of the African Union (AU) Commission Nkosazana Dlamini-Zuma smiles as she is greeted by Zimbabwe's President Robert Mugabe next to South Africa's president Jacob Zuma ahead of the 25th African Union summit in Johannesburg

Chairperson of the African Union (AU) Commission Nkosazana Dlamini-Zuma (L) smiles as she is greeted by Zimbabwe’s President Robert Mugabe next to South Africa’s president Jacob Zuma ahead of the 25th African Union summit in Johannesburg June 14, 2015. REUTERS/Siphiwe Sibeko

Eu morri muitas vezes – foi aí que venci a Cristo. Cristo morreu uma vez e ressuscitou uma vez. ”Robert Mugabe, em seu 88º aniversário.

Quase enquanto houver um Zimbábue independente, Robert Mugabe  será lembrado. Trinta e sete anos no comando.
Não foi de todo ruim. .Ela adorava ler  livros de história.

Ele foi, desde o início, um enigma: repleto de contradições que de alguma forma o alimentaram e não o derrubaram. Ele era o anglófilo que odiava a Grã-Bretanha; o combatente da liberdade; um visionário pan-africano; um professor,  charmoso e elegante. Ele foi amado e respeitado.

Enquanto ele estivesse no poder, uma coisa nunca mudaria. L ‘état, c’est Mugabe. Mugabe era o Zimbábue. Agora ele se foi, morrendo longe de casa em um hospital em Cingapura, e o Zimbábue ainda está em busca de uma nova identidade.

ATO I: O REVOLUCIONÁRIO

“Os votos e as armas do povo são sempre gêmeos inseparáveis.” Robert Mugabe, em um discurso de 1976.

O segredo de Mugabe era que ele sempre era a pessoa mais inteligente da sala. Seu intelecto formidável o levou de um fundo modesto para algumas das melhores escolas do país – as melhores escolas negras, é claro, porque ele era um cidadão de segunda classe na Rodésia colonial – e depois para a Universidade de Fort Hare na África do Sul , que era então uma linha de produção para africanos extraordinários. Nelson Mandela estudou lá, assim como Oliver Tambo, Julius Nyerere e Kenneth Kaunda.

Em Fort Hare, os colegas de classe de Mugabe eram o fundador do Congresso Pan-Africano, Robert Sobukwe, e logo seria a União Nacional Africana do Zimbábue e o líder da União Popular Africana do Zimbábue, Leopold Takawira, e seu zelo revolucionário o conquistou. Depois, ele ensinou por alguns anos – no norte da Rodésia e depois em Gana, onde conheceu Sally, sua primeira esposa -, mas o dado já havia sido lançado. Mugabe era um combatente da liberdade e um expoente fluente da linguagem do pan-africanismo.

Sua luta começou em seu retorno ao Zimbábue em 1960, onde ele mergulhou na oposição clandestina, assumindo um papel de liderança sênior na União Nacional Africana do Zimbábue (Zanu). Em 1964, ele foi preso por “discurso subversivo” e preso por uma década sem acusação – um refém  do regime brutal de Ian Smith.

Smith era tipicamente cruel, negando a permissão de Mugabe de comparecer ao enterro de seu filho de três anos em 1966. Esse detalhe é importante: mais tarde, quando os papéis foram revertidos, Mugabe permitiu que Smith servisse como membro do parlamento do Zimbábue em um poderoso gesto de perdão e reconciliação.

Na prisão, ele estudou. Através do ensino à distância, obteve primeiro uma graduação e depois um mestrado em direito pela Universidade de Londres, respectivamente seus quarto e quinto graus universitários. Ele já havia feito mais três por correspondência depois de Fort Hare, e haveria outros mestres em seu futuro. Isso o tornaria, a certa distância, o presidente mais instruído do continente e possivelmente do mundo.

Mas ele também era esperto, exibindo um traço maquiavélico implacável, do qual nenhum estava seguro. Da prisão, ele manipulou os processos partidários até ser eleito secretário-geral de Zanu em 1974, afastando rivais mais conhecidos e realizados.

Após sua libertação no final daquele ano, ele fugiu para o exílio, segurando uma máquina de escrever portátil enquanto atravessava a fronteira para Moçambique. Mesmo assim, ele sabia que as palavras eram sua arma mais potente. Enquanto a guerra do mato durava à sua volta, Mugabe travou sua própria guerra pessoal contra rivais em potencial, tanto dentro do partido quanto em um movimento de resistência mais amplo. As brigas eram violentas e às vezes mortais, mas Mugabe era bom nisso. Quando Smith foi forçado à mesa de negociações, Mugabe tinha o partido sob controle e estava perfeitamente posicionado para sucedê-lo.

ATO II: O ESTADUAL

“O críquete civiliza as pessoas e cria bons cavalheiros. Quero que todos joguem críquete no Zimbábue; Quero que a nossa seja uma nação de cavalheiros. Robert Mugabe, sem data.

Ironicamente, o moderno Zimbábue nasceu em Londres, na imponente Lancaster House. Foi lá que o Reino Unido intermediou conversações entre a Rodésia de Ian Smith e a resistência ao domínio dos brancos; lá que o roteiro para uma segunda independência foi criado. As eleições ocorreram logo depois, em fevereiro de 1980, com Zanu – que já havia se fundido com a Frente Patriótica – para criar o gigante Zanu-PF –  que venceu

Para Mugabe, esses eram dias felizes. Para um homem com tanta sede de conhecimento, que privilégio maior poderia haver do que usar esse conhecimento para criar uma nação? Ele começou a trabalhar na criação do melhor sistema educacional da África e transformou o Zimbábue na lendária “cesta de pão para o sul da África”. As coisas estavam melhorando, e ele foi comemorado por seus colegas e festejado pela comunidade internacional. Mugabe era um herói africano de boa-fé e apreciava a atenção.

Mas nem tudo era tão róseo quanto parecia na nova república. A série autoritária de Mugabe não desapareceu agora que ele estava no poder. Muito pelo contrário, de fato. Joshua Nkomo, outra lenda da libertação, foi a vítima de maior destaque da crescente megalomania do primeiro-ministro. Intimidado e temendo por sua vida, Nkomo fugiu para o exílio em 1983.

Muito pior estava por vir. Em Shona, há uma palavra para as primeiras chuvas que vêm antes da primavera, as chuvas que limpam a palha inútil e dão espaço para as plantações crescerem. Essa palavra é ‘gukurahundi’. Em uma mensagem perdida para ninguém no Zimbábue, também era o codinome da operação militar de Mugabe para antecipar a resistência da comunidade Ndebele. Os Shona eram as sementes saudáveis, para serem nutridas, enquanto os Ndebele precisavam ser lavados.

Para lavar a roupa, Mugabe implantou sua Quinta Brigada norte-coreana. Ao longo de cinco anos, entre 1983 e 1987, eles expurgaram “dissidentes” em Matabeleland e arredores. Às vezes, esses eram ex-veteranos de guerra, às vezes membros do Zanu de Nkomo. Às vezes eram civis, escolhidos sem motivo óbvio, exceto que estavam no lugar errado na hora errada e pertenciam ao grupo étnico errado. Ninguém sabe exatamente quantas pessoas morreram, porque nenhum registro foi mantido. O estado não se preocupou em contar suas vítimas. Estimativas conservadoras estimam o número de mortos em 8.000 pessoas. Outros dizem que foi mais perto de 30.000.

Não que alguém fora do Zimbábue parecesse se importar. Enquanto os Ndebele estavam morrendo, Robert Mugabe estava se deleitando com sua reputação de estadista internacional. Só mais tarde, quando seu regime começou a matar fazendeiros brancos, ele começou a ser tratado como um pária pela comunidade internacional.

