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Toivo Ya Toivo, herói da independência da Namíbia

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Ativista recebe homenagens neste domingo de companheiros de resistência e organizações da sociedade civil.

Andimba Toivo ya Toivo (centro), Hage Geingob (direita) e outro líder aterrisam para encontro com Anton Lubowski (Foto: John Liebenberg via University of Cape Town Libraries)

Companheiros de resistência e organizações da sociedade civil estão rendendo homenagens neste domingo (11) na Namíbia e na África do Sul ao emblemático ativista Herman Andimba Toivo Ya Toivo, um dos pais da independência de seu país e companheiro de prisão de Nelson Mandela.

Toivo Ya Toivo morreu na sexta-feira (9) aos 93 anos de idade, na Namíbia, deixando para trás uma vida de comprometimento político que o levou a passar 16 anos na cadeia e que, por fim, lhe rendeu cargos de ministro no governo do país.

Organizações como a Fundação Ahmed Kathrada – que leva o nome de outro ícone da resistência ao Apartheid na África do Sul que morreu este ano – se juntaram às homenagens e às condolências.

Toivo Ya Toivo foi um dos fundadores da Swapo (Organização do Povo do Sudoeste da África), o movimento de guerrilha que combatia a dominação colonial da África do Sul na Namíbia (chamada então de África do Sudoeste) e que governa o país desde a sua independência em 1990.

O histórico líder foi um dos 36 namíbios detidos em 1966 pelo governo segregacionista sul-africano e encarcerados na ilha-prisão de Robben Island, onde Nelson Mandela passou 18 anos.

Toivo Ya Toivo – que participou de greves de fome na prisão e passou nove meses em regime de isolamento por agredir um guarda – foi libertado em 1984 e continuou o seu trabalho político ao assumir o cargo de secretário-geral da Swapo e vários ministérios após a independência da Namíbia.

O Congresso Nacional Africano (CNA) – partido de governo na África do Sul e aliado da Swapo durante a luta contra o Apartheid – lembra Toivo Ya Toivo como “um lutador pela liberdade” e um “pan-africanista e internacionalista progressista” que também defendeu a causa dos trabalhadores.

Uma das ações que o herói da história da Namíbia fez na clandestinidade foi enviar à ONU depoimentos gravados de trabalhadores sul-africanos do setor da mineração sobre as duras condições de vida nos jazigos do país, uma ação que lhe rendeu represálias por parte do regime de Pretória.

 

 http://g1.globo.com/mundo/noticia/morre-toivo-ya-toivo-heroi-da-independencia-da-namibia-e-companheiro-de-prisao-de-mandela.ghtml

Acordos de Bicesse de 1991

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Num dia como hoje, do ano de 1991, o Governo da República de Angola aceitou o repto para se fazer presente na localidade de Bicesse, em Portugal, para assinar com a então rebelião armada os Acordos de Bicesse, que marcaram uma fase importante de interrupção do conflito militar.

 

Contrariamente às expectativas que apontavam para a eventual improbabilidade de o Governo angolano aceitar o desafio da paz e da abertura ao multipartidarismo, o Presidente José Eduardo dos Santos soube colocar os interesses de Angola acima de quaisquer outros.

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Tratou-se também de um momento que serviu para dissipar todas as dúvidas relativas à suposta falta de abertura para o diálogo e a concertação como vias para terminar o conflito armado. Do lado do Governo, todas as apostas no sentido da paz foram feitas sem reservas, acompanhadas de reformas para abertura política e institucional que viabilizaram o multipartidarismo e a economia de mercado.
A partir de Maio de 1991 e por força dos Acordos de Bicesse, Angola passou a dispor de 14 meses até à realização das eleições legislativas e presidenciais, realidade para a qual deviam dedicar-se e preparar-se todos os actores políticos. O Governo do MPLA apostou na paz, no fim do sofrimento da população, no fim da destruição do país e, independentemente de situações menos boas que terão ocorrido, era sólida a decisão e o compromisso do poder político angolano.
Do lado da então rebelião armada, liderada por Jonas Savimbi, não se podia dizer o mesmo na medida em que, como os factos históricos demonstram, se tratou apenas de mais um passo táctico para continuar a estratégia de tomada de poder por meios não democráticos.

