.
arquivos

Moçambique

Esta categoria contém 89 posts

Onde estão as propostas de desenvolvimento de Moçambique?

Nyusi está prestes a terminar o seu primeiro mandato e não se conhecem projetos seus de desenvolvimento. Por outro lado, nos últimos tempos os seus discursos têm sido marcados por alguma inflexibilidade e dureza.

    
defaultFilipe Nyusi, Presidente de Moçambique

 Só na última semana o Presidente moçambicano causou bastante polémica ao fazer a seguinte afirmação: “Se não estás preparado para viver na capital procura lá outro sítio [para viver]”. Essa foi a reação de Filipe Nyusi as manifestações populares à morte de uma criança de uma escola primária por atropelamento na estrada circular em Maputo.

Também na última semana contra-atacou de forma dura os empreiteiros da área da construção civil que pediram medidas para fazer frente as consequências da crise económica, ao exigir o combate à corrupção no setor.

A rispidez no discurso será o reflexo de alguma saturação por parte do Presidente? Eduardo Sitói é cientista político e acredita que sim: “Talvez seja isso, o que quero dizer é: ele provavelmente não tem muito tato para lidar com grandes multidões. Os seus improvisos não têm aquela áurea, aquele carisma dos outros líderes. Mas ele tem sido eficaz no trabalho mais controlado e direto com os seus principais subordinados, portanto, ele tem esses dois lados diferentes.”

Chinesische öffentliche Arbeiten in Maputo (DW/Romeu da Silva)Estrada circular em Maputo

Nyusi impaciente e frustrado?

Já o sociólogo Elísio Macamo acredita que existam motivos mais profundos na origem da postura de Filipe Nyusi e apresenta justificações para o que chama de deslizes: “Acho que a questão é mais complexa. Ser Presidente de Moçambique, e com todo o respeito que tenho pelos países que vou mencionar agora, não é o mesmo que ser Presidente de Cabo Verde, da Guiné ou do Malawi. Moçambique é um país grande, complexo, com problemas e com desafios extremamente complexos.”

E por isso Macamo argumenta que “é normal que quem esteja à frente de um país destes possa uma e outra vez não conseguir camuflar uma certa impaciência, uma certa frustração em relação à forma como as coisas estão a andar, quando ele tem expetativas que as coisas andem bem. Penso que os deslizes que tem tido explicam-se mais por essa via do que pelo facto de estar cansado ou de lhe faltar tato.”

Depois das fortes críticas ao “empregado do povo”, como é chamado o Presidente no país, Nyusi terá feito um “mea culpa” ao visitar nesta segunda-feira (11.06.) a escola em questão e ter prometido uma ponte aérea e ter apelado para outras medidas para evitar acidentes.

Mea culpa é igual a um pedido de desculpas?

Schweiz Basel Elísio MacamoElísio Macamo, sociólogo moçambicano

Mas isso exclui um pedido de desculpas do “empregado do povo” ao seu “patrão”? Elísio Macamo começa por reconhecer que “foi uma atitude boa da parte dele, deu-se conta de que, de facto, cometeu um deslize. E ao visitar a escola depois dessa celeuma toda ele revelou uma certa “mea culpa“.

E o sociólogo lembra que “isso para um país como o nosso não é coisa de se esperar de um político no lugar onde ele se encontra. Então, ele tem todo o mérito por ter feito isso aí.”

Entretanto faz ressalvas: “Mas é claro que eu acho que ele continuou a não ser feliz na forma como reagiu, porque a questão não é só ir visitar a escola. A questão é pedir desculpas, acho que os nossos políticos precisam de ganhar a coragem de pedir desculpas por deslizes. Ele devia ter feito isso, teria sido bom para a sua própria imagem e para o Governo que dirige.”

Mais um deslize de Nyusi não vai fazer diferença nas eleições

A rispidez discursiva do Presidente moçambicano exacerba quando o país está à beira de eleições: autárquicas em outubro de 2018 e gerais em outubro de 2019. Filipe Nyusi e o seu partido não correm o risco de saírem penalizados nos próximos escrutínios?

O sociólogo responde: “Eu não acho que os resultados das eleições que se avizinham vá depender do comportamento do Presidente agora, porque o maior problema que a FRELIMO enfrenta neste momento é o da sua impopularidade geral. Então, mais um deslize não vai fazer diferença.”

Macamo acredita que “se a FRELIMO tem de desenvolver alguma estratégia em relação a este assunto, essa estratégia não pode ser de controlar o que [Nyusi] diz, vai ter de ver como é que a FRELIMO vai lidar com esta perceção de que a FRELIMO está cansada e que não está com vontade de fazer as coisas.”

Onde estão as propostas de desenvolvimento de Nyusi?

Filipe Nyusi já vai no quarto ano do seu primeiro mandato. Até aqui não se conhecem projetos seus ou do seu Governo focados no desenvolvimento do país, à semelhança, por exemplo, do que aconteceu na Presidência anterior. Armando Guebuza implementou alguns projetos, como é o caso do que visava o desenvolvimento do distrito.

Eduardo Sitói apresenta uma justificação que “muito provavelmente Nyusi esteve muito focado na questão da paz e julgo que por causa desse foco eventualmente não tenha tido a oportunidade e nem espaço para muitas outras iniciativas. Por outro lado, todo este contexto económico e do corte da ajuda internacional criou uma espécie de desaceleração da capacidade do Governo central de fazer investimentos significativos no país.”

Filipe Nyusi é o candidato da FRELIMO para as presidenciais de 2019. Se vencer, eventualmente transitará com os mesmos problemas.E a questão que fica é: Continuará ele sem propostas de projetos para Moçambique?