ATO III: O DITADOR

“Esse Hitler tem apenas um objetivo: justiça para seu povo, soberania para seu povo, reconhecimento da independência de seu povo e de seus direitos sobre seus recursos. Se é Hitler, deixe-me ser Hitler dez vezes. ” Robert Mugabe, em um discurso de 2003.

A transição de Mugabe de combatente da liberdade para déspota desprezado foi lenta e desigual. A cada um de seus próprios momentos de revelação, quando a balança caiu de seus olhos e eles perceberam que o presidente do Zimbábue havia começado, de certa forma, a se parecer com seu antecessor rodesiano.

Talvez tenha sido Gukurahundi. Talvez tenha sido mais cedo, quando Mugabe assassinou e traiu seus camaradas em sua tentativa calculada de avançar. Talvez tenha sido quando ele enviou soldados de infantaria do Zimbábue para lutar e morrer na República Democrática do Congo, enquanto ele e seus generais engordavam com a venda de minerais contrabandeados. Talvez tenha sido quando ele autorizou a apreensão de fazendas de propriedade branca e incentivou seus bandidos a tomar a terra à força. Talvez tenha sido quando ele imprimiu dinheiro para comprar lealdade, prejudicando a economia no processo. Talvez tenha sido quando ele roubou a eleição de 2002, ou quando derrotou e opôs a oposição a uma vitória direta na pesquisa de 2008.

Talvez fosse todas essas coisas. Ou talvez não fosse nenhum deles. Por enquanto, com tudo o que sabemos sobre o que Mugabe fez, ele pôde atrair uma multidão. Ele poderia se levantar na União Africana, com 92 anos, e lutar contra o imperialismo e a homossexualidade, e ser aplaudido de pé. Quando ele estava em forma, ele era encantador e eloqüente, um orador fascinante. Ele era um político carismático e consumado.

Essa combinação irresistível de charme, intelecto e brutalidade permitiu a Mugabe manter o poder por muito tempo, governando o Zimbábue como seu feudo pessoal, abusando do estado e de seus recursos para se manter na Casa do Estado, não importando o que custasse.

Claro, não foi o dinheiro que o motivou – sua segunda esposa, Grace, foi a grande gastadora -, mas o poder. Mas nem ele poderia aguentar para sempre. Nos últimos anos no cargo, os abutres começaram a circular, sua idade se tornou mais aparente e sua autoridade diminuiu. Ele não estava dando as ordens, não no estado ou no partido, e suas ordens não eram mais obedecidas sem questionar. Mantido em posição, enquanto facções rivais procuravam promover sua própria agenda, ele foi reduzido a uma figura de tropeço, enquanto os protestos contra seu governo se tornaram cada vez mais altos.

No final, ele não conseguiu o que queria. Em 2016, nas Nações Unidas, Mugabe disse a seus colegas líderes – todos mais jovens e menos experientes que ele – que governaria “até que Deus diga que vem”. Um ano depois, ele foi traído por um de seus aliados mais próximos e forçado a uma aposentadoria, embora muito atrasada. Talvez não seja surpresa que, uma vez que seu poder tenha evaporado, o mesmo Mugabe , passou cada vez mais tempo recebendo atendimento médico em Cingapura.

Sim, haverá luto. Robert Mugabe será lembrado como um dos últimos lideres da Libertação africana

 

Fonte: https://mg.co.za/article/2019-09-06-robert-gabriel-mugabe-1924-2019-a-tragedy-in-three-acts

Zimbabwe: Ex presidente Robert Mugabe morreu aos 95 anos

Zimbabwe: Morreu ex-Presidente Robert Mugabe aos 95 anos

O ex-Presidente do Zimbabwe Robert Mugabe morreu hoje aos 95 anos, cerca de dois anos após renunciar ao cargo que ocupou durante 37 anos, anunciou o actual chefe de Estado, Emmerson Mnangagwa.

Fotografia: DR

“É com muita tristeza que anuncio a morte do pai fundador e ex-Presidente do Zimbabwe, major Robert Mugabe”, disse Emmerson Mnangagwa na sua página da rede social Twitter. “Mugabe era um ícone da libertação, um pan-africanista que dedicou a sua vida à emancipação e capacitação do seu povo. A sua contribuição para a História da nossa nação e continente nunca será esquecida. Que a sua alma descanse em paz eterna”, acrescentou.
Mugabe morreu num hospital em Singapura, rodeado pela sua família e pela sua mulher, Grace, indicaram várias fontes aos órgãos de comunicação social locais. O ex-Presidente do Zimbabwe estava a receber tratamento médico na cidade asiática há cinco meses.
Mugabe nasceu em 21 de Fevereiro de 1924. Na década de 1970 liderou uma campanha de guerrilha contra o Governo da ex-colónia britânica. Em 1979, a então primeira-ministra britânica Margaret Thatcher anunciou que o Reino Unido reconheceria oficialmente a independência da Rodésia, como era designado naquela altura o país. Mugabe foi eleito primeiro-ministro no ano seguinte. Robert Mugabe deteve o poder no Zimbabwe durante 37 anos, antes de deixar o poder em Novembro de 2017. Mugabe foi forçado a afastar-se depois de o Exército e o seu partido, a União Nacional Africana do Zimbabué – Frente Patriótica (ZANU-PF), lhe retirarem o apoio.

 

Botswana avança nos direitos humanos da população Lbgt.

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Em uma vitória para a comunidade LGBT africana, a Justiça de Botsuana descriminalizou nesta terça-feira (11) a homossexualidade, até então proibida no Código Penal do país desde 1965.

Os dispositivos do Código Penal relativos às relações entre pessoas do mesmo sexo “estão anulados”, declarou o juiz Michael Leburu, de uma corte do país ao sul da África.

A inclusão social é fundamental para acabar com a pobreza e promover a prosperidade compartilhada”, disse ele.
Nos termos da seção 164 do Código Penal de Botswana, “conhecimento carnal de qualquer pessoa contra a ordem da natureza”, foi uma ofensa que levou uma sentença máxima de sete anos de prisão. A seção 167 fez “atos de grosseria indecente” – em público ou privado – uma ofensa punível, com até dois anos de prisão.
O caso foi levado ao tribunal em março por Letsweletse Motshidiemang, um estudante de 21 anos da Universidade de Botswana, que argumentou que a sociedade havia mudado e que a homossexualidade era mais amplamente aceita, informou a mídia local .
O tribunal lotado explodiu em aplausos de alegria ao ouvir o veredicto.
Neela Ghoshal, pesquisadora sênior da Human Rights Watch, disse à CNN que a decisão estabelece um “poderoso precedente no continente, reconhecendo que a criminalização da mesma conduta sexual viola os direitos à privacidade e é descaradamente discriminatória”.
“A Suprema Corte está certa em declarar que as leis de sodomia pertencem a um museu ou aos arquivos, não à vida moderna”, disse ela.

Zona de livre comércio em África

Iniciativa é voltada para a emancipação econômica do continente

ADIS ABEBA (ETIÓPIA) | AFP

A Zona de Livre-Comércio Continental (Zlec), um projeto-chave da União Africana (UA) voltado para a emancipação econômica do continente, entrou em vigor nesta quinta-feira (30), com o objetivo de aumentar o comércio interafricano em 60% até 2022, anunciou a UA.

“É uma etapa histórica! O acordo da Zlec entrou em vigor hoje”, celebrou no Twitter o comissário da UA para o Comércio e a Indústria, Albert Muchanga.

Refinaria de petróleo em Durban na África do Sul
A Zlec visa aumentar o comércio interafricano em 60% até 2022 – France Presse

“Celebramos o triunfo de um compromisso corajoso, pragmático e continental para a integração econômica”, acrescentou Muchanga .