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Já em Gbadolite, localidade a norte do ex-Zaire da era Mobutu, três anos antes, Jonas Savimbi tinha assumido o compromisso perante duas dezenas de Chefes de Estado africanos em nome da paz, para depois dar o dito por não dito, retomando a guerra.
Em Bicesse, precedido de numerosas rondas de conversações, testemunhado por uma Troika com representantes das duas superpotências mundiais e do país anfitrião, o tempo provou que a delegação da UNITA foi para ganhar tempo. Não é exagerado dizer que para Jonas Savimbi não estavam em causa a paz e toda a abertura política, econômica, social que o país viria a conhecer, mas sim a busca do poder político a qualquer preço.
Na verdade, atendendo a experiências passadas, a ida a Bicesse constituía um grande teste para a rebelião armada liderada por Jonas Savimbi, cuja seriedade e respeito pela palavra falada e escrita estiveram sempre condicionados ao seu principal objectivo, o poder. Esta realidade comprovou-se de várias formas, todas elas devidamente registadas na História recente do país e sobre as quais vale a pena revisitar não apenas para sermos capazes de melhor entender o que se passou, mas igualmente para evitar a repetição.
Ao manter intactas as suas forças armadas, numa altura em que a paz e o processo que levariam à realização das eleições pareciam completamente irreversíveis, a UNITA de Jonas Savimbi nunca tinha desistido de nada que atrapalhasse a sua caminhada pelo poder pela força. Rejeitou os resultados eleitorais, cujas presidenciais previam ainda uma segunda volta, com o famoso argumento segundo o qual “as eleições apenas são livres e justas quando são ganhas.”
Naquela altura, erradamente designado como Muata da Paz, Jonas Savimbi foi, na verdade, um mensageiro da morte e da destruição na medida em que tinha como estratégia “ou todos ganhavam com ele, ou todos se afundavam com ele”. E não há dúvidas de que levou essa tenebrosa estratégia até ao fim, arrastando consigo milhares de famílias e soldados, que definhavam pelas matas, espalhando a morte e a destruição por todo o país. Os seus principais patrocinadores rapidamente se aperceberam da inutilidade da aposta num homem que fazia da guerra a continuação da sua política para alcançar o poder a qualquer preço, razão pela qual se posicionaram do lado certo da História.
Embora muitos defendam que não vivemos tempos para estas reflexões ou exposições, insistimos que os factos históricos não podem ser apagados ou distorcidos sob pena da sua repetição. Vinte e seis anos depois e numa altura em que a paz e a estabilidade se alicerçam a cada dia que passa, os angolanos devem continuar a empenhar-se para a construção de uma sociedade livre, justa, democrática, solidária, de paz, igualdade e progresso social. Lembrar os factos passados, ter em linha de conta os erros cometidos, ganhar consciência sobre a necessidade de fazer melhor no presente e no futuro fazem parte das reflexões que se impõem neste momento.
Bicesse foi um marco importante, porque ajudou a dissipar dúvidas sobre as reais intenções dos principais protagonistas, sobre quem defendeu a paz e a democracia, bem como, 26 anos depois, o papel que se espera de cada angolana e angolano. Devemos todos empenhar-nos para que os superiores interesses de Angola nunca venham a ser preteridos a favor de conveniências de grupo ou de pessoas a ponto de condicionar a vida de milhares de angolanos.

http://jornaldeangola.sapo.ao/opiniao/editorial/bicesse_26_anos_depois

Namíbia exige justiça da Alemanha pelo seu primeiro holocausto

De 25 de novembro de 2016 a 12 de março de 2017, o Museu do Holocausto em Paris, França, organizou uma exposição dedicada ao genocídio de dois povos da Namíbia, os hereros e os namas, aquele que é hoje amplamente considerado o primeiro genocídio do século XX.

Após a Conferência de Berlim de 1884, quando as potências europeias dividiram a África entre si, a Alemanha governou o Sudeste Africano Alemão (atual Namíbia) até 1915.

Entre 1904 e 1908, os colonizadores alemães perpetraram um genocídio contra os povos hereros e namas, exterminando 65 000 hereros e 10 000 namas. Num detalhe particularmente macabro, os crânios de algumas vítimas foram levados até a Alemanha para investigação científica acerca da suposta desigualdade racial.