Anúncios

Presidente de Moçambique no final do primeiro mandato com poucas perspectivas

Nyusi está prestes a terminar o seu primeiro mandato e não se conhecem projetos seus de desenvolvimento. Por outro lado, nos últimos tempos os seus discursos têm sido marcados por alguma inflexibilidade e dureza.

    
defaultFilipe Nyusi, Presidente de Moçambique

 Só na última semana o Presidente moçambicano causou bastante polémica ao fazer a seguinte afirmação: “Se não estás preparado para viver na capital procura lá outro sítio [para viver]”. Essa foi a reação de Filipe Nyusi as manifestações populares à morte de uma criança de uma escola primária por atropelamento na estrada circular em Maputo.

Também na última semana contra-atacou de forma dura os empreiteiros da área da construção civil que pediram medidas para fazer frente as consequências da crise económica, ao exigir o combate à corrupção no setor.

A rispidez no discurso será o reflexo de alguma saturação por parte do Presidente? Eduardo Sitói é cientista político e acredita que sim: “Talvez seja isso, o que quero dizer é: ele provavelmente não tem muito tato para lidar com grandes multidões. Os seus improvisos não têm aquela áurea, aquele carisma dos outros líderes. Mas ele tem sido eficaz no trabalho mais controlado e direto com os seus principais subordinados, portanto, ele tem esses dois lados diferentes.”

Chinesische öffentliche Arbeiten in Maputo (DW/Romeu da Silva)Estrada circular em Maputo

Nyusi impaciente e frustrado?

Já o sociólogo Elísio Macamo acredita que existam motivos mais profundos na origem da postura de Filipe Nyusi e apresenta justificações para o que chama de deslizes: “Acho que a questão é mais complexa. Ser Presidente de Moçambique, e com todo o respeito que tenho pelos países que vou mencionar agora, não é o mesmo que ser Presidente de Cabo Verde, da Guiné ou do Malawi. Moçambique é um país grande, complexo, com problemas e com desafios extremamente complexos.”

E por isso Macamo argumenta que “é normal que quem esteja à frente de um país destes possa uma e outra vez não conseguir camuflar uma certa impaciência, uma certa frustração em relação à forma como as coisas estão a andar, quando ele tem expetativas que as coisas andem bem. Penso que os deslizes que tem tido explicam-se mais por essa via do que pelo facto de estar cansado ou de lhe faltar tato.”

Depois das fortes críticas ao “empregado do povo”, como é chamado o Presidente no país, Nyusi terá feito um “mea culpa” ao visitar nesta segunda-feira (11.06.) a escola em questão e ter prometido uma ponte aérea e ter apelado para outras medidas para evitar acidentes.

Mea culpa é igual a um pedido de desculpas?

Schweiz Basel Elísio MacamoElísio Macamo, sociólogo moçambicano

Mas isso exclui um pedido de desculpas do “empregado do povo” ao seu “patrão”? Elísio Macamo começa por reconhecer que “foi uma atitude boa da parte dele, deu-se conta de que, de facto, cometeu um deslize. E ao visitar a escola depois dessa celeuma toda ele revelou uma certa “mea culpa“.

E o sociólogo lembra que “isso para um país como o nosso não é coisa de se esperar de um político no lugar onde ele se encontra. Então, ele tem todo o mérito por ter feito isso aí.”

Entretanto faz ressalvas: “Mas é claro que eu acho que ele continuou a não ser feliz na forma como reagiu, porque a questão não é só ir visitar a escola. A questão é pedir desculpas, acho que os nossos políticos precisam de ganhar a coragem de pedir desculpas por deslizes. Ele devia ter feito isso, teria sido bom para a sua própria imagem e para o Governo que dirige.”

Mais um deslize de Nyusi não vai fazer diferença nas eleições

A rispidez discursiva do Presidente moçambicano exacerba quando o país está à beira de eleições: autárquicas em outubro de 2018 e gerais em outubro de 2019. Filipe Nyusi e o seu partido não correm o risco de saírem penalizados nos próximos escrutínios?

O sociólogo responde: “Eu não acho que os resultados das eleições que se avizinham vá depender do comportamento do Presidente agora, porque o maior problema que a FRELIMO enfrenta neste momento é o da sua impopularidade geral. Então, mais um deslize não vai fazer diferença.”

Macamo acredita que “se a FRELIMO tem de desenvolver alguma estratégia em relação a este assunto, essa estratégia não pode ser de controlar o que [Nyusi] diz, vai ter de ver como é que a FRELIMO vai lidar com esta perceção de que a FRELIMO está cansada e que não está com vontade de fazer as coisas.”

Ouvir o áudio06:37

Moçambique: O calcanhar de Aquiles de Filipe Nyusi

Onde estão as propostas de desenvolvimento de Nyusi?

Filipe Nyusi já vai no quarto ano do seu primeiro mandato. Até aqui não se conhecem projetos seus ou do seu Governo focados no desenvolvimento do país, à semelhança, por exemplo, do que aconteceu na Presidência anterior. Armando Guebuza implementou alguns projetos, como é o caso do que visava o desenvolvimento do distrito.

Eduardo Sitói apresenta uma justificação que “muito provavelmente Nyusi esteve muito focado na questão da paz e julgo que por causa desse foco eventualmente não tenha tido a oportunidade e nem espaço para muitas outras iniciativas. Por outro lado, todo este contexto económico e do corte da ajuda internacional criou uma espécie de desaceleração da capacidade do Governo central de fazer investimentos significativos no país.”

Filipe Nyusi é o candidato da FRELIMO para as presidenciais de 2019. Se vencer, eventualmente transitará com os mesmos problemas.E a questão que fica é: Continuará ele sem propostas de projetos para Moçambique?