A “fase operacional” deve ser lançada em 7 de julho, durante uma cúpula da UA em Niamey, após a finalização de instrumentos-chave como mecanismos de arbitragem, definição das regras de origem das mercadorias, ou mecanismos para a “eliminação” de obstáculos como a corrupção, ou infraestruturas ruins.

Do total de 55 membros da UA, 52 assinaram o acordo para a criação da Zlec desde março de 2018, com exceção notável da primeira economia do continente, a Nigéria. Para entrar em vigor, era necessário que 22 membros ratificassem a Zlec e notificassem oficialmente a organização continental.

Esse mínimo foi atingido em 29 de abril, abrindo caminho para uma entrada em vigor 30 dias depois, como previsto nos estatutos da Zlec.

A partir de 29 de abril, Burkina Faso e Zimbábue apresentaram instrumentos de ratificação, elevando o número de países incluídos na Zlec para 24, com pesos-pesados do continente como África do Sul, Egito, Quênia e Etiópia.

Se os 55 países-membros da UA assinarem o documento, a Zlec abrirá o acesso a um mercado de 1,2 bilhão de pessoas, para um PIB acumulado de mais de US$ 2,5 trilhões.

“Doeu ver como África e Moçambique ficaram tão distnte do Brasil”- Mia Couto

O escritor moçambicano conversa com o EL PAÍS sobre escrita, política e o ciclone Idai, que quase destruiu sua cidade natal e demorou a ser notado pelos brasileiros

Antes de aprender a ler livros, Mia Couto (Beira, Moçambique, 1955) aprendeu a ler a terra. A grande diversão de seu pai, um poeta que teve que exilar-se de Portugal devido a perseguições políticas, era passear com os filhos ao longo da linha do trem para buscar pequenas pedras brilhantes no meio da poeira. “Ele ensinou-nos a olhar para as coisas que pareciam sem valor. E, sem nunca nos obrigar a ler, ensinou-nos a ler a vida”, conta António Emílio Leite Couto —Mia é um pseudônimo— em uma sala de reunião de um arranha-céu de São Paulo. Com uma camiseta azul (um tanto amassada) da mesma tonalidade de seus olhos e uma calça jeans, o escritor parece haver caído de repente no espaço onde, no recinto ao lado, homens e mulheres em blazers e paletós discutem negócios. Por vezes, as vozes do grupo elevam-se, ainda que sutilmente, mas o suficiente para contrastar com o tom monocórdio e pausado do escritor moçambicano, que, em sua fala tranquila, constrói elucubrações literárias e metáforas a cada segundo.

Mia Couto descobriu-se poeta aos 14 anos — o primeiro poema foi feito para o pai e publicado sem a autorização do jovem escritor no Diário da Beira, algo que, à época, lhe fez querer “morrer de vergonha”. A prosa chegou anos mais tarde, quando começou a trabalhar como repórter em um jornal, como infiltrado da luta clandestina pela independência de Moçambique. “Aí comecei a ter a tentação de escrever, de inventar mundos paralelos”, lembra. Quando conheceu a lírica de João Guimarães Rosa, soube que ia por bom caminho. O escritor moçambicano visitou recentemente diversas capitais do Brasil para falar sobre a obra-prima do brasileiro, Grande Sertão: Veredas (1956), que acaba de ganhar uma nova edição da Companhia das Letras. Numa dessas vindas, conversou com o EL PAÍS, em São Paulo, sobre a influência desse livro em sua escrita, sexismo na literatura e sobre como as palavras reinventam-se e seguem vivas, firmes, mesmo quando tudo ao redor se destrói.

Pergunta. Quando você conheceu a literatura de Guimarães Rosa?

Resposta.  Ele chegou a mim através de Luandino Vieira, um escritor angolano que me influenciou muito. Meu primeiro livro de contos foi muito marcado pela escrita do Luandino, que deixava que as vozes da rua entrassem na história e fossem elas próprias personagens. E um dia ele falou comigo e disse: “Vai até a fonte, que está no Brasil. Eu mesmo fui influenciado pelo Guimarães Rosa”. Em 1985, quando Moçambique vivia uma guerra civil que nos fechava para o mundo, eu não conseguia ter ligação com o Brasil, mas um amigo trouxe-me uma fotocópia d’A terceira margem do rio. Eu estava no processo de criar meu segundo livro de contos, e aquilo foi como se eu tivesse descoberto a própria vocação de escrever. Esse foi meu primeiro grande contato com Guimarães. Depois fiquei anos tentando voltar e encontrá-lo em livros e mais tempo ainda demorei em chegar a Grande Sertão: Veredas. E, quando cheguei a ele, mesmo tendo passado pelos contos, o primeiro encontro não foi fácil. Eu acho que tinha medo, continuo tendo. É como se de repente houvesse uma revelação, não sobre o que ele estava contando, mas sobre mim próprio.

P. Qual foi essa revelação?

R.  O que o Guimarães fez foi uma abertura de caminho, uma espécie de luz verde, uma autorização, dizendo “você pode ir por este caminho, pode-se fazer literatura assim”, deixando que as vozes chamadas não cultas, que as vozes das pessoas do campo pudessem remexer na história e no próprio narrador. Quando cheguei a Grande Sertão, eu já estava embriagado dessa literatura.

P. Dar esse protagonismo às vozes das personagens, como se brotassem sozinhas das páginas do livro, é a grande contribuição de Guimarães Rosa à literatura lusófona?

R. Eu acho que tudo o que ele faz é quase um milagre, principalmente tendo o pé em uma coisa muito perigosa, que é o pitoresco, que pode ser considerado regionalista, e, ao mesmo tempo, debruçando-se sobre os grandes temas do mundo, as grandes interrogações da humanidade. Do ponto de vista da literatura lusófona africana, foi uma contribuição mais ao nível do tratamento linguístico, ver como ele contava aquilo por meio de uma linguagem poética.

P.  Qual seu trecho favorito de Grande Sertão?

R. É o momento em que o Riobaldo sobe numa grande pedra, olha para o vão abaixo e diz que parece que é como se a gente tivesse um brinquedo, que é o mundo. Essa coisa de transformar o mundo em uma coisa com a qual podemos brincar é uma espécie de revolução de uma infância que foi tolhida. Isso me tocou.

P. Vê similaridades entre sua obra e a de Guimarães Rosa?

“Quando o sofrimento é tão intenso, eu acho que não tem cabimento meu papel como escritor”

R.  Acho que não tem muita coisa. Só isso que eu, agora já menos, mas em um certo momento deixei-me encantar por essa brincriação, que era jogar com as palavras, reinventá-las, muito motivado por uma coisa que vem de dentro. Isto é, os moçambicanos têm vivas e falam em seu cotidiano outras línguas que não o português, e há um momento muito feliz para um escritor, que é perceber que sua língua não está acabada, não está feita. Por exemplo, eu todo dia recolho palavras novas na rua, palavras que não são criações literárias. Isso é um alimento muito grande. Por exemplo, as pessoas dizem arrumário para dizer armário. A palavra arrumário tem muito mais sentido, não só porque é o lugar onde arrumamos as coisas, mas porque, se revisitarmos a história, o armário era o lugar onde se guardavam as armas. Essa relação da língua com uma coisa que é nossa, mas não é, que tem profundidade e história, é muito salutar para nos reportarmos ao que Guimarães Rosa dizia sobre o malefício de uma linguagem funcional, uma linguagem que serve só para uma comunicação imediata.

P. O contato com a literatura brasileira tem ampliado seu vocabulário de brincriação?

R. Sim, porque o Brasil tem esse desafio de dizer sua cultura em uma língua que era a língua do outro. O país teve que encontrar isso, então há uma relação muito mais criativa, de fruição da língua portuguesa, mais do que existe em Portugal, onde o idioma é tão próprio que é difícil brincar com ele.