Por fim, sob a liderança de Samuel Maharero, membros das duas tribos organizaram uma revolta bem sucedida contra os alemães, recuperando as suas terras e pondo fim à violação em massa e a outras formas de degradação perpetradas pelos ocupantes alemães. Lutaram numa guerra de guerrilha que levou à situação que Véronique Chemla descreve no seu blogue como «um conflito maior». Véronique Chemla, jornalista de assuntos internacionais da American Thinker, da Ami e da FrontPage Mag, explica:

  • hereros e os namas

A 12 de janeiro de 1904, «ao mesmo tempo que as tropas alemãs tentavam sufocar a «revolta» dos nama Dondelswartz a sul, os herero Okahandja, exasperados pelas injustiças cometidas por Zürn (Comandante de Estação, tenente Ralph Zürn) e pela progressiva perda de território, atacaram explorações agrícolas e empresas alemãs e a infraestrutura colonial. Estes ataques resultaram numa brutal repressão por parte dos soldados e dos colonos, que levaram a cabo linchamentos e represálias indiscriminadas».

Na Alemanha, no seguimento das «descrições exageradas destes ataques, nasceu um verdadeiro desejo de guerra».

Ao mesmo tempo que a violência continuava a crescer, o levantamento local transformou-se num grande conflito, o que obrigou Maharero a colocar-se do lado dos «rebeldes». Para grande enfado dos políticos de Berlim, os homens de Maharero triunfaram, num primeiro momento, na sua resistência às tropas do (administrador colonial Theodor) Leutwein com técnicas de guerrilha. Leutwein foi dispensado do seu comando e substituído pelo implacável general Lothar von Trotha, que havia chegado à colónia em junho de 1904 com milhares de homens.

O general Lothar von Trotha dirigiu 15 000 homens numa implacável campanha de repressão. A 2 de outubro de 1904, deu ordens aos seus oficiais para realizarem o extermínio sistemático de membros das duas tribos, como se descreve numa publicação do Le Blog de Daniel Giacobi, professor francês de História:

Os hereros não são mais súbditos alemães. Se não aceitam isto, ser-lhes-á imposto pelas armas. Devem sair do país ou expulsá-los-ei com o «groot Rohr» [canhão grande].

Todo herero que se encontre dentro das fronteiras alemãs [namíbias], esteja armado ou não, será executado. Mulheres e crianças serão removidas do país — ou serão abatidas a tiro. Não serão levados quaisquer prisioneiros homens. Serão mortos a tiro. Esta decisão respeita os hereros. Dentro das fronteiras alemãs, matar-se-á todo o herero, armado ou não, com gado ou não. Não receberei mais mulheres ou crianças. Enviá-los-ei de volta sozinhos, ou ordenarei que os executem.

A minha política foi sempre no sentido de controlar a situação com terror brutal e até crueldade. Usarei toneladas de dinheiro para aniquilar os membros da tribo revoltosos, em torrentes de sangue. Somente desta semente crescerá algo novo e estável.

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Em agosto de 1904, na Batalha de Waterberg, os hereros e os namas viram-se rodeados «e a única saída era através do deserto Kalahari, onde os pontos de água estavam envenenados».

O que aconteceu depois foi, no entanto, mais trágico:

Por fim, colocou guardas e deu-lhes a ordem formal de matar todo e qualquer herero, independentemente de idade ou sexo. O resultado foi um massacre sistemático que alguns estimam ter feito entre 25 000 e 40 000 mortos (outros falam de 60 000 vítimas).

Vincent Hiribarren, professor catedrático de História Africana e Universal noKing’s College de Londres, responsável pelo site libeafrica4.blogs.liberation.fr, publicou uma entrevista de Jean-Pierre Bat com Leonor Faber-Jonker, historiadora de Universidade de Utrecht, que descreveu os métodos de extermínio usados pelos alemães:

Esta era a política que von Trotha havia seguido, ainda que subentendida, desde o ataque de Waterberg. Durante a batalha, qualquer herero que tinha conseguido escapar do círculo de alemães que os rodeava, fugiu para Omaheke. Von Trotha ordenou que os perseguissem, que procurassem o terreno metodicamente e que eliminassem os pontos de água. Os hereros, obrigados a dirigirem-se ao deserto, morreram em grande número de desidratação e fome. Esta perseguição teve também repercussões para os alemães.

Foram exibidas cópias da ordem escrita aquando da captura dos hereros e estes foram obrigados a assistir à execução de vários dos seus camaradas prisioneiros, antes de serem enviados para o deserto para serem testemunhas do que haviam visto e dissuadirem outros hereros de voltar.