Joaquim Chissano considera “espetacular” o processo de reconstrução de Angola

joaquim-chissanoelei

Garrido Fragoso |

O antigo Presidente de Moçambique considera “espectacular” o processo de reconstrução de Angola. “Também fiz a reconstrução do meu país, mas a de Angola está a ser um tanto ou quanto espectacular”, afirmou Joaquim Chissano, em entrevista colectiva a jornalistas. O nacionalista moçambicano reconheceu que, apesar dos longos anos de guerra e destruição, o país teve uma “direcção clarividente”, que soube fazer a paz, a reconciliação nacional e dirigir bem a economia, para iniciar o processo de reconstrução. Joaquim Chissano disse ainda que, mesmo com a crise mundial, provocada pelo baixo preço do petróleo no mercado internacional, a ideia de diversificação da economia angolana foi posta sempre em prática. Chissano falou também das experiências do seu país no capítulo das autarquias, da democratização no continente africano, das mudanças políticas que ocorrem em Angola e do processo de paz em Moçambique, sobretudo, depois da morte do líder da principal força da oposição, Afonso Dlakhama.

Fotografia: Kindala Manuel | Edições NovembroO que o traz a Angola?
Desta vez, vim responder a um convite para participar no Colóquio Internacional sobre “Os Processos de Autarcisação”. Sei que este assunto está a ser amplamente discutido em Angola, no quadro da preparação das eleições autárquicas, previstas para  2020. Moçambique já tem esta experiência há vários anos. Os organizadores do colóquio acharam pertinente estarmos aqui para trocar experiências sobre a matéria e transmitir a experiência de Moçambique, onde o processo não foi realizado de uma só vez, mas de forma paulatina. Aliás, neste mo-mento, decorre a revisão da Constituição sobre a descentralização, que envolve também as autarquias locais.

Há quem diga que, em Moçambique, a implementação das autarquias locais esteve paralisado, justamente por causa da corrente “gradualismo” …?
Moçambique nunca teve o processo parado. Depois da criação do primeiro grupo de autarquias, houve uma interrupção por motivos organizativos. Mas, depois, o processo continuou e já foram realizadas várias eleições autárquicas, conforme o número designado de autarquias. O processo nunca parou, até porque estamos agora a preparar as eleições autárquicas para este ano, que devem acontecer em Outubro próximo.

Ao que chamam autarquias em Moçambique?

O que em Angola chamam municípios, em Moçambique são distritos. Para nós, os municípios são organizados nas cidades, vilas e, mais tarde, nas povoações, que são os territórios das sedes  dos postos administrativos. Isso é o que nós chamamos autarquias locais. Num distrito, em Moçambique, temos uma ou duas cidades. Na província de Gaza, por exemplo, temos o distrito de Xai – Xai, que é sede da província. Em Gaza, existe o distrito de Chókwé, que conta somente com a autarquia com o mesmo nome (Chokwé).

Afirmou que, em Moçambique, a implementação das autarquias não foi realizada de uma só vez …
Quando dizia que não foi feito tudo de uma só vez, não me referia à implementação das autarquias, mas ao processo de descentralização, que, desta vez, no meu país, vai tomar uma outra forma. Estamos sempre a pensar na Constituição. Vamos emendando e discutindo com outras forças políticas. Existem ainda os acor-
dos políticos. E assim vamos avançando.

Como surgiu a ideia das autarquias em Moçambique?
Aquando da realização do 4º Congresso da Frelimo (partido no poder em Mo-çambique), em 1983, constatou-se que havia demasia-
da centralização e concentração do poder. Era preciso descentralizá-lo e desconcentrá-lo. É neste processo que surgiu a ideia das autarquias, que foi tomando for-ma, no intuito de trazer maior participação do povo na gestão do poder. Em traços largos, é este o sentido da autarquia: uma comunidade que toma a sua autonomia administrativa, fi-
nanceira, política, no exercício do poder. Verifica-se a auto-gestão das comunidades ao nível da autarquia local. Como vê, trata-se de passar o poder de administrar bens, finanças, etc. É um processo que requer não só bens materiais e financeiros, mas recursos humanos. Quanto mais complexa for a autarquia, mais complexa também é o conhecimento dos recursos hu-
manos. É grande o esforço de formação das pessoas que querem dirigir a autarquia. É necessário ainda mobilizar os munícipes para compreenderem o processo e tomarem as suas iniciativas. Essa tomada de consciência também leva o seu tempo. Nós próprios, dirigentes em Moçambique, tivemos de estudar para compreender o que são autarquias e os problemas que se levantam quando as mesmas são constituídas.

Quais são estes problemas?
São os que já defini. Ter os meios necessários, quer materiais quer humanos, e um plano para o aparecimento dessas autarquias com todas as suas características. Para garantir o patriotismo ou o sentimento patriótico nos cidadãos dos nossos países, é preciso não permitir a construção de uma autarquia que constitua motivo de divisão.

O senhor defende mesmo o gradualismo em eleições autárquicas?
Defendo sim. Gradual é um termo científico. Significa irmos fazendo as coisas de forma gradual e continuamente. Realizar as  coisas para que tenham o impacto necessário gradualmente. Queremos autarquias fortes e capazes de se auto gerirem, nas quais a intervenção do Estado vai sendo diminuída, à medida que for aumentada a capacidade das mesmas. Gradualismo não é só ver o território, mas, sobretudo, darmos à autarquia a força de gerar os seus recursos internos.

No vosso caso, as autarquias começaram na era em que o senhor dirigiu Moçambique. Elas contribuíram para a consolidação da democracia no país?
Todo o processo começou com reflexões feitas no seio do partido governante (Frelimo) e na sociedade em geral, em 1983. A nossa independência foi em 1975 e, oito anos depois, já estávamos a pensar no processo de preparação do 4º congresso do partido, de onde surgiram ideias da autarcização e dos órgãos locais do Estado. E isso evoluiu para pensarmos numa descentralização em forma de órgãos do poder local. Discutimos o papel das autoridades tradicionais, que na altura passámos a chamar autoridades comunitárias. Tivemos depois de enveredar para o multipartidarismo, mas não nos esqueçamos que a democracia que queremos não é apenas representativa, mas a que chamamos de autarquias.

