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Biblioteca virtual é criada para os países da lusofonia

 

Fotografia: João Gomes|Edições Novembro

O Brasil vai criar uma biblioteca virtual sobre saúde para as nações que integram a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), disse a embaixadora brasileira junto da ONU, em Genebra, Maria Farani Azevedo, durante a conferência sobre Doenças Tropicais Negligenciadas, terminada sábado, na cidade suíça, e em entrevista concedida à Rádio ONU.

“Estamos a ultimar alguns preparativos para poder anunciar, ainda na presidência do Brasil na CPLP, que vamos colocar à disposição dos países de língua portuguesa uma biblioteca virtual sobre saúde”, disse.
Por sua vez, o presidente do conselho de administração da farmacêutica brasileira EMS, Carlos Sanchez, anunciou à Rádio ONU a doação de remédios para combater a bouba, uma doença infecciosa que atinge a pele, os ossos e as cartilagens.
Carlos Sanchez disse que o gesto é resultante da disponibilidade manifestada pelo Brasil na luta mundial para a erradicação da bouba. A doação é concedida à Organização Mundial da Saúde para ser distribuída por países de África e da Ásia, onde a doença é “muito comum”, atingindo especialmente crianças dos seis aos dez anos. A bouba foi erradicada do Brasil em 1950.

http://jornaldeangola.sapo.ao/sociedade/biblioteca_virtual_e_criada__para_os_paises_da_lusofonia

 

http://jornaldeangola.sapo.ao/sociedade/biblioteca_virtual_e_criada__para_os_paises_da_lusofonia

Comércio entre a China e os países lusófonos cresceu 32,6 %

O Brasil continua a chamar a si o estatuto de principal parceiro económico de Pequim, à frente de Angola e de Portugal. Nos dois primeiros meses do ano, a China e os países de língua portuguesa trocaram bens e produtos no valor de 14,84 mil milhões de dólares norte-americanos, revelaram as autoridades do Continente.

1.China Comércio

As trocas comerciais entre a República Popular da China e os países de língua portuguesa subiram 32,6 por cento até Fevereiro, em termos anuais homólogos, para 14,84 mil milhões de dólares, indicam dados oficiais ontem dados a conhecer.

Dados dos Serviços de Alfândega do Continente, publicados no portal do Fórum de Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, indicam que a China comprou aos países de expressão lusófona bens avaliados em 10,28 mil milhões de dólares – mais 43,74 por cento – e vendeu produtos no valor de 4,56 mil milhões dólares – mais 12,97 por cento comparativamente aos primeiros dois meses do ano passado.

O Brasil manteve-se como o principal parceiro económico da China, com o volume das trocas comerciais bilaterais a cifrar-se em 10,35 mil milhões de dólares, valor que traduz um aumento de 35,64 por cento em termos anuais homólogos.

As exportações da República Popular da China para o Brasil atingiram 3,69 mil milhões de dólares, reflectindo uma subida de 27,61 por cento, enquanto as importações chinesas totalizaram 6,66 mil milhões de dólares, mais 40,54 por cento face aos primeiros dois meses de 2016.

Com Angola – o segundo parceiro chinês no universo da lusofonia – as trocas comerciais cresceram 42,40 por cento, atingindo 3,48 mil milhões de dólares.

Pequim vendeu a Luanda produtos avaliados em 252,1 milhões de dólares – menos 7,72 por cento – e comprou mercadorias avaliadas em 3,23 mil milhões de dólares – ou seja, mais 48,69 por cento do que em igual período de 2015.

Já com Portugal, terceiro parceiro da República Popular da China entre os países de língua portuguesa, o comércio bilateral cifrou-se em 704,9 milhões de dólares – menos 12,84 por cento –, numa balança comercial favorável a Pequim que vendeu a Lisboa bens na ordem de 425,3 milhões de dólares – menos 35,73 por cento – e comprou produtos avaliados em 279,5 milhões de dólares, isto é, quase o dobro (+90,26 por cento).

A China, recorde-se, estabeleceu a Região Administrativa Especial de Macau como plataforma para a cooperação económica e comercial com os países de língua portuguesa em 2003, ano em que criou o Fórum Macau, que reúne a nível ministerial de três em três anos.

São Tomé e Príncipe passou a fazer parte Fórum Macau no final de Março, após Pequim ter anunciado o restabelecimento dos laços diplomáticos com São Tomé e Príncipe, o que sucedeu dias depois de o país africano ter cortado relações com Taiwan e reconhecido a República Popular da China.

https://pontofinalmacau.wordpress.com/2017/04/18/comercio-entre-a-china-e-os-paises-lusofonos-cresceu-326-por-cento/

União Européia acompanha com otimismo as negociações de paz em Moçambique

Maputo – A chefe da diplomacia da União Europeia (UE), Federica Mogherini, saudou o avanço nas negociações em Moçambique, sublinhando a determinação do Governo e oposição a trabalhar para a paz e a reconciliação.

FEDERICA MOGHERINI – ALTA REPRESENTANTE DA POLÍTICA EXTERNA DA UNIÃO EUROPEIA

FOTO: JOHN THIS

Em comunicado divulgado em Bruxelas, retomado quarta-feira pela AIM, Mogherini salientou que “os desenvolvimentos  são bem-vindos, uma vez que sublinham a determinação de ambas as partes para  afastar as diferenças e trabalhar para a paz e a reconciliação”.

O Presidente da República, Filipe Nyusi, e o líder do principal partido da oposição  (Renamo), Afonso Dhlakama, anunciaram o início de uma nova fase nas negociações, tendo decidido criar um grupo internacional de apoio ao processo de paz em Moçambique, disse a Alta Representante para a Política Externa da UE.

Para Federica Mogherini, as negociações directas entre as duas partes podem agora  focar-se na construção de uma solução sustentada no progresso atingido sob mediação  internacional.

Com efeito, o Presidente da República, Filipe Nyusi, criou um Grupo de Contacto constituído por vários parceiros de cooperação convidados a apoiar o desenvolvimento de  uma paz sustentável em Moçambique.

