Johanesburgo – Em uma derrota humilhante para Jacob Zuma, o Congresso Nacional Africano (CNA) escolheu um herói antiapartheid e magnata dos negócios como seu novo líder, o que o torna o possível sucessor do presidente da África do Sul.

Cyril Ramaphosa, de 65 anos, era um protegido de Nelson Mandela, que tentou, sem sucesso, nomeá-lo seu sucessor, na década de 1990. Após uma longa espera, ele agora está pronto para liderar o partido e a nação, que foram profundamente afetados pelos oito anos de governo de Zuma.

Depois de uma disputa feroz e apertada que expôs as gritantes divisões no partido, os 4.708 delegados do CNA elegeram o atual vice-presidente da África do Sul, com uma margem de 179 votos.

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A votação também mostrou a rejeição a Zuma, que havia apoiado outra candidata, Nkosazana Dlamini-Zuma, política veterana e sua ex-esposa.

Nkosazana Dlamini-Zuma

A vitória de Ramaphosa pode ser vista como o triunfo dos reformistas do CNA, que pretendem erradicar a corrupção e reconquistar os investidores estrangeiros. Dlamini-Zuma havia prometido uma transformação econômica radical, algo que seu ex-marido nunca conseguiu realizar.

“Ramaphosa tem mais chances de renovar a confiança, não só do mercado, mas também dentro do partido, onde os reformistas agora sentem que têm um lugar. O clima neste país nos últimos anos estava muito lúgubre, e isso vai trazer nova energia”, disse William Gumede, presidente executivo do grupo de defesa governamental Fundação Democracia Funciona.

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Mas, como membro rico do governo de Zuma, que ficou em silêncio diante de nepotismo e da corrupção, Ramaphosa é visto pelos críticos mais como uma criatura do sistema do que como um mediador honesto e combatente da corrupção.

“Ramaphosa não tem a reputação de ser muito dedicado. Não é o tipo de político forte que vai chegar e resolver a situação; é mais um conciliador. Há uma expectativa insana agora”, disse Steven Friedman, analista político na Universidade de Johanesburgo.

Além da votação da presidência, os delegados votaram em outras cinco posições da cúpula do partido. Os seis postos foram igualmente divididos entre as duas facções, indicando que Ramaphosa ainda precisa negociar e se comprometer com aliados de Zuma, segundo Friedman.

O atual presidente do país, que deixará de ser o líder do partido, mas cujo mandato só termina em 2019, vai deixar a seu sucessor uma série de problemas, mas, acima de tudo, um partido de libertação outrora heroico, mas que hoje está associado ao suborno, ao favoritismo e à incompetência, e que vem perdendo adeptos importantes.

Com sua vitória, é quase certo que Ramaphosa seja o próximo presidente da África do Sul, graças à dominância do CNA no parlamento, que escolhe o líder da nação. Segundo especialistas e aliados, ele vai fortalecer o CNA antes das eleições de 2019.

“Ele sempre foi, em sua trajetória, um negociador incrivelmente inteligente, sempre mantendo sua visão no futuro”, disse Barbara Hogan, veterana antiapartheid que serviu no gabinete de Zuma por dois anos e apoiou Ramaphosa.

“Ele não é do tipo que destruiria uma organização em nome de seu próprio ego”, acrescentou Hogan, aludindo a Zuma, que alguns dizem colocar seus próprios interesses acima dos do partido.

Em grande parte por causa dos eleitores negros mais velhos que se lembram bem de seu passado heroico, o CNA ainda é considerado o favorito na próxima eleição geral, mas seus líderes estão alarmados com seu declínio rápido, e Zuma está tão desacreditado que os líderes poderiam substituí-lo por Ramaphosa antes das eleições de 2019 para melhorar as chances do partido.

Por Norimitsu Onishi

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