Os colonos tiveram um comportamento execrável, roubaram terras e violaram as mulheres hereros e namas. O sítio web do Museu do Holocausto realçou que a maioria dos colonos que se apoderaram das terras e do gado dos hereros trataram os africanos sem o mínimo respeito.

A violação era uma prática comum e era exacerbada pela falta de mulheres alemãs. O temor do povo alemão (Volk) pela degeneração racial levou à proibição de matrimónios inter-raciais em setembro de 1905. As ideias sobre diferenças raciais baseavam-se na antropologia alemã do final do século XIX, que propunha uma distinção entre raças consideradas «civilizadas» e raças consideradas «primitivas». Esperava-se ter uma compreensão da espécie humana através da observação objetiva dos «primitivos», como as pessoas exibidas em zoológicos humanos (muito populares na Europa nessa época).

Em 2011, descobriram-se onze crânios do genocídio na Namíbia. Até então, esta atrocidade havia permanecido oculta, como é referido no site do Museu do Holocausto:

O Blue Book (Livro Azul), um relatório oficial do governo britânico que enumerava as atrocidades cometidas no Sudeste Africano Alemão, e, pouco tempo depois, recompilou a conquista da colónia durante a Primeira Guerra Mundial, foi censurado em 1926, pensando no interesse da nova unidade. Depois, a perspectiva alemã do genocídio como uma heróica guerra colonial literalmente dominou o âmbito comemorativo da antiga colónia e esta viu-se inundada por monumentos e ruas com nomes que comemoravam o esforço bélico alemão. Depois de 1945, o passado colonial não ficou esquecido na Alemanha. No Sudeste Africano, a repressão do regime do apartheid sufocou qualquer debate público sobre o genocídio. Os descendentes das vítimas tiveram a tarefa de manter viva a memória do genocídio, com atos comemorativos e com a tradição oral.

Por fim, em julho de 2015, o governo alemão acordou enumerar os “acontecimentos que ocorreram” como um genocídio oficial, no seguimento do reconhecimento do genocídio arménio. No entanto, o governo não conseguiu proferir uma desculpa formal, nem mostrou vontade de dar uma compensação. Esta situação levou a um encontro em outubro de 2016 no Centro Francês de Berlim, que juntou partidários de vários países que afirmavam o direito das comunidades dos hereros e dos namas a participarem diretamente na negociação de uma resolução que inclua o reconhecimento do genocídio, um pedido de desculpas formal, apropriado e sincero às comunidades afetadas e a atribuição de uma compensação justa às duas comunidades, que continuam a sofrer os efeitos do genocídio.

Desde que a Namíbia conseguiu a sua independência em 1990, os descendentes das vítimas — juntamente com grupos de direitos humanos (sobretudo simpatizantes judeus) da Alemanha, dos Estados Unidos, de Botsuana e da África do Sul — têm batalhado pelo reconhecimento do genocídio e estão próximos de uma importante vitória judicial. Em julho de 2017, a juíza federal de Nova Iorque, Laura Taylor Swainouvirá uma queixa contra Berlim por parte dos descendentes das vítimas.

 

https://pt.globalvoices.org/2017/05/11/um-seculo-depois-namibia-exige-justica-a-alemanha-pelo-seu-primeiro-holocausto/