Um comunicado de imprensa da Presidência da República enviado terça-feira à AIM  explica que a criação do grupo surge “no âmbito do processo de diálogo para o alcance

de uma paz efectiva e duradoura e na sequência das consultas e entendimentos entre o presidente moçambicano Filipe Nyusi e o líder da Renamo, Afonso Dhlakama.

O documento refere que o grupo vai prestar assistência financeira e técnica coordenada,  bem como realizar outras tarefas indicadas nos seus Termos de Referência.

Integram o Grupo de Contacto sete personalidades, incluindo o embaixadores da Federação Suíça (Presidente do Grupo), o dos Estados Unidos da América (Co-Presidente), o da República Popular da China, o chefe da missão diplomática  do Reino da Noruega, e os Altos-Comissários da República do Botswana, a do Reino Unido  da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte e o chefe da missão da União Europeia em Moçambique.

Este Grupo de Trabalho, cujas actividades terão início ainda esta semana, juntar-se-á às  Comissões de Trabalho constituídas por entidades nacionais já designadas pelo  Presidente da República e pelo líder da Renamo que juntos prosseguirão em busca da paz efectiva e definitiva, tendo como mandato debruçar-se sobre questões militares e  de descentralização.

No dia 03 de Janeiro de 2017, Afonso Dhlakama, líder da Renamo, o maior partido da  oposição em Moçambique, confirmou a prorrogação por mais 60 dias o período de  tréguas acordado com o Presidente Nyusi nos contactos telefónicos mantidos  entre as partes, na busca de uma paz efectiva.

Conselho de Segurança da ONU enfatiza o tratado de Conacri

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O Presidente da Guiné-Bissau convocou para quinta-feira o Conselho de Estado, cujas decisões não são de carácter vinculativo, para analisar a crise política do país, após a ONU exigir respeito pelo Acordo de Conacri.

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A decisão de José Mário Vaz foi divulgada depois de a comissão permanente do Parlamento guineense, dominada pelo PAIGC, chumbar na semana passada a proposta do agendamento de análise em sessão plenária do programa do Governo guineense, situação que obriga oficialmente à dissolução do Executivo liderado por Umaro Sissoko Embaló.-;1
Foi igualmente anunciada depois de o Conselho de Segurança das Nações Unidas alargar até Fevereiro de 2018 o mandato do Escritório Integrado da ONU para a Consolidação da Paz na Guiné-Bissau (Uniogbis), manifestar preocupação com a persistente crise política e institucional que envolve o Chefe de Estado, o primeiro-ministro, o líder do Parlamento e partidos políticos e exigir respeito pelo Acordo de Conacri, assinado por estas figuras.
A decisão, adoptada por unanimidade pelos 15 Estados-membros que integram o órgão, foi confirmada pelo embaixador da Ucrânia, Volodymyr Yelchenko, que este mês ocupa a presidência do Conselho.
O Conselho de Segurança refere na resolução que a situação na Guiné-Bissau impede o avanço da agenda nacional de reformas e ameaça minar os progressos realizados desde o restabelecimento da ordem constitucional na Guiné-Bissau após as eleições de 2014.
Este órgão da ONU endossa o Acordo de Conacri assinado pelos actores guineenses em Outubro passado, que definiu um plano para a implementação do roteiro adoptado para resolver a crise política, apela às partes interessadas “a respeitarem rigorosamente o entendimento e o roteiro” e aprovou a continuação do regime de sanções, tal como as resoluções dos últimos dois anos. A resolução das Nações Unidas endossa igualmente a proposta de reestruturação que prevê integrar a missão política às actividades de desenvolvimento no país africano para “reorientar os esforços” destinados a impulsionar as capacidades e o papel político de facilitação e racionalizar a sua estrutura de gestão.
Entretanto, na quinta-feira da semana passada, centenas de guineenses contestaram numa manifestação realizada em Bissau a continuidade do impasse político no país e pedirem para o Chefe de Estado deixar o poder e marcar novas eleições gerais.
Os manifestantes, majoritariamente jovens, percorrem de forma pacífica as principais ruas da capital para exigir a demissão do Chefe do Estado, José Mário Vaz, apontado como o responsável pela crise política no país.
Num relatório apresentado no princípio deste mês, o Secretário-Geral da ONU pedira reformas na “postura operacional” da Uniogbis para reforçar as capacidades políticas com a libertação de recursos das capacidades programáticas.

http://jornaldeangola.sapo.ao/mundo/africa/conselho_de_seguranca_da_onu_enfatiza_o_tratado_de_conacri

A crise também afetou o Carnaval da Guiné-Bissau

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“Carnaval como factor de inserção social económica” foi o lema escolhido, este ano, para animar a maior festa popular na Guiné-Bissau. O carnaval não escapou às consequências da crise e a um braço-de-ferro entre o governo e a comissão organizadora.

Quatro dias de folia. Muito povo nas ruas. A festa, que deve terminar esta terça-feira, concentra-se em Bissau. O carnaval deste ano ficará na história pelo braço-de-ferro entre a comissão organizadora e o governo devido às verbas para a festa.

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Só à última hora é que o Governo decidiu dar dinheiro para que fosse organizado o tradicional desfile. A comissão organizadora tinha apresentado um orçamento de mais de 200 milhões de francos CFA, cerca de 131 mil euros, mas o Governo mostrou-se indisponível para dar todo esse dinheiro e só na véspera é que o executivo avançou com parte dos fundos.

Às pressas, a comissão organizadora chamou os grupos para um concurso. As oito regiões do interior fizeram-se representar mas, de Bissau, apenas participaram no desfile três bairros: Brá, Chada e Chão de Papel e Chão de Papel, este último vencedor do Carnaval 2017.

O atraso na entrega do dinheiro e a indefinição sobre se havia ou não desfile fizeram com que o carnaval deste ano ficasse aquém das expectativas habituais. Os foliões dizem que tudo foi organizado às pressas.

http://pt.rfi.fr/guine-bissau/20170228-crise-tambem-afectou-o-carnaval-da-guine

Câmara de deputados brasileira anula doação de aeronaves a Moçambique

Doação foi acordada em 2013 durante o Governo de Dilma Rousseff

 

A Câmara dos Deputados brasileira aprovou, ontem, por 271 votos a 93, a retirada de tramitação de um projeto que previa a doação de três aeronaves da Força Aérea, modelo Tucano, a Moçambique.