Há desvantagem de a implementação das autarquias ser de uma vez ?   
Em Moçambique, se quiséssemos implementar autarquias de uma só vez, já teríamos 500 ou quase 600 autarquias. Não interessa fazer de uma só vez, sem qualquer experiência, nem pontos de referência. Isso é que ditou fazermos as eleições autárquicas de forma gradual. E em  Ango-la já se fala muito do gradualismo de Moçambique, o que significa fazer as coisas de uma maneira paulatina, gradual, aproveitando os melhores momentos para implementar, mas sempre na perspectiva de continuidade.

Mudando um pouco de assunto … como o senhor avalia as mudanças políticas que se operam em Angola?
Angola teve muitos anos de guerra e muita destruição. Mas, felizmente, teve uma direcção clarividente, que soube fazer a paz, a reconciliação nacional e dirigir bem a economia para iniciar o processo de re-construção. Também fiz uma reconstrução rápida no meu país, mas a de Angola foi um tanto ou quanto espectacular.

Porquê “espectacular”?

Porque, apesar da crise mundial, provocada pelo baixo preço do petróleo no merca-do internacional, a ideia de diversificação da economia em Angola foi-se instalando e posta sempre em prática, sobretudo, nos sectores do Turismo, Agricultura, Pecuária, Transportes, reconstrução de infra-estruturas e demais domínios. Há uma economia vibrante em Angola, que eu muito aprecio. Não tive a possibilidade de visitar empreendimentos so-ciais e económicos, mas oiço algumas coisas e vejo à volta de Luanda coisas agradáveis. O povo angolano está de parabéns.

Como vê a transição política que ocorre neste momento em Angola?
De facto, estamos satisfeitos com esta transição de Presidentes, onde um deles ocupa-se apenas das questões do partido. Não sei se vão conservar a coexistência entre os dois Presidentes (um para dirigir o partido e outro o Estado) ou se voltam ao sistema anterior. Tudo isso é possível. Não me quero envolver naquilo que os angolanos vão decidir ou já decidiram.

Sobre este assunto qual é a realidade em Moçambique?
Em Moçambique, decidimos manter o Presidente da República e também líder do partido. E se um dia a oposição ganhar as eleições presidenciais, evidentemente, vai ser esse partido que vai decidir o sistema. Nós também tivemos uma boa transição de um presidente para outro, com eleições. Tivemos coexistência do Presidente cessante com o actual. E isso é muito agradável.

Como encara a morte do líder da maior organização política da oposição moçambicana, Afonso Dhlakama?
Ele morreu dias depois de termos falado ao telefone. Já não sou dirigente do Esta-do, mas sempre encorajei o Presidente Nyusi e Afonso Dhlakama a primarem sempre pelo diálogo. E foi nesse processo de encorajamento das partes que telefonei a Dhlakama para felicitá-lo pela maneira como estavam a decorrer as negociações e encorajá-lo a continuar na mesma senda.

Como reagiu Dhlakama?
Da mesma forma! Pediu-me que continuasse a fazer declarações que encorajassem a Frelimo e a Renamo a encontrar uma plataforma que conduzisse à paz definitiva em todo o território moçambicano. Com Dhlakama, assinei o Acordo de Paz. Naquela altura, já resolvíamos com diálogo todos os problemas que surgiam ao longo das negociações. Com o Presidente Nyusi, as coisas também estavam a caminhar bem. Por isso, foi um grande choque quando soube que morreu a pessoa com quem tinha falado há alguns dias e que nada mais queria senão voltar ao convívio familiar.

Que mais Afonso Dhlakama lhe confessou?

Também me disse que estava com muitas saudades de viver com a família. Nisso percebi que estava em presença de uma pessoa que não parecia muito ávida do poder, que tudo fazia para ser o Presidente. Quando veio ao funeral do meu filho, na altura a minha esposa estava muito magoada pelas atrocidades da Renamo, que envolveram familiares próximos. Nesse dia, e pela primeira vez, minha esposa estendeu a mão a Dhlakama e disse-lhe: “O senhor está desculpado. Já não tenho mais rancor de si. Só penso que se comporte bem no futuro”. O meu sentimento por Dhlakama vai, sobretudo, pelo facto do acordo de paz que já tinha sido alcançado.

O que mais falta para Moçambique concluir o processo de paz?   
Falta a parte relacionada com a desmobilização e desarmamento das forças e posterior integração dos militares na vida social. Penso que não vai ser difícil ultrapassar mais esta empreitada. Tudo porque as balizas estão mais ou menos marcadas. Custou muito saber que um homem como Dhlakama tivesse desaparecido de forma física. Com ele, a reconciliação teria outro sentido. Também no caso de Angola, acho que, se houvesse uma reconciliação com o Savimbi, ela teria outro valor.

Como vê o processo de democratização em África?
É positivo, com seus altos e baixos. Enquanto a maioria dos  países africanos avança com o processo de democratização, outros ainda debatem-se com conflitos sangrentos, como os casos da República Centro Africana, Somália, Sudão do Sul e Líbia: E isso não é agradável. São países que começam a marchar e depois recuam. Mas, na maioria dos Estados, a democratização prossegue.