Japão e Angola conversam sobre o futuro com tranparência

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O ter em vista os objectivos do país pensando no futuro e a transparência como chave para o sucesso econômico foram as sugestões deixadas ontem, em Luanda, pelo conselheiro para avaliação de políticas do Ministério das Finanças do Japão.
Tomoya Asano, que falava no seminário sobre “ Experiência do Japão após a Segunda Guerra Mundial”, disse que Angola pode adoptar a transparência com todos parceiros e solicitou atitudes claras e um trabalho árduo do Executivo nesse sentido.
O seminário é o primeiro de um ciclo iniciado pelo Banco Nacional de Angola (BNA) e a Agência de Cooperação Internacional do Japão ( JICA) consagrado à “Política monetária , cambial e fiscal” e à recuperação posterior sem perturbações política e económicas.
Tomoya Asano retratou a história, as fases de crescimento e desenvolvimento, bem como as tendências e desafios actuais da economia japonesa., a qual passou por reestruturações sociopolíticas, principalmente desde a Segunda Guerra Mundial, levando o império nipónico a mudanças que revolucionaram a economia e tornaram o Japão num país de destaque.
O Produto Interno Bruto “per capita” passou de 17.097 ienes em 1968, para 37.906 em 1990, relevando um crescimento vertiginoso que superou as economias de países como Estados Unidos e Reino Unido. Tomoya Asano elogiou a política económica do Governo, que assegurou estar “no bom caminho”, o que coincide com o reconhecimento do Fundo Monetário Internacional no relatório das “perspectivas económicas mundiais” divulgado na terça-feira
A ministra da Família e Promoção da Mulher, Filomena Delgado, congratulou-se com a experiência das mulheres japonesas que também participaram no desenvolvimento da economia daquele país. “A privatização foi fundamental para o crescimento e, inseridas nas empresas, as mulheres conseguiram ajudar a ascensão da indústria transformadora do Japão”, lembrou a ministra.
“Ao longo de décadas, a economia japonesa experimentou quedas e estagnações que tiveram respostas à altura por intermédio das políticas públicas desenvolvidas pelo Governo e também do sector privado, que desempenhou o seu papel na estabilização da economia”, acrescentou.
A economia japonesa está virada para os desafios do equilíbrio financeiro, cooperação internacional e gestão efectiva dos recursos disponíveis. O Japão é o maior credor do mundo e, nos anos 60, substituiu os gastos militares a favor do crescimento económico, permitindo um rápido desenvolvimento conhecido como o “ milagre económico japonês”.

http://jornaldeangola.sapo.ao/economia/japao_transmite_experiencia_em_recuperacao_economica

José Maria Neves: “Em Cabo Verde é quase proibido ser ex-governante”

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O antigo Primeiro-ministro José Maria Neves afirmou que em Cabo Verde é quase proibido ser ex-governante, uma vez que, “quem assume tem que criminalizar aquele que desempenhou as funções anteriormente. Numa entrevista concedida á RCV, Neves disse que quase que não há lugar para os quadros que já governarem, o que prejudica os interesses do país.

José Maria Neves: “Em Cabo Verde é quase proibido ser ex-governante”

“Há um desperdício de recursos humanos e institucionais em Cabo Verde e isso não é bom para o país. Aqui, é quase proibido ser ex-governante, porque quem assume tem que criminalizar aquele que desempenhou as funções anteriormente”, defendeu.

Questionado se o próprio sente-se que está a ser criminalizado, o antigo governante explica que, “eu não necessariamente, mas sinto que as pessoas que estiveram comigo no anterior governo sim.

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Neves exemplifica a antiga ministra das Finanças, Cristina Duarte, a qual é neste momento, um quadro solicitado no plano internacional, mas em Cabo Verde há muita gente que, para poder afirmar-se, tem que tentar diminuir o prestígio e trabalho por ela, mesmo que isso prejudique o país.

José Maria Neves garante que essa falta de lugares para ex-governantes provoca um enorme desperdício de toda a experiência e contributo de pessoas relevantes para o desenvolvimento de Cabo Verde. Atirou ainda que, no nosso país tudo é efémero e ilusório e que “temos de ser mais consistentes em algumas coisas”.

Fonte:http://www.asemana.publ.cv/spip.php?article124459&ak=1

Presidente português reconhece injustiça da escravatura em visita a Gorée – Senegal

 

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O Presidente português considerou na quinta-feira, no Senegal, que o poder político reconheceu a injustiça da escravatura quando a aboliu em parte do seu território, “pela mão do Marquês de Pombal, em 1761”.

 

Marcelo Rebelo de Sousa deixou esta mensagem no final de uma visita a uma antiga casa de escravos do tempo dos holandeses, na ilha de Gorée, ou Goreia, em frente a Dacar, capital do Senegal, lugar que foi um entreposto do tráfico desde o século XVI, sob domínio português, até ao século XIX, e onde o Papa João Paulo II pediu perdão pela escravatura.maison des esclaves.jpg
Marcelo Rebelo de Sousa iniciou na terça-feira uma visita de Estado de dois dias ao Senegal, a primeira de um Presidente português a este país da África Ocidental, antiga colónia francesa, que se tornou independente em 1960.
Ao falar primeiro em francês, o Chefe de Estado português declarou que “quando nós abolimos a escravatura em Portugal, pela mão do Marquês de Pombal, em 1761 – e depois alargámos essa abolição mais tarde, no século XIX, demasiado tarde -, essa decisão do poder político português foi um reconhecimento da dignidade do homem, do respeito por um estatuto correspondente a essa dignidade”.
“Nessa medida, nós reconhecemos também o que havia de injusto e de sacrifício nos direitos humanos, como diríamos hoje em dia, numa situação que foi abolida”, acrescentou o estadista.