A doação foi acordada em 2013, ainda no Governo da então presidente Dilma Rousseff, mas, para ser efectivada, precisava da aprovação do Congresso. Na época da assinatura do acordo de doação, o executivo brasileiro afirmou que o acto reforçaria o bom relacionamento entre os dois países.  

Porém, em Agosto do ano passado, quando Michel Temer exercia a função de presidente em exercício, o Palácio do Planalto encaminhou um pedido ao Congresso para que tramitação do projeto fosse desconsiderada.

No pedido, o governo de Temer justificou que, diante da demora na tramitação do pedido, houve uma solicitação de reavaliação da doação ainda na gestão de Dilma. O Planalto também argumentou que a doação impactaria de forma negativa na frota da Força Aérea Brasileira.

http://opais.sapo.mz/index.php/internacional/56-internacional/43510-camara-de-deputados-brasileira-anula-doacao-de-aeronaves-a-mocambique-.html

Quezílias internas na Guiné-Bissau agravam um cenário político tenso

Governo entrega programa no Parlamento, mas o presidente não mostra interesse no documento. O país, que atravessa uma das piores crises desde a guerra civil de 1998, continua paralisado.

Guinea-Bissau Parlamentsgebäude (DW/F. Tchumá)

A instabilidade eclodiu quando, em agosto de 2015, o Presidente da República, José Mário Vaz, depôs o Governo liderado por Domingos Simões Pereira, líder do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC).

O agudizar da crise política, com troca de acusações entre os principais órgãos da soberania, deixa o país parado, o aparelho de Estado funciona a meio gás e favorece o aumento da corrupção.

Após dois anos de várias missões de mediações falhadas, a comunidade internacional dá sinais de cansaço e deixa o país numa situação de suspense.

O quinto primeiro-ministro, em mais de dois anos de mandato de José Mário Vaz, luta pela sobrevivência política, carecendo da legitimidade do Parlamento.

Orçamento sem data para discussão

A Assembleia Nacional Popular (ANP) ainda não convocou um plenário para que o primeiro-ministro apresente o programa de Governo e o Orçamento Geral do Estado, os dois principais instrumentos de governação.

Guinea-Bissau Umaro Sissoco (DW/B. Darame)Umaro Sissoco Embaló, primeiro-ministro da Guiné-Bissau

Esta segunda-feira (06.02), Umaro Sissoco Embaló entregou o seu programa de Governo ao presidente do Parlamento. “Fiz a minha parte, agora cabe ao líder do Parlamento fazer a sua: deixar os deputados trabalhar para que o programa do Governo possa ser apresentado, discutido e submetido a votação”, afirmou.

O presidente da ANP, Cipriano Cassamá, tem, no entanto, anunciado publicamente que o Parlamento não irá debater o programa do Governo, por o considerar ilegal.

Antes de receber o programa de Governo, Cipriano Cassamá entregou ao primeiro-ministro uma cópia da Constituição da Guiné-Bissau bem como o regimento de funcionamento da ANP.

Ameaças de demissão

Cipriano Cassamá (Braima Darame)Cipriano Cassamá, presidente da ANP

Quando se disputa o controlo de poder no Parlamento, a troca de corpo de segurança na ANP, determinada pelo ministro do Interior, aumentou a tensão política. Cipriano Cassamá, exige explicações do Governo sobre a decisão.

“É bom não brincar com coisas séries e muito menos inventar factos. Assistimos, outrossim, a uma greve e inaceitável violação do princípio da separação de poderes”, argumenta, o presidente do Parlamento.

Cassamá denuncia que tem sido alvo de ameaças e garante que não se deixa intimidar: “Estou a ser ameaçado de demissão como se estivéssemos no regime presidencialista. A situação é grave”.

UE garante apoio

O delegado da União Europeia (EU) no país, Vítor Madeira dos Santos, garante que, apesar da situação complexa, a ajuda à Guiné-Bissau para o fortalecimento do Estado de Direito e da Democracia vai continuar. Segundo Vítor Madeira dos Santos entre as apostas da UE para 217 está promoção da “democracia e o respeito pelo primado da lei, apoiar a liberdade de informação, melhorar o acesso à justiça para as vítimas de crime e proteger os direitos dos detidos”.

Já para o presidente da Liga Guineense dos Direitos Humanos, Augusto Mário da Silva, os guineenses, reféns da classe política, vivem num mundo da incerteza quanto ao seu futuro.

“Assiste-se à ausência de uma política social efetiva de redução de pobreza orientada para fazer face às reais necessidades da população associada à degradação das infraestruturas sociais, alta taxa de mortalidade materno-infantil, alto grau de desemprego e  fornecimento irregular de energia elétrica”, considera Augusto Mário da Silva.

 

http://www.dw.com/pt-002/quez%C3%ADlias-internas-na-guin%C3%A9-bissau-agravam-um-cen%C3%A1rio-pol%C3%ADtico-tenso/a-37446887

Secretário Geral da ONU vê África um continente de esperança promessa e vasto potencial

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O Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, disse ontem que África é “um continente de esperança, promessa e vasto potencial”, preferindo esta abordagem em vez de olhar para a região“pelo prisma dos problemas”.

Num artigo de opinião, António Guterres refere que “muitas vezes, o mundo vê a África pelo prisma dos problemas; quando olho para a África, vejo um continente de esperança, promessa e vasto potencial”.