P. Quais são os brasileiros e brasileiras que você mais lê?

R. Eu sou da poesia e fico estagnado no tempo, então sou muito ligado também ao Carlos Drummond de Andrade, ao João Cabral de Melo Neto mais ainda, à Hilda Hilst, Manoel de Barros…

P. Do que escreveria se fosse brasileiro?

R. Não sei. Vejo, sobretudo aqui em São Paulo, uma nova geração que vive um lado da escrita muito curioso, uma escrita sem lugar, que fala sobre o próprio drama do escritor, que não precisa tanto de uma história. Eu não seria capaz de fazer isso, porque eu teria que viver em uma grande cidade como esta, o que me arrancaria da relação com a terra, a terra como se fosse uma criatura viva. Eu teria que escrever sobre o sertão, como o Guimarães (risos), porque ele conseguiu essa relação com um lugar que não é lugar nenhum, que ele inventou a partir de vozes que dizem coisas poderosas.

P. Você já disse que na África não há realismo mágico, mas sim um “realismo real”. Acredita que acontece o mesmo no Brasil?

R.  Vejo muito a África nas pessoas daqui, mesmo naquelas que, aparentemente, não têm relação histórica com o continente. A África impregnou muito o Brasil, desde a relação com o tempo, com o corpo, essa fronteira muito fluída entre a rua e a casa, o íntimo e o público, não é? A África está presente no Brasil de maneira que os próprios brasileiros não identificam.

Podemos escrever uns sobre os outros. Antes, havia uma interdição: os africanos que escrevessem sobre Europa ou América não eram considerados, porque existia aquela obrigação de o africano ser “autêntico”. Não sabemos o que é isso de ser “autêntico”, mas, para atender aos critérios de aceitação da crítica, pediam uma “África tradicional”, tinha que ter uma fogueira, uma feiticeira e esse tipo de estereótipo que identifica uma “África autêntica”. A nova geração de escritores africanos libertou-se dessa africanidade imposta desde fora e hoje há muitos escrevendo sobre o mundo inteiro.

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Mia Couto, durante a entrevista. CAMILA SVENSON

Um africano pode escrever sobre o Brasil, mas não é o meu caso. Porque eu transportaria tanto a minha infância para qualquer lugar que eu fosse, que estaria sempre escrevendo num mesmo lugar, que é minha cidade. Agora que aconteceu o ciclone, percebi como isso tudo que era um chão que parecia estável, que parecia definitivo, de repente pode fazer-se frágil. Entrei em pânico, porque pensei que tinha perdido meu lugar de infância, mas quando visitei a Beira, percebi que uma cidade é feita, sobretudo, de pessoas. E as pessoas estavam ali, lutando, reconstruindo as casas e ainda com capacidade de contar histórias. Ali eu percebi que não, não acabou.

P. Uma parte de seu futuro romance se passa em uma igreja de Beira, que foi destruída pelo ciclone Idai. De que modo isso lhe afetou?

R. Agora que tive tempo de pensar minha relação com a escrita do Guimarães Rosa, vi que, no fundo, o que ele entrega é essa possibilidade nossa de fazermos de um lugar uma coisa sonhada, alguma coisa que é mítica, que não faz parte da geografia. Percebi que essa minha cidade é uma cidade que inventei. Aliás, isso é muito concreto, porque quando estou a falar com meus irmãos com muito entusiasmo sobre coisas que se passaram na nossa infância, eles me dizem “não foi assim, nunca aconteceu isso”. Eu ignoro, porque, para mim, aconteceu.

P. Você pensou em contar as histórias de sobrevivência de Beira, tanto das pessoas quanto de sua cultura, depois do ciclone?

R. De repente, tenho que repensar o romance que já comecei, e tenho um certo pudor em me aproveitar da circunstância dramática. Quando o sofrimento é tão intenso, eu acho que não tem cabimento meu papel como escritor. Se eu faço qualquer coisa em relação a esse tema, será como cidadão, ajudando os outros, sem interesse literário. Pensei, sim, em fazer um registro daquelas pessoas foram heróis, que salvaram, que se entregaram, que arriscaram a vida e que nunca terão protagonismo. Penso em fazer isso de maneira prática e didática para contar aos jovens que há gente que não tem rosto nem nome, mas que é capaz de gestos como esses. Eu e minha família [por meio da Fundação Mia Couto] faremos um livrinho com o depoimento dessas pessoas.

P. O romance, então, está provisoriamente suspenso?

R. Tenho que repensá-lo. E eu cheguei a um momento que é muito triste para mim, que é quando já sei o que vai acontecer, então adio o máximo possível. Como ter vontade de escrever se eu já sei o que é a história?

P. A nova obra já tem nome?

R.   Eu vou dando nome aos livros à medida que eles vão se revelando. O nome que estava vivo, que me guiava, era um nome quase premonitório em relação a essa situação, porque era algo como Antes de nascer, vi rios e mares. E, de fato, foram rios e mares que engoliram aquela cidade.

P. Você diz-se surpreso com a ajuda destinada pelo Governo brasileiro à Moçambique depois da tragédia, considerando os laços culturais e históricos entre ambos países. Considerou-a pequena. [Além da ajuda financeira, o Governo enviou 40 bombeiros que atuaram no desastre de Brumadinho, e decidiu manter a equipe de salvamento no país depois que o ciclone Kenneth, o segundo desde março, atingiu o norte de Moçambique nas últimas semanas].

R.  Sim, mas gostaria de dizer uma coisa também para me defender, porque parece que é pouco polido da minha parte, estando Moçambique a receber e eu a dizer que é pouco. Mas realmente esperávamos mais do Brasil, porque eu recebia tantos contatos de tanta gente que queria ajudar que me parece que uma pequena fração dessa gente que telefonou e escreveu já cobriria os 100 mil euros enviados pelo Governo brasileiro.

“A África está presente no Brasil de maneira que os próprios brasileiros não identificam”

Mas acho que mais grave até do que o Governo dar pouco, foi como a notícia chegou tão tardiamente aqui. Falei com amigos brasileiros que só uma semana depois da tragédia acordaram para uma coisa que, em outros países, a BBC e a Al Jazeera, por exemplo, já contavam. Doeu ver como África e Moçambique ficaram tão distantes, já estivemos mais próximos.

Quando eu cheguei aqui há 15 anos, a África ainda era muito mistificada, mas isso mudou com políticas de aproximação do Governo Lula, por exemplo. Por outro lado, o próprio Brasil é muito grande para perceber o que está a acontecer fora. O Brasil tem tanto dentro que é difícil olhar para fora, e esse fora tem um critério, obviamente: estar mais próximo dos Estados Unidos e da Europa. O país não se reconhece nem na chamada América Latina, algo que é estranho para nós, porque a África vive a si própria como uma entidade. Os africanos cantam a África como se fosse uma espécie de grande nação. Quando o Brasil fizer isso, vai se abrir para o continente.

P. Qual o papel da literatura para o país reconhecer a si mesmo?

R. Em Moçambique, como a África como “grande mãe” está sempre tão presente, tivemos que desmistificá-la e perceber que há várias Áfricas, várias nações, e contar essa diversidade.

P.  Em Terra Sonâmbula, você conta a guerra civil moçambicana e defende que a literatura tem a missão de revisitar o passado, mas sem a tentação de atribuir culpas. De que maneira política e literatura relacionam-se e como a primeira deve refletir a atualidade?

R. Tanto a política quanto a literatura são construções narrativas. Mas a construção da narrativa literária é uma mentira que não mente, enquanto a política faz o inverso. É discutir a verdade, pensar como hoje a política se constrói muito a partir da mentira, isto é de uma narrativa pobre, que vai de encontro aos medos, aos fantasmas, à criação de ódio. A literatura pode mostrar esses que são chamados “os outros” —essa invenção da política de hoje, que é quase preparatória do fascismo— não são meus inimigos. A literatura lembra a importância do diálogo. Nós chegamos a essa conclusão em Moçambique depois de uma guerra civil que começou com a diabolização do outro, até o ponto em que eu não falava com determinada pessoa só porque ela era de outro partido. Dezesseis anos e um milhão de mortos depois, a gente viu que teríamos que conversar.