Angola está num processo de combate contra a corrupção e impunidade. Como avalia o empenho do novo Executivo no combate contra esses fenómenos?
Peço desculpas. Não acompanhei muito este trabalho, que  gostaria imenso de acompanhar. Mas, conhecendo o Governo angolano na pessoa de José Eduardo dos Santos, sei que há quadros idóneos e  íntegros, que querem o bem deste povo. Mas também sei que Angola, como todos os nossos países, tem sido criticado por ex-cesso de corrupção. Mas o facto de já se terem encontrado fórmulas para atacar este problema de maneira contundente é algo muito agradável para ser apoiado.

Nos dias de hoje, é possível acreditar no sentimento patriótico dos angolanos e moçambicanos?
Os nossos países têm os seus povos empenhados na construção de uma Nação. Sinto que, quer em Moçambique quer em Angola, já existe sentimento de pertença a uma Nação, ao contrário do que existia durante a Luta de Libertação.

  Um dos principais negociadores dos Acordos de Lusaka

Joaquim Chissano nasceu a 22 de Outubro de 1939, na aldeia remota de Malehice, distrito de Chibuto, província de Gaza. Frequentou o ensino primário, numa escola oficial na cidade de Xai-Xai, actual capital provincial de Gaza.
Chissano jogou um papel fundamental nas negociações dos Acordos de Lusaka, assinados a 7 de Setembro de 1974, entre a Frelimo e o Governo Português, sobre a Independência de Moçambique.
A 20 de Setembro de 1974, com apenas 35 anos, Joaquim Chissano toma posse como Primeiro-Ministro do Governo de Transição, que conduziria Moçambique à proclamação da Independência Nacional, a 25 de Junho de 1975. É, depois, nomeado Ministro dos Negócios Estrangeiros. Como chefe da diplomacia,  ajudou o país a granjear respeito e simpatia no Mundo.
Com a morte do Presidente Samora Machel, em 1986, Joaquim Chissano é eleito para o lugar. Como Chefe do Estado, Chissano conduziu com sucesso profundas reformas sócio-económicas no país, consubstanciadas na Constituição de 1990, que abriu Moçambique ao multipartidarismo e à economia de mercado.
Como Chefe de Estado moçambicano, Chissano ocupou altos cargos em organizações internacionais, no-meadamente, Presidente da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP); Presidente da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC); Presidente do Órgão da SADC para a Cooperação nas Áreas de Política, Defesa e Segurança e Vice-Presidente da Internacional Socialista. Em Julho de 2003, foi eleito Presidente da União Africana (UA).
Chissano é poliglota. Fala fluentemente cinco línguas: Changana, Português, Swahili, Inglês e Francês. Comunica em mais três línguas: Espanhol, Italiano e Russo. É casado com Marcelina Rafael Chissano, com quem tem 4 filhos.

Fonte:http://jornaldeangola.sapo.ao/entrevista/angola_tem_uma__economia_vibrante

Professores de Moçambique terão bolsas de estudo no Brasil em cursos de pós-graduação

Cento e cinquenta e oito professores moçambicanos poderão beneficiar de bolsas de estudo no Brasil, para frequentar cursos de mestrado e pós-graduação.

África 21 Digital


As bolsas são atribuídas no âmbito da ProAfri 2018, numa iniciativa levada a cabo pelo grupo Coimbra, em parceria com o Ministério da Ciência e Tecnologia, Ensino Superior e Técnico-Profissional, com apoio do Ministério das Relações Exteriores do Brasil.

Neste ano inaugural, o Proafi vai disponibilizar 158 bolsas de estudo, em 29 universidades brasileiras, sendo 117 de mestrado e 41 de doutorado, em todas as áreas do conhecimento.

Segundo o representante do Ministério da Ciência e Tecnologia, Ensino Superior e Técnico-Profissional, Octávio de Jesus, Moçambique conta, atualmente, com mais de cinco mil professores em tempo integral nas universidades públicas, dos quais 58% são licenciados e apenas 541 são doutores.

Fonte:

https://africa21digital.com/2018/06/06/universidades-brasileiras-vao-receber-professores-mocambicanos/

Advertisements

Occasionally, some of your visito

“Não ao ProSavana” camponeses contra o acordo Brasil, Japão e Moçambique

Campanha “Não ao Prosavana” reitera sua posição

Os governos de Moçambique, Brasil e Japão, estão a tomar acções com vista à implementação efectiva do programa Prosavana. Contudo, a campanha “Não ao Prosavana” reitera sua posição contra a implementação desse projecto.

A campanha “Não ao Prosavana”, diz que esses países estão a ignorar todas as contestações dos camponeses moçambicanos e das organizações da sociedade civil, afiliadas ou não ao Pro-savana.

De acordo com o calendário das acções de implementação do programa, as actividades do Pro-savana já iniciaram, sendo que a “Campanha Não ao Prosavana” não foi ouvida e tudo que já foi dito sobre o programa foi ignorado.

Os membros da campanha contra o Prosavana dizem que, esse programa não é e jamais será alternativa de desenvolvimento agrário que se ajuste as necessidades dos moçambicanos.

A campanha continua a defender a agricultura camponesa e familiar, como a única forma do país alcançar a soberania alimentar e evitar que os produtores familiares caiam na armadilha das corporações que pretendem controlar o sistema alimentar.

No entanto, a Campanha Não ao Prosavana mantém a expectativa de um diálogo aberto, democrático, inclusivo e construtivo com o governo para responder as necessidades dos moçambicanos

http://opais.sapo.mz/campanha-nao-ao-prosavana-reitera-sua-posicao

EUA destaca o empenho e a luta de Dhkalama em Moçambique

 

A embaixada dos EUA em Maputo destacou hoje o empenho de Afonso Dhlakama na busca da democracia e paz em Moçambique, encorajando a Renamo e o Governo a honrarem o legado do político.
EUA destacam empenho do líder da Renamo pela democracia e paz

“Através de um esforço conjunto, primeiro com o Presidente Joaquim Chissano e mais recentemente com o Presidente Filipe Jacinto Nyusi, Afonso Dhlakama provou a Moçambique e ao mundo que estava empenhado em alcançar a democracia e uma paz duradoura”, diz a embaixada norte-americana, em comunicado hoje divulgado em Maputo.