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No texto, que surge na sequência da sua participação na cimeira de Chefes de Estado e de Governo da União Africana, que decorreu a 30 e 31 de Janeiro em Addis Abeba, António Guterres garante estar “empenhado em reforçar esses pontos fortes e estabelecer uma plataforma mais elevada de cooperação entre as Nações Unidas, os líderes e o povo da África” e diz que isso é “essencial para promover o desenvolvimento inclusivo e sustentável e aprofundar a cooperação para a paz e a segurança”.
O antigo primeiro-ministro português afirma no texto ter trazido da capital etíope um “espírito de profunda solidariedade e respeito”, mas também “um profundo sentimento de gratidão” pelo contributo africano para as forças de paz da ONU.
África “fornece a maioria das forças de paz das Nações Unidas no mundo; as nações africanas estão entre os maiores e mais generosos anfitriões de refugiados mundiais; em África estão algumas das economias com mais rápido crescimento do mundo”, salienta o antigo Alto-Comissário das Nações Unidas para os Refugiados.
“Deixei a cimeira mais convencido do que nunca de que toda a humanidade vai beneficiar-se ouvindo, aprendendo e trabalhando com o povo de África”, afirma Guterres, que sublinha que a prevenção é essencial para resolver os conflitos.
“Muitos dos conflitos de hoje são internos, desencadeados pela competição pelo poder e recursos, desigualdade, marginalização e divisões sectárias; muitas vezes, eles são inflamados pelo extremismo violento ou por ele alimentados”, lê-se no documento.
A prevenção, prossegue, “vai muito além de nos concentrarmos unicamente no conflito. O melhor meio de prevenção, e o caminho mais seguro para uma paz duradoura, é o desenvolvimento inclusivo e sustentável”, defende.
O Secretário-geral da ONU diz não ter dúvidas “de que podemos vencer a batalha pelo desenvolvimento sustentável e inclusivo, que são também as melhores armas para prevenir conflitos e sofrimentos, permitindo que aÁfrica brilhe ainda mais de forma vibrante e inspire o mundo”. António Guterres deixou a 28.ª Cimeira da União Africana com um forte apelo para a mudança na forma como o continente berço da humanidade é caracterizado pela comunidade internacional, e com a promessa de apoiá-lo na construção do desenvolvimento e da paz sustentáveis.
Na cimeira de Addis Abeba, lamentou a forma como África é descrita na Europa, Américas e Ásia, denunciou o que chamou de “uma visão parcial de África” e disse ser preciso mudar a narrativa sobre o continente na comunidade internacional e que este deve ser reconhecido “pelo seu enorme potencial”.
O líder da ONU elogiou a União Africana pelo “trabalho muito importante em nome do continente”, manifestou “disposição total da ONU em apoiar plenamente as suas actividades” e destacou “o entendimento integral entre a ONU, a União Africana e a Autoridade Intergovernamental para o Desenvolvimento sobre a necessidade de se trabalhar “numa só voz” para pacificar o Sudão do Sul.”
O novo paradigma no relacionamento entre a ONU e os africanos implementado por António Guterres levou o Alpha Condé, o Presidente da Guiné-Conacri e líder em exercício da União Africana, a convidá-lo a participar anualmente num pequeno almoço com Chefes de Estado e de Governo africanos em Janeiro.

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Para o Secretário Geral da ONU, estas ocasiões servem para interagir com líderes africanos e discutir “de forma muito significativa” as relações entre a União Africana e a Organização das Nações Unidas.

 

fonte:http://jornaldeangola.sapo.ao/mundo/antonio_guterres_ve_africa_como_esperanca

O novo colonialismo digital em África

crianca-460x310É preciso advertir que na África são poucos os atores domésticos mencionados no relatório de 2011 que conseguiram sobreviver até hoje. Na categoria das lojas online, por exemplo, só se manteve em pé a sul-africana Exclus1ves. Agora, muitas das tendências citadas há cinco anos não apenas perduraram, mas se intensificaram de maneira acelerada. Estamos nos referindo, em particular, à explosão dos celulares como plataforma privilegiada para o comércio online, para a interação social e para a leitura digital, à influência das incubadoras de start-ups na cena local e ao impacto crescente dos projetos de cooperação tecnológica promovidos – direta ou indiretamente – pelos gigantes globais de Internet. Todos esses fatores acabam sendo decisivos para compreender a singular configuração do ecossistema africano de edição digital.

Nesta primeira parte, analisamos o papel crucial que desempenham os celulares no comércio eletrônico da região, assim como o avanço das grandes plataformas globais como Facebook na vida digital africana.

Os celulares no centro da cena: seu impacto no comércio eletrônico.

Nos últimos cinco anos, os celulares transformaram profundamente o panorama das comunicações na África. Segundo um relatório da GSMA, de julho de 2016, o continente alberga atualmente 565 milhões de usuários de celulares, dos quais mais da metade – 303 milhões – possuem acesso à Internet. Em um contexto caracterizado por limitações de infraestrutura de todo tipo, esses dispositivos relativamente econômicos e flexíveis se transformaram em uma plataforma central para a economia digital. Se tomarmos como variável o tráfego de Internet que circula por celulares medido como porcentagem do tráfego total nacional, Nigéria e África do Sul lideram o ranking mundial, com 82% e 75%, respectivamente – o que indica que, nesses países, o acesso à Internet é realizado predominantemente por via móvel.

No terreno do comércio eletrônico, os grandes atores globais ainda não desembarcaram no continente. Isso pode ser explicado em parte pelos problemas de infraestrutura que mencionávamos anteriormente: na verdade, os obstáculos em termos de transporte, telecomunicações, bancarização e alfabetização atrasaram aconsolidação do e-commerce ao estilo europeu ou norte-americano. No entanto, o acelerado crescimento econômico da região – que muitos comparam com o progresso dos países asiáticos nos anos 60 – favoreceu o surgimento de um bom número de atores locais e, com eles, a formação de um ecossistema singular.

Fundado em Lagos em 2012 com fundos da incubadora alemã Rocket Internet, o portal Jumia conseguiu se transformar em um verdadeiro gigante da Internet, com presença em mais de 10 países da África. Vale a pena remarcar que mais de 50% dos usuários do Jumia acessam a plataforma usando celulares. Como explica Tunde Kehinde – cofundador e diretor da empresa até 2014 –, no ambiente digital, as barreiras do mundo físico podem ser aproveitadas como vantagens:

“Na Nigéria vivem 160 milhões de pessoas que sempre vão precisar comprar uma camisa para alguma ocasião, um telefone para entrar em contato com um amigo o um livro para ler, mas não existe um mercado organizado onde possam conseguir o que precisam, de maneira simples e ao preço que querem. De modo que dissemos:não vamos construir um shopping center; vamos nos jogar na web(). Estamos construindo uma Amazon em um país que não teve um mercado organizado em seus 50 anos de independência. É uma oportunidade única.”