P. É possível escrever sobre o passado sem apontar culpas mesmo revisitando episódios como, por exemplo, uma ditadura militar?

R. O que a literatura pode fazer é mostrar que aquele que estava do outro lado, apesar de tudo, mesmo que fosse um torturador, por exemplo, tinha conflitos internos. Que ele não era assim porque tinha um demônio dentro de si. Mas isso não tem a ver com o que podemos ajuizar como justificável. A literatura não pode atenuar o peso que as vítimas têm. O sangue que essa gente derramou não pode ser lavado por meio da literatura.

P. Aos 17 anos, você abandonou a faculdade de Medicina para alistar-se à luta clandestina pela independência de Moçambique. De que maneira a militância política influenciou seu trabalho? Quando escreve, você ainda é aquele rapaz de 17 anos?

R.  Eu acho que sou sempre, mesmo quando não estou escrevendo. Aquela entrega a uma causa me marcou muito, porque eu tinha a crença absoluta de que estava fazendo uma coisa que não era por mim, mas pelos outros, para mudar o mundo, mesmo que uma parte desse mundo tombasse em cima de mim, porque eu fazia parte de uma minoria privilegiada e eu queria derrubar o sistema que sustentava esse privilégio. Era uma coisa que, para mim, não sendo eu religioso e tendo uma formação como ateu, não tenha escapado a essa ideia cristã de me redimir com qualquer coisa que traga como pecado original, não sei. Eu me alistei porque havia também uma razão moral. Nosso lema era “somos os primeiros nos sacrifícios e os últimos nos benefícios”. Isso foi verdade nos primeiros anos. Quando chegou a guerra civil, não havia o que comer. Eu estava na fila, esperando horas para uma pequena loja abrir e, muitas vezes, não havia nada dentro. Não quero nunca mais passar por essa experiência. Eu saía de casa todos os dias sem saber o que ia trazer de comer para os meus filhos, e isso durou não um dia ou um mês, mas anos. Só suportamos isso porque sabíamos que estávamos juntos.

P. Por falar em privilégios, quando se fala hoje em literatura africana, temos autoras como Chimamanda Ngozi Adichie, mas os nomes mais venerados ainda são aqueles como Mia Couto, José Eduardo Agualusa ou J. M. Coetzee. É preciso ser um homem branco para ser considerado escritor na África?

R.  Isso vai acabar rapidamente. É uma herança histórica que a atual geração de escritores africanos vai enterrar. Eu e Agualusa somos resultados desse mundo em que nós [homens brancos] éramos os educados, os que recebíamos formação, mas isso já está mudando. Todos os escritores moçambicanos que eu conheço são negros. Alguns deles têm, realmente, grande mérito. Está a surgir em Moçambique e Angola uma educação para que as pessoas dominem a literatura e os instrumentos para escrever, então não é tanto uma questão política, nesse sentido.

Acredito que talvez haja, sim, a percepção de que eu e Agualusa, por exemplo, tenhamos sido injustamente promovidos porque somos brancos ou porque somos homens. Se isso aconteceu, tenho que tirar partido no sentido oposto. Por exemplo, eu e minha família criamos uma Fundação para promover a literatura entre jovens moçambicanos —e quando digo moçambicanos, automaticamente estou a dizer negros— e ajudá-los a publicar seus livros e construir espaços de debate literário.

Em relação ao sexismo, aí sim a luta é mais complicada. Estão vivos ainda preceitos e preconceitos que realmente afastam a mulher desse reconhecimento. Temos a Paulina Chiziane, que, felizmente, já está lançada no mundo e é bem aceita. Mas, no início, por ser mulher e por acreditar que uma mulher possa contar histórias e que possa falar de coisas da intimidade, da sexualidade, ela sofreu muito e quase fez um auto-exílio.

P. Seu nome é um dos mais celebrados quando se fala em literatura lusófona. Em 2013, você ganhou o Prêmio Camões, assim como José Saramago. Você sonha com honrarias maiores? O Nobel, talvez?

R. Não penso nisso, não. E, quando penso, penso que é impossível.

Fonte:https://brasil.elpais.com/brasil/2019/04/18/cultura/1555598858_754829.html

Papa beija os pés de lider do Sudão do Sul como um gesto de clamor pela paz

mundo-papa-francisco-11042019-001.jpg“O Papa Francisco em seu papel de mediador não se limitou a usar palavras, mas realizou gestos e símbolos fortes, específicos da cultura africana dos protagonistas. Tais gestos falam mais dos que as palavras. O Papa colocou em prática o conselho de São Francisco de Assis que exorta: ‘Preguem o Evangelho em todos os lugares e, se necessário, usem as palavras’”, afirma Pe. Zagore

Cidade do Vaticano

A imagem do Papa Francisco – de quinta-feira, 11 de abril – ajoelhado aos pés dos líderes sul-sudaneses para implorar o perdão deles entre si e tornar a paz uma realidade tangível neste país africano que sofre há décadas, “traz consigo um grande valor simbólico que é parte da tradição cultural africana”, explica à Fides o teólogo marfinense da Sociedade para as Missões Africanas, Pe. Donald Zagore.

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“Na África, em muitas culturas este ato de prostrar-se, de humilhar-se aos pés de alguém, se dá em dois contextos muito específicos: de um lado quer ser um sinal de agradecimento e, de outro, implora o perdão ou a graça”, explica o missionário.

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Santo Padre realizou gestos e símbolos fortes

Nesse contexto, o Papa implora aos líderes do país, em nome do povo sul-sudanês, o perdão e a graça e a acabar com a guerra impiedosa que continua martirizando a população.papa e o sudão do sul

Pe. Zagore acrescenta: “O Papa Francisco em seu papel de mediador não se limitou a usar palavras, mas realizou gestos e símbolos fortes, específicos da cultura africana dos protagonistas. Tais gestos falam mais dos que as palavras. O Papa colocou em prática o conselho de São Francisco de Assis que exorta: ‘Preguem o Evangelho em todos os lugares e, se necessário, usem as palavras’”.papa

“Trata-se de uma atitude que abre os corações empedernidos pelo ego e pela violência para reconciliar o amor de Deus. O Papa, ao fazer esse gesto, revoluciona toda a dinâmica da lógica da diplomacia e da mediação na resolução dos conflitos”, afirma ainda.

“Na África, um líder não se prostra diante de seus súditos. Embora Salva Kirr e Riek Machar não sejam diretamente subalternos ao Papa, são seus filhos espirituais, enquanto o Papa é Pai espiritual por excelência”, continua Pe. Zagore.

Assim como Jesus na Última Ceia se prostra e lava os pés de seus apóstolos, o Papa Francisco se coloca no lugar do subordinado. A mensagem do Santo Padre é clara: a paz não tem preço.

“Somente abandonando nosso ego, deixando morrer o nosso eu, que geralmente exclui o Tu e, portanto, torna o acesso difícil à comunidade, podemos daí em diante falar e relacionar-nos como irmãos, iguais, unidos pela mesma humanidade”, conclui o teólogo missionário.

Fonte: https://br.reuters.com/article/worldNews/idBRKCN1RN2QZ-OBRWD

Centro de Inteligência Artificial em Gana

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Algoritmos podem ajudar pequenos agricultores e prevenir catástrofes

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Potencial. Moustapha Cissa (dir.) disse que a inteligência artificial é mais importante para a África que para outros locais
Foto: Cristina Aldehuela/AFP

Acra, Gana. O Google abriu um laboratório de pesquisa em Gana sobre inteligência artificial, o primeiro do tipo na África, com o objetivo de responder aos problemas socioeconômicos, políticos e ambientais do continente. Existem laboratórios tecnológicos em cidades como Tóquio, Zurique, Montreal e Paris, mas a inauguração de um nesta semana em Acra pode ser especialmente importante para a África.