A nota prossegue assinalando que, mesmo nos seus últimos dias, o líder da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) trabalhou perseverantemente para promover os objectivos da descentralização e desmilitarização do braço armado do principal partido da oposição.

“Encorajamos os líderes da Renamo e os seus interlocutores no Governo da República de Moçambique a honrar o legado de Afonso Dhlakama, ao concluir este grande projecto pelo qual dedicou os últimos anos da sua vida”, lê-se no comunicado.

O líder da Renamo, Afonso Dhlakama, morreu na quinta-feira pelas 08:00, aos 65 anos, na Serra da Gorongosa, devido a complicações de saúde.

O Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, referiu à Televisão de Moçambique (TVM) que foram feitas tentativas para o transferir por via aérea para receber assistência médica no estrangeiro, mas sem sucesso.

Fontes partidárias contaram à Lusa que o presidente do principal partido da oposição moçambicana faleceu quando um helicóptero já tinha aterrado nas imediações da residência, na Gorongosa.

O seu corpo encontra-se desde a madrugada na morgue do Hospital Central da cidade da Beira.

https://noticias.sapo.mz/actualidade/artigos/eua-destacam-empenho-do-lider-da-renamo-pela-democracia-e-paz

Moçambique continuará a busca pela paz

 

A Renamo, principal partido da oposição em Moçambique, afirmou hoje que vai prosseguir com os esforços de busca da paz no país, respeitando o legado deixado pelo seu líder, Afonso Dhlakama, que morreu na quinta-feira vítima de doença.
Renamo diz que vai prosseguir com busca da paz

“O líder deixou os ´dossiers` [sobre a paz] claros, estão discutidos e estão na mesa, o que precisamos é que ninguém mude, ninguém altere”, disse, em declarações à Lusa, em Maputo, o chefe nacional adjunto para Mobilização da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), Domingos Gundana.

Domingos Gundana assegurou que os membros da Renamo estão comprometidos com a manutenção da paz e vão empenhar-se em concluir com sucesso o processo negocial com o Governo.

“Estamos em paz neste momento, se alguém ainda pensa em guerra, está fora do rumo, nenhum membro da Renamo está a pensar no passado [de guerra]”, acrescentou.

Os membros e simpatizantes da Renamo, prosseguiu, saberão honrar o legado de paz que Afonso Dhlakama deixou.

Domingos Gundana adiantou que a Comissão Política da Renamo poderá reunir-se hoje na cidade da Beira para discutir a sequência das exéquias fúnebres de Afonso Dhlakama e os passos necessários para a normalização da situação do partido após a morte do seu líder.

O chefe nacional adjunto para a Mobilização da Renamo afastou o risco de tensões entre a ala política e o braço armado do partido, realçando o princípio da unicidade.

“A Renamo foi sempre una, teve sempre um líder e nunca houve divisões”, enfatizou Domingos Gundana.

O líder da Renamo, Afonso Dhlakama, morreu na quinta-feira, aos 65 anos, na Serra da Gorongosa, devido a complicações de saúde.

O Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, referiu à Televisão de Moçambique (TVM) que foram feitas tentativas para o transferir por via aérea para receber assistência médica no estrangeiro, mas sem sucesso.

Fontes partidárias contaram à Lusa que o presidente do principal partido da oposição moçambicana faleceu quando um helicóptero já tinha aterrado nas imediações da residência, na Gorongosa.

O seu corpo encontra-se desde a madrugada na morgue do Hospital Central da cidade da Beira.

 https://noticias.sapo.mz/actualidade/artigos/renamo-diz-que-vai-prosseguir-com-busca-da-paz

Militantes da Renamo preparam a despedida do líder Dhkalama

00000000000000                            À porta, alguns militantes juntam-se para aguardar pelo final da reunião da comissão política do partido, na sede provincial, que deverá decidir como será feito o adeus a Afonso Dhlakama.

“Só saímos daqui quando soubermos quando é o funeral”, refere, Cândido Vaja, militante integrado num grupo que não passa de 50 pessoas, sentados em cadeiras e bancos dispostos no recinto da sede distrital, noutra ponta da cidade, num ambiente sereno.

A morte do líder da oposição moçambicana causou uma tal surpresa que é natural que ainda não haja maior mobilização, conta um outro militante à Lusa.

A mesma surpresa a que faz alusão Manuel Bissopo, secretário-geral da Renamo, para pedir aos jornalistas tempo para o partido se reunir, remetendo quaisquer declarações para depois do encontro da comissão política.

Pelas 15:00 (menos uma hora em Lisboa), aguardava-se ainda pela chegada de alguns membros do órgão, oriundos de Maputo.

Entretanto, articulavam-se também os contactos com a família de Dhlakama.

Para já, segundo referiu, prevê-se que o funeral decorra em Mangunde, distrito de Chibabava, no interior da província de Sofala, terra natal do líder da Renamo, ainda sem data marcada.

O corpo de Afonso Dhlakama foi transportado de madrugada desde a Serra da Gorongosa e encontra-se na morgue do Hospital Central da Beira, onde à porta permanecem dois militantes de base.

São uma espécie de últimos guardiões do comandante, admitem à Lusa, enquanto aguardam também por novidades.

A cidade da Beira foi a última cidade onde Dhlakama residiu antes de se retirar para a serra da Gorongosa, em 2015, recorda Vaja, que participou nalgumas sessões políticas dinamizadas pelo líder.