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O site do grupo Jumia, líder pan-africano de comércio eletrônico

Apesar de que o Jumia representa talvez o caso mais chamativo, é preciso reconhecer que na África surgiram inumeráveis portais que apostam no digital como meio para superar as limitações próprias do comércio analógico. Entre eles podemos citar também a nigeriana Konga, as sul-africanas Bidorbuy e Takealot (http://www.takealot.com/) ou a queniana Rupu. Para responder aos desafios logísticos, muitas destas plataformas implementaram sistemas de envio de produtos com motocicletas e até terceirizaram a logística em redes de usuários externos – trata-se do crowd-shipping ou transporte colaborativo.

O meio de pagamento mais utilizado costuma ser em dinheiro na entrega, por causa da baixa penetração dos cartões de crédito e a falta de confiança nas operações online. No entanto, o segmento dos pagamentos móveis ganhou um peso considerável em anos recentes. Além de M-Pesa – serviço pioneiro na transferência de fundos por SMS, que no Quênia é usado por 7 de cada 10 adultos –, na região proliferaram as soluções como Afrimarket, Paga,eTranzact, além de outros sistemas que atraem milhões de usuários. Pouco a pouco, esses serviços incorporam a possibilidade de realizar pagamentos não apenas em nível nacional, mas também internacional. Orange Money – que conta com 19 milhões de participantes – já permite enviar dinheiroentre alguns países africanos e incluso entre esses países e a França.

Assim, parece claro que o comércio eletrônico africano, longe de seguir exatamente o esquema dos países desenvolvidos, apresenta uma configuração própria. Rania Belkahia – diretora de Afrimarket – explica sem rodeios:

“Os modelos calcados no que é realizado em outras partes do mundo não funcionam. [Na África] é preciso conseguir que a oferta esteja adaptada às necessidades locais e possa ser entregue de forma rápida.”

Sacha Poignonnec, atual diretor do Jumia, expressa um ponto de vista similar:

“Nos EUA, o comércio eletrônico está modificando os antigos hábitos de compra lentamente. Aqui, está criando os hábitos. Os usuários estão realizando compras pela primeira vez e fazem isso online, através dos smartphones.”

No final das contas, apesar de – ou talvez, por causa de – todos os desafios pré-existentes, o comércio eletrônico africano conseguiu abrir caminho de um modo sumamente dinâmico. Segundo dados do eMarketer de dezembro de 2015, as vendas online tiveram na África e Oriente Médio um crescimento interanual superior a 28%, enquanto que na América do Norte e Europa ocidental, o aumento foi menor – em torno de 14%.

Aplicativos de mensagens móveis

A região também está passando por um crescimento no terreno das redes sociais. Segundo dados de We Are Social, em vários países da região, o número de usuários ativos cresceu em 2015 a um ritmo superior ao do total de usuários da Internet. No Egito, por exemplo, a quantidade de participantes das redes sociais saltou 20%, enquanto que a base de usuários de Internet cresceu mais lentamente – 8%.

Agora, por causa do particular contexto tecnológico da África, são os aplicativos de mensagens para celulares que mostram maior atividade. No relatório de 2011, retratamos o caso do Mxit, um projeto sul-africano que utilizava os celulares mais básicos como plataforma de funcionamento e que tinha alcançado uma base de vários milhões de usuários. A chegada desmartphones cada vez mais acessíveis e o subsequente ingresso do Whatsapp na região significou um duro golpe no Mxit, que em outubro de 2015 precisou fechar suas operações comerciais e ceder sua tecnologia à Reach Trust – uma entidade sem fins lucrativos. Certamente, o Whatsapp é atualmente o aplicativo de mensagens número um na Nigéria, Quênia e África do Sul – onde, na verdade, exibe os maiores índices de utilização do mundo. Embora menos popular, o aplicativo WeChat – do grupo chinês Tencent – também procura ocupar seu espaço.

Projetos de conectividade impulsionados por empresas tecnológicas globais: o caso de Internet.org / FreeBasics (Facebook)

 

Em contraste com o que ocorre na Ásia ou na América Latina, a penetração do Facebook na África ainda é limitada – apenas 8% do tráfego global da plataforma vem desta região –, o que pode ser explicando em boa medida pelo elevado custo dos planos de dados. Dentro deste marco, o Facebook lançou em 2013 a iniciativaInternet.org, com o objetivo de garantir conectividade – um “direito humano básico”, segundo Mark Zuckerberg – a milhões de pessoas em países em desenvolvimento. Graças a uma aliança com diferentes operadoras de celulares, o Facebook oferece acesso gratuito à rede social e a alguns serviços de terceiros, através do aplicativo FreeBasics,disponível em 44 países – a metade deles está na África. Ao mesmo tempo, a empresa impulsiona diversos programas de conectividade a baixo custo, como ocorre com o drone Aquila ou o sistema WiFi Express.

Apesar de estar claro que em todo o mundo em desenvolvimento a infraestrutura de conectividade apresenta enormes desafios, a solução proposta pelo Facebook não está isenta de complicações, em especial porque se trata de um projeto que expande as possibilidades de conexão, mas não satisfaz plenamente outras necessidades, especialmente a questão dos conteúdos. Na verdade, Internet.org/FreeBasics apenas proporciona aceso aos materiais disponíveis no Facebook e nos aplicativos que aceitarem ser parte do programa. Tal como advertiram numerosas organizações sociais, este tipo de esquema podem atentar contra a neutralidade da web, pois dá prioridade a certo tipo de dados e conteúdos – aqueles transmitidos pela rede social californiana e por seus serviços associados. Este argumento foi decisivo para proibir o FreeBasics na Índia (http://indianexpress.com/article/technology/tech-news-technology/facebook-free-basics-ban-net-neutrality-all-you-need-to-know/). Na África, no entanto, o projeto teve uma melhor acolhida, a tal ponto que, em certos países, as autoridades regulatórias da área de telecomunicações admitiram (http://qz.com/614953/african-regulators-are-unlikely-to-replicate-indias-ban-of-facebooks-free-basics/) que o fornecimento de serviços de dados é hoje mais importante que a questão da neutralidade da web.