Como utilizar a inteligência artificial para aliviar as penúrias dos médicos, ou melhorar o diagnóstico do câncer? Como ajudar os pequenos agricultores em suas colheitas aos trabalhadores na detecção de problemas nas máquinas? Como prevenir as catástrofes naturais? “A África enfrenta muitos desafios e aqui o uso da inteligência artificial pode ser mais importante do que em outros lugares”, explicou à AFP Moustapha Cissa, diretor do novo centro Google de Acra.

Graças aos algoritmos, ao reconhecimento vocal, ou de escritura, muitos documentos podem ser traduzidos para línguas vernáculas africanas. Os pequenos agricultores também poderão detectar problemas na produção, ou avaliar os preços do mercado na rede. Especialistas em machine learning e editores de programas de informática trabalharão em jornada integral neste novo laboratório. Isso será feito em colaboração com universidades e startups de Gana, Nigéria, Quênia e África do Sul.

“Formamos uma boa equipe de pesquisadores e de engenheiros internacionais”, acrescenta o diretor, Moustapha Cissa, originário do Senegal. “O objetivo também é abrir os olhos dos políticos sobre essa nova tecnologia para que se deem conta de sua importância. Espero que invistam mais na formação em inteligência artificial na África e em sua aplicação em diferentes âmbitos”, explicou.

Mercado

Os gigantes tecnológicos conhecidos como Gafa (acrônimo de Google, Apple, Facebook, Amazon) estão muito interessados no continente africano, um mercado imenso.

Atualmente, 60% do 1,2 bilhão de africanos tem menos de 24 anos e, até 2050, a população duplicará, chegando a 2,4 bilhões de pessoas. “Há claramente uma oportunidade para empresas como Facebook e Google de se instalar e impor sua marca no território” africano, explica Daniel Ives, da consultoria norte-americana GBH Insights.

“Se você observar Netflix, Amazon, Facebook, Apple, onde (essas empresas) podem crescer? Elas têm que mirar no nível internacional”, afirma o pesquisador em tecnologia.

Fonte:https://www.otempo.com.br/interessa/tecnologia-e-games/google-abre-primeiro-centro-de-intelig%C3%AAncia-artificial-na-%C3%A1frica-1.2168779

Mia Couto:”Não sei ficar calado, não sei aceitar a injustiça.”

mia couto01Mia Couto esteve em Luanda no passado sábado, 6 de Abril, numa sessão intensiva de trabalho, com os escritores José Eduardo Agualusa e Cynthia Perez, para criaram três livros infantis apresentados na Rádio LAC, uma iniciativa do Goethe-Institut Angola. O Jornal de Angola entrevistou o escritor moçambicano que acaba de publicar “O Bebedor de Horizontes”, um livro que desenterra do passado colonial a figura do Imperador Ngungunyane. Com este livro, o autor propõe que se olhe para o passado de modo menos politizado. A excessiva politização da história que os africanos vão fazendo mostra-nos, segundo o autor, que não houve tempo (e se calhar não houve vontade) para pensar que tipo de Estado nos convinha erguer. Actualmente existe uma mudança positiva, embora, diz o escritor, tenha chegado tarde. Mas resta pouco espaço para regimes autoritários, mesmo dos que exercem repressão em nome da sua pretensa legitimidade histórica. Assim pensa o autor moçambicano, que tem em Luandino Vieira, o primeiro escritor que o desafiou na busca de uma escrita que integrasse a oralidade.

Escritor moçambicano Mia Couto
Fotografia: DR

Mia Couto adoptou este pseudónimo devido à sua paixão pelos gatos e porque o seu irmão não sabia pronunciar o seu nome. Ainda gosta de gatos? Tem-nos em casa?

Gosto de animais, mas não como criaturas domésticas. Gosto de bichos mas quero manter com eles uma relação em que espero que eles sejam animais e, assim sendo, me ajudem a ser mais humano. Tenho cães, se é que se pode dizer que se “tem” cão. E por essa razão, os cães é que fazem as suas escolhas. E escolheram não ter a companhia dos gatos.

Com 14 anos de idade, publicou poemas no jornal Notícias da Beira. Em 1983, publica o seu primeiro livro de poesias Raiz de Orvalho. Você próprio um dia disse: “Eu sou da poesia”. Como e de onde nasceu esse afecto pela Poesia?

A poesia vivia em minha casa. O meu pai era poeta, não apenas porque escrevia versos. Mas porque vivia de forma poética. O que quer dizer que ele ensinou-nos a dar valor às coisas que passavam desapercebidas. Às coisas que, na aparência, não tinham valor. Reaprendi essa lição quando encontrei a poesia de Manoel de Barros que mostra como descobrir beleza no meio da poeira.

No Poema Da Despedida, você diz: “Nenhuma palavra alcança o mundo, eu sei ainda assim,escrevo.” Contudo, a sua palavra alcançou o Mundo, tendo a sua obra sido traduzida em mais de 20 países. Além do mérito reconhecido e do percurso editorial, valeu a pena ter escrito?
Valeu. Eu acho que nenhuma outra coisa que eu faça me dá tanto sentido de realização. Há algo que insisto em dizer aos mais jovens. Não busquem fama, nem glória. O que vale é o gosto que temos em ser escritores, o que vale é termos amigos e não fãs.

No livro Mar Me Quer, o narrador fala assim para Luarmina: “Devia era, logo de manhã, passar um sonho pelo rosto. É isso que impede o tempo e atrasa a ruga.” Você acredita na eternidade, não só do homem, mas de toda a Vida?

A eternidade é alcançada em momentos de absoluta felicidade. São instantes em que podemos ser inteiros. E isso quase sempre se faz em harmonia com os outros, com quem amamos, com o que nos comove por uma razão de beleza.

João Passarinheiro, em Todo o Homem é Uma Raça, diz: “Minha raça sou eu mesmo. A pessoa é uma humanidade individual.” Você, enquanto biólogo, pode explicar porque é que o ser humano, dono de tanta beleza que é a cor da pele, se implica tanto com a sua diversidade biológica?

Cada vez mais, a ciência nos ensina que grande parte do nosso corpo não é composto por células humanas. Nós, humanos, somos feitos por outros organismos que não tem material genético hu-mano. Não vivem connosco apenas. Nós somos eles. Esta descoberta tem repercussões fundamentais no modo como nos pensamos e como pensamos o mundo. A biodiversidade não está fora de nós. Está dentro. Há muito que a ciência biológica sabe que, quando se fala de espécie humana, o conceito “raça” não se aplica. Há mais diversidade dentro de um grupo que chamamos da mesma raça do que entre grupo e outros. O que quer dizer que dentro da chamada raça branca (é só um exemplo) há mais diversidade genética do que entre essa raça e qualquer outra raça. Aquilo que chamamos de diversidade é apenas um outro nome da própria vida.

O seu livro Cronicando mereceu um prémio da Organização dos Jornalistas Moçambicanos, em 1989. Além do seu carácter moralizante, as suas crónicas e intervenções públicas fazem também a denúncia da pobreza e da corrupção em Moçambique. A que se deve essa sua preocupação com as violações dos direitos humanos?

Não sei ficar calado, não sei aceitar a injustiça. Sei o que devo fazer como escritor. A minha obrigação de cidadão não se esgota no exercício da literatura. Mas não confundo a minha intervenção cívica com o que faço como escritor. Em Moçambique, colaboro com jornais, vou a escolas, intervenho nas redes sociais e nos espaços de debate público. O mais importante não é tanto o que se defende nesse espaço, mas a sugestão de que o importante é a discussão franca e aberta de ideias. E não o ataque pessoal, não a imposição da razão pela autoridade e pelo medo.