“Ele ensinava-nos o que fazer. Em 2017, na serra da Gorongosa, juntou jovens para uma acção sobre preparação de eleições e sobre como detectar acções de fraude”, refere.

Décadas antes, a luta tinha sido feita de armas nas mãos e Janete Tenene, que hoje chora à porta da sede provincial, na Beira, foi uma das militares da Renamo.

“Lutávamos nas matas contra a Frelimo, porque queríamos o multipartidarismo em Moçambique, e ele foi o nosso grande dirigente”, descreve.

Janete foi combatente até à assinatura dos Acordos de Paz de 1992 e aponta o comandante com “um amigo de todos e de tudo”.

A antiga militar faz parte de um grupo que viajou por estrada durante sete horas, de Chimoio, capital provincial de Manica, até à Beira para render a última homenagem a Dhlakama.

“Vai fazer muita falta em Moçambique”, para o processo de paz em curso, acrescentou.

Alberto João, militante da Renamo, tem fé e acredita que “a paz vai continuar”. Há condições, tudo depende do Governo”, conclui.

O líder da Renamo, Afonso Dhlakama, morreu na quinta-feira pelas 08:00, aos 65 anos, na Serra da Gorongosa, devido a complicações de saúde.

O Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, referiu à Televisão de Moçambique (TVM) que foram feitas tentativas para o transferir por via aérea para receber assistência médica no estrangeiro, mas sem sucesso.

Fontes partidárias contaram à Lusa que o presidente do principal partido da oposição moçambicana faleceu quando um helicóptero já tinha aterrado nas imediações da residência, na Gorongosa.

https://noticias.sapo.mz/actualidade/artigos/obitodhlakama-adeus-ao-lider-da-renamo-prepara-se-na-cidade-da-beira

Bispos católicos moçambicanos mostram preocupação e pedem “serenidade e humildade” depois do falecimento de Dhlakama

A Conferência Episcopal de Moçambique (CEM) pediu hoje “serenidade e humildade” face à morte de Afonso Dhlakama, líder da Renamo, exortando o principal partido da oposição a saber reerguer-se para honrar o compromisso com a paz.
Bispos católicos moçambicanos pedem “serenidade e humildade”

“É um momento doloroso para o país, porque morre um grande protagonista e peça-chave para a paz, mas os moçambicanos devem reagir a este acontecimento com serenidade e humildade”, disse à Lusa o porta-voz da CEM e bispo de Chimoio, centro de Moçambique, João Nunes.

João Nunes assinalou que Afonso Dhlakama entendeu o clamor do país pelo fim da violência nos vários ciclos de confrontação militar que opuseram a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) e as Forças de Defesa e Segurança (FDS) moçambicanas.

“Nas circunstâncias mais difíceis, compreendeu que a paz era muito importante e agiu como interlocutor válido”, declarou João Nunes.

Para o porta-voz do CEM, o líder da Renamo voltou a encontrar o caminho da paz quando recentemente chegou a acordo com o Presidente da República, Filipe Nyusi, sobre a proposta de revisão pontual da Constituição da República visando o aprofundamento da descentralização.

“A Renamo deve ter a determinação de se reerguer deste momento duro provocado pela perda e honrar o compromisso que o seu líder tinha manifestado para com a paz”, afirmou.

João Nunes apelou à Frente de Libertação Moçambicana (Frelimo), partido no poder, para que actue com humildade e sentido de Estado, trabalhando com a Renamo para a estabilidade do país.

“O rumo em direcção à paz não deve sofrer desvios, a Frelimo deve ter a coragem de sempre colocar o interesse nacional acima de quaisquer outros”, frisou.

O líder da Renamo, Afonso Dhlakama, morreu na quinta-feira pelas 08:00, aos 65 anos, na Serra da Gorongosa, devido a complicações de saúde.

O Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, referiu à Televisão de Moçambique (TVM) que foram feitas tentativas para o transferir por via aérea para receber assistência médica no estrangeiro, mas sem sucesso.

Fontes partidárias contaram à Lusa que o presidente do principal partido da oposição moçambicana faleceu quando um helicóptero já tinha aterrado nas imediações da residência, na Gorongosa.

O seu corpo encontra-se desde a madrugada na morgue do Hospital Central da cidade da Beira.

https://noticias.sapo.mz/actualidade/artigos/bispos-catolicos-mocambicanos-pedem-serenidade-e-humildade

A morte do lider da RENAMO abre um período de incertezas em Moçambique

Afonso Dhlakama, presidente da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo, principal partido da oposição), morreu ontem, aos 65 anos, devido a complicações de diabetes, noticiou a imprensa moçambicana que citou fonte partidária.