Além das regulações adotadas em cada nação, é preciso advertir que em nivel global, Internet.org/FreeBasics levou a um forte debate. Muitas vozes chegaram a denunciar que por trás das medidas filantrópicas do colosso tecnológico pode se esconder uma tentativa de “colonialismo digital”. Por exemplo, Deepika Bahri, professora da Universidade de Emory especializada em estudos pós-coloniais, enumera as semelhanças que existem entre o discurso do Facebook e o modus operandi próprio do colonialismo. Segundo a investigadora, nos dois casos a estratégia aponta para:

1. apresentar-se como um salvador;

2. repetir palavras como “igualdade”, “democracia”, “direitos básicos”;

3. ocultar as motivações de longo prazo;

4. justificar os beneficios parciais como algo que termina sendo melhor que nada;

5. associar-se com as elites locais e com grupos de interesses criados;

6. acusar os críticos de ingratos.

Por outro lado, o engenheiro e ativista indiano Kiran Jonnalagadda estabelece umparalelismo entre a extração de recursos naturais e a captura de dados em grande escala realizada pelas empresas multinacionais como Facebook:

“De um ponto de vista econômico, o colonialismo representa a extração de recursos primários de forma bruta e, simultaneamente, a venda aos consumidores sem que exista uma criação de uma classe capitalista entre os dois elos. Trata-se aqui do mesmo: procuram obter os dados de forma bruta do consumidor e vender serviços. Mas não querem intermediários.”

Por último, Ethan Zuckerman – diretor do Centro de Meios Cívicos do MIT – descreve de maneira crua qual pode ser, no final das contas, o objetivo do Facebook – uma constatação que na verdade poderia ser aplicada a um bom número de projetos tecnológicos parecidos:

O projeto do Facebook me parece colonialista e enganador. Tenta resolver um problema que não compreende, mas não precisa compreender o problema porque já conhece a solução. A solução contribui de forma eficaz para consolidar o Facebook como a plataforma dominante do futuro, em um momento no qual os mercados desenvolvidos estão crescendo menos.”

 

Este artigo foi publicado originalmente no site da Aliança Internacional de Editores

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Octavio Kulesz é formado em Filosofia pela Universidade de Buenos Aires e atualmente dirige a Teseo, uma das principais editoras digitais acadêmicas da Argentina. Em 2010, criou a rede Digital Minds Network, junto com Ramy Habeeb (do Egito) e Arthur Attwell (da África do Sul), com o objetivo de estimular o surgimento de projetos eletrônicos em mercados emergentes. Em 2011, escreveu o renomado estudo La edición digital en los países en desarrollo, com apoio da Aliança Internacional de Editores Independentes e da Fundação Prince Claus. Sua coluna busca apresentar um panorama dos principais avanços da edição eletrônica nos países em desenvolvimento. Tablets latino-americanos, leitura em celulares na África, revoluções de redes sociais no mundo árabe, titãs do hardware russos, softwares de última geração na Índia e colossos digitais chineses: a edição digital no Sul mostra um dinamismo tanto acelerado quanto surpreendente.

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Tecnologia da informação incentiva à leitura na África

Livros digitais sem fins lucrativosera-digital

Garotos beneficiados pela ONG Worldreader cuja missão é missão ‘levar livros digitais a cada criança e a sua família, com o objetivo de melhorar suas vidas’| © Redes Sociais

Além dos projetos de conectividade promovidos por Facebook – ou por outras empresas como Google, com seu projeto Loon –, quais projetos sem fins lucrativos estão sendo impulsionados na África no terreno específico da leitura e edição digital? Também aqui poderíamos mencionar iniciativas filantrópicas procedentes de atores internacionais. O exemplo mais importante é talvez Worldreader. Fundada em 2010 por David Risher – ex-executivo da Microsoft e da Amazon –, esta organização sem fins lucrativos coloca como sua missão “levar livros digitais a cada criança e a sua família, com o objetivo de melhorar suas vidas”. Se no começo – tal como apontávamos no relatório de 2011 – esta entidade só usava dispositivos Kindle, em 2012 incorporou os celulares como plataforma adicional. O catálogo deles chega hoje aos quase 40.000 títulos escritos em 43 idiomas, que foram disponibilizados por 150 editoras, dos quais quase a metade são africanos. Em termos de impacto, os livros digitais da Worldreader alcançaram quase 4 milhões de pessoas em 50 países, principalmente na África. Para esta tarefa, a entidade se associou com diferentes empresas tecnológicas, especialmente com o Facebook – para aparecer listada em FreeBasics –, com a Microsoft – para o desenvolvimento do aplicativo de leitura, entre outros – e com a Amazon – para a organização e a hospedagemdos dados. Vale a pena esclarecer que, em princípio, a Worldreader não doa os dispositivos, estes devem ser financiados por terceiros – chamados “sponsors” – ou pelas próprias escolas e bibliotecas, que devem escolher entre dois tipos de pacotes:

  1. O “blue box”, que contém 50 Kindles carregados com 100 textos (custo: US$ 7 mil).
  2. Ou o “book pack”, que contém entre 100 e 200 textos, mas sem dispositivos, já que estes devem ser disponibilizados pela escola ou biblioteca (US$ 4,5 mil).