Numa entrevista, você diz que “O dinheiro não está ligado nunca às coisas do espírito. É a antítese do mundo real, onde tudo é comprável e as pessoas têm sempre um preço. Mesmo em Moçambique, apesar da importância que se atribui aos espíritos e à relação com os antepassados.” O falhanço na edificação do Estado africano terá algo a ver com a desatenção dada ao espírito, nas suas várias nuances (Educação, Cultura, etc.)?

Eu creio que os países africanos não tiveram tempo para completar essa edificação de um Estado central. Não chamaria a isso um “Estado Africano” porque não sei bem se temos um consenso sobre o que isso seria. Mas nós estamos também a pagar o preço de termos importado um modelo de Estado copiado dos Estados colonizadores. Não houve tempo (e se calhar não houve vontade) para pensar que tipo de Estado nos convinha erguer. Mas tudo isso não pode ser discutido se não aceitarmos que os nossos modos de produzir riqueza não mudaram tanto assim depois das independências. Extraímos matéria prima que exportamos para o Primeiro Mundo que depois nos revende de forma manufacturada. Essa era a base da economia colonial.

Será essa desatenção ou aversão que leva os políticos no poder a rejeitarem as propostas e as vozes críticas dos intelectuais africanos?

Eu creio que existe uma mudança positiva. Chegou tarde, em muitos casos. Mas resta pouco espaço para regimes autoritários, mesmo dos que exercem repressão em nome da sua pretensa legitimidade histórica. As novas gerações dos países africanos não viveram a opressão colonial. Muitos já não fizeram a luta pelas independências. Esses jovens estão ligados ao mundo, sabem como funcionam os outros países e como a liberdade se pode conquistar. A questão já não é dos intelectuais. A questão também não é a forma como os regimes rejeitam as vozes críticas. A questão é inversa: como as vozes críticas rejeitam os poderes autoritários.

Será essa constatação que o levou, tal como Pepetela, a afastar-se da actuação política directa? Para si, quem são o herói e o vilão hoje em Moçambique?
Fui membro da FRELIMO durante anos. Muito do que sou aprendi nessa luta. Mas devo dizer que, mais do que os lemas políticos, havia imperativos éticos que me motivaram. Um deles era este: a FRELIMO defendia o princípio de que um militante devia ser o primeiro no sacrifício e o último nos benefícios. Durante um tempo isso foi verdade. Mas depois, tudo se adulterou. E hoje quem está no poder acredita ser legítimo servir-se e não servir os outros. Não acontece evidentemente em Moçambique apenas. Deixei de ser membro de um partido mas não abandonei a defesa dos princípios éticos que me fizeram ser militante.

Um personagem de Germano Almeida diz num dos seus romances que a falta de pontualidade é um dos factores de atraso do Continente. Já Samora Machel vivia preocupado com este problema. Esta falta de pontualidade que Pepetela diz ser para os dirigentes vincarem o seu poder, não terá nada a ver com a idiossincrasia do africano? Como é que podemos mudar este modo de pensar e agir?

Não creio que se possa falar da idiossincrasia do “africano”. Há milhões de africanos e cada um tem a sua identidade pessoal. Eu acho que a pontualidade é algo que só existe quando é criado e alimentado numa dada sociedade. Para isso há que dar o exemplo. Quando os nossos pais nos ensinarem o valor do tempo, quando os nosso chefes derem o exemplo na pontualidade então deixaremos para trás isso que pensávamos ser da nossa idiossincrasia. E repare, a pontualidade não tem a ver com o Tempo. Tem a ver com o respeito pelos outros, por esses que são obrigados a ficar à espera.

O seu romance O Bebedor de Horizontes faz uma re-trospectiva ficcional da História de Moçambique, indo desenterrar ao passado colonial a vida de Ngungunyane, preso em Dezembro de 1895 em Chaimite. Porque é que a figura do Imperador Ngungunyane o apaixonou? Tem esse livro alguma lição para os poderes estabelecidos em Moçambique?

Existem vários recados nessa obra. Talvez o mais importante seja que devemos olhar para o nosso passado de modo menos politizado. A nossa História oficial, aquela que ensinamos na escola, é uma narrativa simplificada que deitou fora outras narrativas paralelas mas que não serviam certos interesses. A nossa história está cheia de histórias silenciadas. É muito mais rica e complexa do que aquilo que surge no discurso patrioteiro que nos ensinaram.

A Água e a Águia é o seu mais recente livro infantil saído no ano passado. E não é o único. Que ingredientes deve ter uma boa estória para crianças?
Deve ter beleza, como qualquer obra literária. Existe uma tendência para minimizar a capacidade de en-tendimento das crianças. Então, explica-se o que só pode ser sugerido, simplifica-se aquilo que imaginamos que as crianças não en-tendem. O resultado são obras moralistas e paternalistas que perdem o mistério e o fascínio que as crianças naturalmente buscam.

Em A Confissão da Leoa você levanta, de forma mais completa, a problemática da Mu-lher em África e no Mundo. Com o crescimento da po-breza, cresce também o co-mércio do sexo, a chamada profissão mais antiga do Mundo. Se Mia Couto fosse mulher e pobre em Moçambique, como fugiria desta profissão, muitas vezes a última alternativa para sobreviver?

Eu responderia que, quando escrevo, sou mulher e sou pobre. Como sou qualquer outro personagem dos meus livros. Eu vejo que a prostituição é bem mais vasta que o comércio que erradamente se atribui apenas às mulheres. Raramente se fala em prostitutos mas há tantos ou mais homens do que mulheres que se prostituem. E falo apenas do ponto de visto da venda do corpo para o sexo. Mas existe a prostituição moral e essa não é domínio exclusivo dos po-bres. Quantos são hoje ricos porque se prostituíram? A fuga, como você lhe chama, depende muito da construção de uma sociedade que se constrói com verdade sobre valores morais.

Luandino Vieira teve alguma influência no seu estilo de “falinventar” o português e na reinvenção da narrativa africana, como observamos nas Estórias Abensonhadas?

Sem dúvida. Foi Luandino o primeiro escritor a me desafiar na busca de uma escrita que integrasse a oralidade. Faço questão de invocar o nome deste que foi um dos instigadores do meu caminho. Há escritores que se esquecem dos seus mestres. Quando se tornam mais conhecidos deixam de mencionar aqueles que foram as suas referências. Não será o meu caso.

Em 2014, Mia Couto ganhou o Prémio Neustadt International Prize for Literature, considerado o Nobel americano. Você acredita que se não tivesse sido traduzido para o inglês, teria alguma vez ganho este prémio? Como é que podemos, nós, escritores africanos de língua portuguesa, sair do gheto edi-
torial, quando não temos possibilidades de ser publicados no estrangeiro?

Tem razão. Se eu não tivesse sido publicado em inglês, (e diria por certas editoras) eu não teria visibilidade para que o júri do Prémio Neustad tivesse pensado no meu nome. É uma injustiça? Sim, é. Mas todos sa-bemos da hegemonia da língua inglesa e de como os prémios actuam associados aos mercados do livro. Mas temos que deixar de chorar. Eu creio que te-remos que organizar nos nossos próprios países formas de nos tornar mais visíveis. Os africanos po-diam explorar melhor plataformas de visibilidade internacional como é, por exemplo o Prémio Camões. Mas na verdade, não nos interessamos em prestigiar esse galardão. Quais são os países africanos que contribuem financeiramente para este prémio? Nenhum. Queixamo-nos muito e fazemos pouco. É preciso dizer que para esse prémio Neustad eu fui proposto por uma escritora africana, de nacionalidade etíope. Temos que ter um trabalho paciente mas firme de nos valorizar enquanto continente.