Fotografia: DR

Outras fontes da Renamo confirmaram à agência Efe a morte de Dhlakama, mas não deram detalhes da causa.
Dhlakama vivia refugiado na serra da Gorongosa, no centro do país, desde 2016, tal como já o havia feito noutras ocasiões, quando se reacendiam os confrontos entre a Renamo e as forças de defesa e segurança de Moçambique.
De acordo com a Televisão Independente Moçambicana (TIM), Dhlakama morreu quando aguardava, na serra da Gorongosa, por um helicóptero, para ser evacuado para a África do Sul, onde iria ser submetido a tratamento médico.
Depois de abandonar Maputo, o líder da Renamo estava escondido no interior da serra da Gorongosa, na província de Sofala, em Moçambique, desde 2015.
Dhlakama era desde 1984 o líder político da Renamo, movimento criado pela antiga Rodésia (hoje Zimbabwe) e a África do Sul para lutar contra a alegada extensão do comunismo na região, e portanto contra o partido no poder, a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo).
A assinatura dos Acordos de Paz de Roma (1992), rubricados com o então Presidente e líder da Frelimo, Joachim Chissano, puseram fim a uma guerra civil de 16 anos, iniciada após a independência do país, de Portugal, com um saldo de um milhão de mortos.
Apesar do acordo de 1992, a Renamo continuou a realizar ataques esporádicos em diferentes zonas de Moçambique até à assinatura definitiva da paz, em 5 de Setembro de 2014, a 40 dias das últimas eleições.
Após várias rondas de negociações, nesse dia o então Presidente moçambicano e líder da Frelimo, Armando Guebuza, e Afonso Dhlakama assinaram um acordo de paz que punha fim a dois anos de conflito no país.
Durante a assinatura da paz em Maputo, o líder opositor expressou o desejo de mudar radicalmente o panorama político das “últimas duas décadas” no país, nas quais, segundo sua opinião, houve uma “sistemática concentração do poder num punhado de privilegiados”.
Dhlakama, nascido em 1953 em Mangunde, na província central de Sofala, onde a Renamo tem uma das suas fortificações tradicionais, tornou-se líder do grupo após a morte em combate em 1979 do primeiro chefe do movimento, André Matsangaissa, e, como político, manteve o partido governamental em xeque durante mais de duas décadas.
Sob a sua liderança, a Renamo chegou a ser acusada pela comunidade internacional de cometer crimes contra a humanidade, como massacres de civis e recrutamento de crianças-soldado.
O líder opositor perdeu eleições de maneira sucessiva, sendo as primeiras em 1999, com o então Presidente Joaquim Chissano.
Dhlakama disputou as quartas eleições de 2009 com Armando Guebuza, tendo igualmente perdido as mesmas.
A última votação, em 2014, foi vencida pelo actual Presidente do país e candidato da Frelimo, Filipe Nyussi.

Líder da Renamo
foi membro da Frelimo

Afonso Macacho Marceta Dhlakama nasceu em Mangunda, na província de Sofala, no centro de Moçambique, a 1 de Janeiro de 1953 e estava há mais de 40 anos na liderança da Renamo.
Dhlakama vivia refugiado na serra da Gorongosa, no centro do país, desde 2016, tal como já o havia feito noutras ocasiões, quando se reacendiam os confrontos entre a Renamo e as forças de defesa e segurança de Moçambique.
Apesar de se auto-intitular “pai da democracia moçambicana”, e para muitos simpatizantes ser o “Mandela ou Obama moçambicano”, Afonso Dhlakama era igualmente visto como um “senhor da guerra”.
Entre o afável e o incendiário, Dhlakama era uma figura controversa. “Se não gostarem de mim, depois de cinco anos, podem-me mandar embora, porque não vou matar ninguém”, disse o líder da Renamo num comício no centro do país em 2014, respondendo desta forma aos críticos que o acusavam de recorrer à violência para fazer vingar os seus pontos de vista na política de se comportar como “dono” da Renamo (Resistência Nacional Moçambicana), que dirigia desde os 23 anos.
Em 1974, com o fim da guerra colonial, o político e militar ingressou na Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), tendo acabado por abandonar esse movimento para se tornar, dois anos depois, um dos fundadores da RNM (Resistência Nacional de Moçambique). Após a morte de André Matsangaíssa em combate e depois de uma luta pela sucessão, Dhlakama assume a liderança do movimento que passa a ser designado por Renamo.
Depois de uma guerra civil de 16 anos, movida com o apoio do apartheid,  Dhlakama assina o Acordo Geral de Paz com o então Presidente do país, Joaquim Chissano, líder da Frelimo, a 4 de Outubro de 1992, em Roma, passando a Renamo a ser um partido político. A primeira vez que concorreu como candidato às eleições gerais (legislativas e presidenciais) foi em 1994, dois anos depois do acordo firmado em Itália.

Conflito arrasou o país

A guerra civil em Moçambique foi uma das mais brutais de África. A RENAMO teve má fama por causa da destruição de escolas e centros de saúde, da minagem de estradas e pelo recrutamento de crianças soldados. A violência causou aproximadamente 900.000 mortos. Milhões refugiaram-se dentro ou fora de Moçambique.
Mesmo contra os princípios do Acordo Geral de Paz de Roma, que previu a desmobilização total dos rebeldes da RENAMO, Dhlakama sempre manteve um exército privado do partido. Treinaram longe do olhar do público em bases fechadas no interior da província de Sofala, nas localidades de Maríngué e Inhaminga.
O escritor moçambicano Mia Couto chegou a criticar o estilo militarista de fazer política de Dhlakama numa entrevista ao canal privado STV: “Ficámos reféns do medo de alguém que reiteradamente veio anunciar que ‘agora sim vou voltar à guerra, vou incendiar o país’… Ele escolheu vários tipos de discursos que são realmente ameaças”, disse.
Dhlakama reagiu com um auto-isolamento na Serra da Gorongosa, abandonando a sua mansão em Maputo.
“Desde Outubro de 2012, quando Afonso Dhlakama se retirou para o seu antigo quartel general da guerra civil, abandonou de facto as instituições de Moçambique e as plataformas democráticas existentes”, disse uma analista do instituto britânico de estudos políticos, Chatham House, Elisabete Azevedo-Harman. “Isolou-se da capital Maputo e dos outros actores políticos”, acrescentou.

http://jornaldeangola.sapo.ao/mundo/morreu_afonso_dhlakama

O Observatório

Este observatório é uma iniciativa do Grupo de Estudos Africanos vinculado ao Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (GEA/IREL-UnB), que busca refletir sobre a vida política, social e econômica da África contemporânea, com destaque para sua inserção internacional. Preocupando-se com o continente marcado pela diversidade, o Grupo de Estudos Africanos, por meio do Observatório, propõe um olhar crítico e compreensivo sobre temas africanos, em suas mais diversas dimensões.
Anúncios