Observamos também que a Worldreader não se dedica somente à tarefa de facilitar a leitura, também realiza um acompanhamento exaustivo de todos os dados envolvidos. Isso pode ser visto, por exemplo, no relatório do projetoLEAP, realizado pela Worldreader e o Serviço Nacional de Bibliotecas do Quênia (KNLS), com financiamiento da fundação Bill & Melinda Gates. O programa apresentou, entre seus objetivos, estudar durante o ano de 2014 o uso, função e adoção dos dispositivos Kindle no contexto das bibliotecas. O relatório posterior – bastante detalhado – explica que esta aprendizagem servirá para compreender “a expansão dos programas de leitura digital nas bibliotecas do Quênia e da África Subsaariana”. Por outro lado, em agosto de 2016, no marco da iniciativa Kindle Reading Fund, a Amazon anunciou que doaria milhares de Kindles para apoiar programas de leitura no mundo em desenvolvimento e que colaboraria novamente com a Worldreader para colocar em marcha o projeto LEAP 2.0 em 61 bibliotecas do Quênia.

A Worldreader – que tem uma ampla cobertura da imprensa internacional – pode aumentar sua presença no ecossistema do livro digital africano, à medida que forem se somando novas instituições – tanto públicas como privadas – ao projeto. Contudo, seria importante perguntar se não está repetindo aqui um esquema parecido com o do Facebook com Internet.org/FreeBasics, especialmente pelo fato de que as corporações intervindo extraem dados muito valiosos – tais como preferências temáticas, hábitos de leitura, entre outros –, obtidos de um modo muito simples e que poderiam significar uma vantagem decisiva quando chegar o momento de vender conteúdos digitais ou dispositivos, tanto aos governos quanto aos indivíduos.

 

Além das iniciativas internacionais, existem na África numerosos projetos sem fins lucrativos realizados por entidades locais e FunDza é, talvez, o mais conhecido. Criado em 2012 pela equipe da editora Cover2Cover, esta organização tem a proposta de estimular a leitura entre adolescentes e jovens adultos da África do Sul. Através do seu website – especialmente adaptado às telas de celulares – e de seu aplicativo para Android, FunDza oferece um catálogo de centenas de livros digitais gratuitos – contos, poesias e textos de não ficção. Em 2015, suas atividades beneficiaram cerca de 400.000 usuários que, no conjunto leram mais de 10 milhões de páginas. Os livros do FunDza estão incluídos nos serviços de FreeBasics na África do Sul e em outros países do continente, como Nigéria e Gana. Ao mesmo tempo, o site YoZa – que apresentamos no relatório de 2011 como um dos pioneiros no terreno da leitura móvel na África Subsaariana – cedeu sus textos à plataforma, para sua posterior distribuição.

Zimkhitha Mlanzeli – autora e editora do FunDza – faz uma interessante reflexãosobre a importância de utilizar os celulares no terreno da leitura:

“Os jovens querem ler sobre temas que conhecem, em uma linguagem compreensível. Os contos que escrevo falam diretamente com eles, que conseguem ver o mundo através dos olhos de cada personagem. Sei disso pelos comentários que me enviam. Também ajuda muito o fato de que minhas histórias são compartilhadas no lugar que os jovens passam a maior parte do tempo: em seus celulares. Meu celular não é meu melhor amigo – não consigo ficar olhando para ele o tempo todo. Mas eles conseguem. E precisamos fechar essa brecha que nos separa.”

Outro projeto relevante – também com sede na África do Sul – é o Book Dash, focado desde 2014 na criação colaborativa de livros infantis. As obras são oferecidas com uma licença Creative Commons, tanto em PDF pronto para imprimir como em formato original – InDesign –, para possíveis readaptações. Book Dash surgiu em certa medida como resultado das lições que seu principal impulsionador, o especialista em publicações digitais Arthur Attwell, extraiu da experiência de Paperight, uma plataforma que – como apresentamos no relatório de 2011 –, distribuía ebooks para imprimir em cibercafés e que precisou fechar suas portas no final de 2014. Em seu balanço retrospectivo, Attwell enumera diferentes fatores que podem ter dificultado o avanço do empreendimento, entre os quais poderíamos destacar os seguintes:

  • as publicações oferecidas gratuitamente por Paperight eram muito solicitadas pelos usuários; no entanto, quando a empresa tentou cobrar por elas – inclusive somas modestas, como 1 ou 2 dólares por cópia –, a demanda caiu abruptamente;
  • as editoras tradicionais que forneciam os textos originais não pareciam dispostas a explorar o novo modelo de negócio, de modo que só entregavam seus títulos menos atraentes.

É neste contexto que, para Attwell, faz muito sentido a ideia de distribuir conteúdos digitais com licenças abertas, como propõe a Book Dash:

Capa do livro What is it?, editado pela Book Dash

Capa do livro What is it?, editado pela Book Dash

“Na África do Sul, as soluções comerciais não alcançaram o sucesso esperado: se os clientes são apenas uns poucos early-adopters, então nunca haverá um mercado significativo. Para a maioria dos sul-africanos, os livros são um luxo ao qual jamais poderão ter acesso”.Por outro lado, a iniciativa African Storybook – impulsionada pelo Instituto Sul-africano de Educação à Distância (SAIDE) – oferece a possibilidade de criar, traduzir e adaptar livros ilustrados para um público infantil: suas mais de 400 obras, que foram traduzidas para 60 línguas do continente, podem ser baixadas de maneira gratuita, tanto para leitura digital como para impressão. Finalmente, Bookly e Nal’ibali também utilizaram as novas tecnologias – em especial dos aplicativos de Mxit – para distribuir conteúdos editoriais.

Em janeiro de 2015, com o patrocínio do Instituto Goethe, várias organizações e empreendimentos sociais citados anteriormente se encontraram em Joanesburgo. O encontro tomou como ponto de partida o relatório da UNESCOLeitura na era da mobilidade de 2014 e teve como objetivo discutir as oportunidades e os desafios da alfabetização e a leitura através dos celulares.

Publicações educativas distribuídas por agregadores e startups locais.

Nos últimos anos, surgiu na África um número considerável de empreendimentos digitais focados nos conteúdos educativos. Com sede em Nairóbi, o agregador Ekitabuabastece de livros eletrônicos 650 escolas da África oriental. A empresa tirou seu nome da palavra “Kitabu” – que significa “livro” no idioma suaíli – e em apenas 4 anos conseguiu criar um catálogo de 500.000 títulos em formato PDF e EPUB, fornecidos por mais de 40 editoras, tanto locais quanto internacionais.