Líderes dos processos são determinantes

Quando recebeu o Prémio Camões, você celebrou “o que há ainda por fazer, (…) para que seja mais viva e mais verdadeira esta família que celebramos na nossa língua comum”. Porque é que a literatura dos PALOP é tão cara e tem tão pouca circulação nos nossos países e como ultrapassar esta situação?
Essa pergunta deve ser dirigida aos que mandam no mercado editorial. Os governos demitiram-se desta matéria. É um daqueles assuntos em que os Estados deram um passo atrás e entregaram tudo à lógica dos mercados. Tenho esperança que os livros possam circular por outras vias.

Após o desastre causado pelo Ciclone Idai, o representante da Renamo em Portugal considerou que o Governo falhou no combate à prevenção. Como biólogo, você concorda ou discorda deste pronunciamento? Porquê?

Eu creio que não seja muito edificante procurar, neste momento, culpas e desculpas. Ainda por cima, fazendo isso roupa suja a ser lavada fora de casa. Moçambique tem que se preparar de forma muito séria e consistente. Ocorrem em média três ciclones de grande escala por ano no Canal de Moçambique. Alguns destes ciclones atingem inevitavelmente a costa de Moçambique que é muito extensa e muito vulnerável. Moçambique tem que ter sistemas de prevenção e resposta instalados e isso é urgente e uma das lições que se deve retirar desta ocorrência. Mas é preciso dizer que a escala deste ciclone e das enxurradas que se seguiram é algo de proporções que superam as capacidades da maior partes dos países.

Angola e Moçambique têm uma experiência política muito parecida. Filipe Nyusi e João Lourenço estão am-bos empenhados no combate sem tréguas contra a corrupção. Que diferença representa, neste comba-te, a leveza das instituições de controle e fiscalização da economia, nascidas de uma situação de monopólio dos poderes políticos pelo Executivo?

As pessoas que lideram os processos são, num dado momentos, determinantes. E que estes processos sejam consistentes; eles não podem depender de vontades pessoais. Deve ser um processo institucional. Mas deve ser também um combate pela criação de valores morais, desde a mais tenra idade. É preciso entender que se deixou que a corrupção se convertesse num sistema que é vivido desde casa e desde a escola como a normalidade.

Fonte: http://jornaldeangola.sapo.ao/entrevista/a-luta-contra-a-corrupcao-deve-ser-tambem-um-combate-pela-criacao-de-valores-morais

A xenofobia na África do Sul preocupa o mundo

lindiwe1Alguém poderia imaginar que a sociedade sul africana tivesse problemas de xenofobia recorrente na África do Sul?

A ministra das Relações Internacionais e Cooperação sul-africana, Lindiwe Sisulu, reúne-se hoje, em Pretória, com embaixadores acreditados na África do Sul para discutir a recente violência xenófoba contra cidadãos estrangeiros no país.

O ministro da Polícia, Bheki Cele, participa também no encontro para o qual foram convocados os embaixadores da SADC (Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral), Paquistão, Bangladesh e Índia, disse à Lusa o porta-voz do Ministério das Relações Internacionais e Cooperação da África do Sul, Ndivhuwo Mabaya.

Segundo o porta-voz, o Governo sul-africano está preocupado com os incidentes de violência e ataques de xenofobia contra cidadãos estrangeiros que eclodiram há uma semana no país, nomeadamente nas províncias do KwaZulu-Natal, litoral sudeste, e Limpopo, norte do país.

Em declarações à imprensa, na sexta-feira, Lindiwe Sisulu reafirmou a preocupação do Governo [Congresso Nacional Africano (ANC, sigla em inglês)] com a recente onda de violência e ataques xenófobos contra cidadãos estrangeiros, instando as autoridades de segurança a atuar.

“O Governo reconhece a contribuição significativa e os sacrifícios de cidadãos de vários países africanos na libertação dos sul-africanos e na queda do regime do apartheid”, adiantou a chefe da diplomacia sul-africana.

O chefe de Estado, Cyril Rampahosa, que é também presidente do ANC, no poder desde 1994, condenou os incidentes de violência e ataques xenófobos contra estrangeiros após uma visita que efetuou à província do KwaZulu-Natal, em campanha eleitoral.

“Estes recentes ataques violam tudo aquilo pelo qual o nosso povo lutou durante muitas décadas, condeno pessoalmente porque não somos isso como povo”, afirmou Cyril Ramaphosa durante uma visita a Pietermaritzburg, na sexta-feira.

Todavia, com eleições legislativas marcadas para dia 8 de maio, no discurso de campanha eleitoral que realizou em Durban, na semana anterior, o chefe de Estado sul-africano advertiu proprietários de negócios a operar em “townships” [definição de bairros negros durante o apartheid], sem fazer no entanto referência direta a cidadãos estrangeiros.

“Toda a gente chega às nossas townships e áreas rurais e monta negócios sem ter licenças e autorizações. Vamos acabar com isso e aqueles que estão a operar ilegalmente, seja de que sítio venham, devem agora saber (…)”, declarou Ramaphosa no seu discurso, declaração essa transmitida pelo canal de televisão ENCA, no dia 20 de março na rede social YouTube.

A polícia no KwaZulu-Natal confirmou à imprensa os incidentes de violência na semana passada, acrescentando que “começaram na noite de domingo [24 de março] com ataques a lojas de cidadãos estrangeiros”.

Registaram-se também incidentes na segunda e na terça-feira, adiantou a porta-voz da Polícia, Thulani Zwane.

Na quinta-feira, a Lusa noticiou que sete camiões foram incendiados na autoestrada N3, entre a localidade de Estcourt e a portagem de Rio Mooi, na província do KwaZulu-Natal (KZN).

A polícia sul-africana não confirmou se os incidentes na N3 estão relacionados com a atual onda de protestos que envolve motoristas de camião estrangeiros, nomeadamente moçambicanos.

Imagens de violência no KwaZulu-Natal e alertas de segurança por parte de motoristas moçambicanos têm dado também conta nas redes sociais de atos de intimidação e insegurança de que alegam ser alvo.

“O governo provincial [ANC] está preocupado com a destruição de sete camiões no importante corredor N3 que liga KZN ao coração económico da África do Sul, a província de Gauteng”, disse o ministro para o Desenvolvimento Económico, Turismo e Ambiente do governo provincial local.

Sihle Zikalala, adiantou ao semanário local, Sunday Tribune, que também na semana passada, pelo menos cinco fábricas ficaram destruídas por fogo posto no parque industrial Isithebe, em Mandeni, no litoral norte do KwaZulu-Natal.

“As fábricas de propriedade da Corporação de Desenvolvimento Financeiro Ithala, foram incendiadas por residentes insatisfeitos com o município local”, explicou.

A polícia confirmou a detenção de 15 pessoas por destruição maliciosa de propriedade e incitação à violência pública, segundo o jornal de Durban.

Em declarações à imprensa, na sexta-feira, o presidente da Câmara Municipal de eThekwini (envolvente à cidade de Durban), Zandile Gumede, considerou que os incidentes de violência são “pura criminalidade”.

Fonte:https://www.dn.pt/lusa/interior/governo-da-africa-do-sul-reune-embaixadores-sobre-violencia-xenofoba-contra-estrangeiros-10747182.html

O Observatório

Este observatório é uma iniciativa do Grupo de Estudos Africanos vinculado ao Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (GEA/IREL-UnB), que busca refletir sobre a vida política, social e econômica da África contemporânea, com destaque para sua inserção internacional. Preocupando-se com o continente marcado pela diversidade, o Grupo de Estudos Africanos, por meio do Observatório, propõe um olhar crítico e compreensivo sobre temas africanos, em suas mais diversas dimensões.