E-limu, é outra empresa queniana que vende conteúdos pensados para os alunos de escolas primárias. Os materiais são distribuídos através de um aplicativo criado para dispositivos Android. No começo, a E-limu entregava os materiais pré-carregados em tablets, para evitar o problema da falta de conectividade. No entanto, a proposta deixava dois problemas sem resposta: 1) como fariam para atualizar os conteúdos? e 2) como iam assegurar a durabilidade dos dispositivos? Para enfrentar esses desafios, E-limu recorreu à BRCK: este empreendimento – surgido como tantos outros da incubadora local iHub – fabrica um tablet ultrarresistente chamado Kio e umroteador WiFi que capta sinais de celulares e é ideal para oferecer conectividade em regiões que não possuem acesso à Internet fixa, inclusive sem eletricidade.

Também podemos mencionar aqui o caso do QuickDo-BookBox, um serviço concebido em 2011 pelo engenheiro informático de Camarões – radicado na França – Dominique Buendé, para “converter e distribuir conteúdos em países do Sul, “especialmente em universidades, bibliotecas e centros culturais. QuickDo-BookBox oferece terminais dotados de 500.000 livros eletrônicos de diversas editoras, que podem ser baixados de tablets concebidas ad hoc. O projeto terminou ganhando oprêmio Orange dado a empreendedores sociais africanos (2013) e o prêmio ao empreendedor africano na França (2014).

Também lançado em 2011, Snapplify constitui um dos principais agregadores digitais do continente. Com escritórios em Durbanville, Londres e Nova York, esta empresa distribui os livros eletrônicos de mais de 250 editoras e os integra em sua plataforma de educação virtual. Em 2014, Snapplify apresentouSnappBox, um dispositivo que permite aos estudantes terem acesso aos conteúdos eletrônicos através de uma intranet, em vez da Internet.

Agregadores gerais e lojas por assinatura

Além dos empreendimentos tecnológicos que distribuem conteúdos educativos, existem diversos agregadores gerais e plataformas que propõem um catálogo deebooks por assinatura. Lançado em 2014 por Algérie Télécom, o site Fimaktabatioferece livros digitais de centenas de editoras. O acesso a seus dois portais – acadêmico e geral – custa 22 dólares por ano e pode ser abonado através de cartões pré-pagos. Além disso, a empresa impulsionou a criação da Nooonbooks, uma loja exclusivamente focada em textos em árabe, com mais de 30.000 títulos de ciências exatas, administração, ciências humanas, direito e cultura geral.

Fundado pela empreendedora nigeriana – residente no Reino Unido – Gersy Ifeanyi Ejimofo também em 2014, o projeto Digitalback Books propõe diversos títulos de literatura africana com um custo de assinatura mensal de 13 dólares. As obras podem ser lidas em aparelhos móveis, tanto Android como iOS.

O projeto egípcio Kotobarabia foi um dos primeiros agregadores de livros eletrônicos em árabe do mundo. Desde 2005, já digitalizou milhões de páginase tem como principais clientes as bibliotecas dos EUA e da Europa.

Kotobi é outra plataforma com sede no Egito. Lançada pela Vodafone em 2014, essa livraria digital comercializa títulos em EPUB e está voltada principalmente para os aparelhos móveis. Uma das vantagens de Kotobi é que os pagamentos não são realizados apenas por cartão de crédito, mas também pela conta do telefone e até por SMS. Assim, não é casual que a plataforma tenha crescido consideravelmente: seu aplicativo para Android foi descarregado mais de 500.000 vezes, por usuários que consumiram mais de 1 milhão de livros. Com uma linha parecida ao que falávamos sobre comércio eletrônico africano, para Alaa Zaher – responsável pela área de Estratégia e Inovação de Vodafone e promotor do projeto Kotobi –, as limitações da distribuição física podem se transformar em uma grande oportunidade para a venda digital:

“Os leitores que moram fora das grandes cidades sempre se queixam da falta de livrarias. Querem ler, mas não encontram livros. Eles acabam vindo à Feira do Livro do Cairo uma vez por ano e voltam para suas cidades com bolsas cheias de exemplares. Esse é o segmento que temos como alvo. Nosso objetivo de longo prazo é fornecer livros digitais a todo o mundo árabe.”

No próximo artigo: as editoras africanas na era digital; os audiolivros: um formato em crescimento; a autoedição e a impressão sob demanda.

Octavio Kulesz é formado em Filosofia pela Universidade de Buenos Aires e atualmente dirige a Teseo, uma das principais editoras digitais acadêmicas da Argentina. Em 2010, criou a rede Digital Minds Network, junto com Ramy Habeeb (do Egito) e Arthur Attwell (da África do Sul), com o objetivo de estimular o surgimento de projetos eletrônicos em mercados emergentes. Em 2011, escreveu o renomado estudo La edición digital en los países en desarrollo, com apoio da Aliança Internacional de Editores Independentes e da Fundação Prince Claus. Sua coluna busca apresentar um panorama dos principais avanços da edição eletrônica nos países em desenvolvimento. Tablets latino-americanos, leitura em celulares na África, revoluções de redes sociais no mundo árabe, titãs do hardware russos, softwares de última geração na Índia e colossos digitais chineses: a edição digital no Sul mostra um dinamismo tanto acelerado quanto

http://www.publishnews.com.br/materias/2017/02/07/a-edicao-digital-na-era-da-mobilidade-africa-2/3

O Observatório

Este observatório é uma iniciativa do Grupo de Estudos Africanos vinculado ao Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (GEA/IREL-UnB), que busca refletir sobre a vida política, social e econômica da África contemporânea, com destaque para sua inserção internacional. Preocupando-se com o continente marcado pela diversidade, o Grupo de Estudos Africanos, por meio do Observatório, propõe um olhar crítico e compreensivo sobre temas africanos, em suas mais diversas dimensões.