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Depois, Marcelo Rebelo de Sousa repetiu a mensagem em português: “Recordei que Portugal aboliu, pela mão do Marquês de Pombal, pela primeira vez, a escravatura, numa parte do seu território em 1761 – embora só alargasse essa abolição definitivamente no século XIX -, e que nesse momento, ao abolir, aderiu a um ideal humanista que estava virado para o futuro”.
Essa decisão reconhecia o que tinha havido de injusto, o que tinha havido de condenável no comportamento anterior, relativamente a séculos em que esses direitos não foram devidamente reconhecidos, reiterou o Presidente.
Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, o que fica de mais importante desta visita à “Casa dos Escravos” de Gorée é “a lição de esperança num futuro melhor” e a ideia de que “é preciso continuar a lutar pelos direitos humanos, contra as formas de escravatura que existem, contra as opressões, contra as ditaduras, contra os totalitarismos”. “Ainda hoje, infelizmente, é tão necessário”, lamentou o Chefe de Estado de Portugal. No segundo dia em Dacar, o Chefe de Estado português foi também à Casa-Museu Léopold Senghor, primeiro Presidente do Senegal, e participou num debate com professores e alunos de língua portuguesa.

Integração na CPLP

O Presidente português considerou que o Senegal “fala português” e tem “uma porta aberta” para assumir “um papel essencial” na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), da qual já é membro observador. Em declarações aos jornalistas na ilha de Gorée, Marcelo Rebelo de Sousa disse que é impressionante a presença da língua portuguesa neste país, que tem 46 mil jovens a falar português. O Senegal fica próximo de dois países lusófonos. As ilhas de Cabo Verde estão em frente à sua costa, a cerca de 600 quilómetros, e faz fronteira com a Guiné-Bissau a sul, aproximando-se de Portugal também pela sua importância regional e pela língua portuguesa, que ali é estudada por milhares de alunos. Desde 2008, tem estatuto de observador da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).
A comunidade portuguesa ronda as 200 pessoas, embora apenas cerca de 50 estejam registadas nos serviços consulares. A ilha de Gorée é um património da Humanidade classificado pelo Fundo das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em 1978 e representa um memorial da escravatura. De Gorée, foram embarcados escravos de África para as Américas até ao século XIX e a ilha mantém como memória e símbolo desse passado uma “Casa dos Escravos”, do tempo dos holandeses, ligada ao mar por uma “Porta do Não Retorno”.
Foi nesta ilha, a menos de 20 minutos de barco da capital do Senegal, que oPapa João Paulo II pediu perdão pela escravatura em 1992, quando afirmou: “A partir deste santuário africano do sofrimento negro, imploramos o perdão do céu.”
Em 2005, dias depois da morte do Papa João Paulo II, o então Presidente do Brasil, Lula da Silva, visitou Gorée e repetiu esse gesto. Embora referindo que não tinha “nenhuma responsabilidade com o que aconteceu” no período da escravatura, declarou “Perdão pelo que fizemos aos negros”.
Os navegadores portugueses foram os primeiros a chegar a esta ilha, em 1444, num feito atribuído a Dinis Dias, e deram-lhe o nome de Ilha da Palma. Depois, no período filipino, foi tomada pelos holandeses e posteriormente pelos franceses, pelos ingleses e novamente pelos franceses.
Além de João Paulo II e de Lula da Silva outras personalidades mundiais visitaram a histórica ilha de Gorée. O então primeiro-ministro francês, Michel Rocard, visitou a região em 1981. Também três Presidentes norte-americanos, Bill Clinton em 1998, George W. Bush em 2008 e Barack Hussein Obama em 2013 visitaram a ilha senegalesa e aí assumiram o “mea culpa” dos respectivos Estados na escravatura. Estima-se que pelo menos 12 milhões de escravos africanos tenham sido capturados e retirados do continente, ao longo do triste período do comércio negreiro.

http://jornaldeangola.sapo.ao/mundo/portugal_reconhece_injustica_da_escravatura

Uma iniciativa dos africanos para os africanos na era digital

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Na  sexta-feira, 32 anos após o registo do primeiro domínio de Internet no Mundo, o conhecidíssimo “.com”, a União Africana (UA) lançou o domínio “africa”, dando ao continente a sua própria identidade digital, ao preço módico de 18 dólares anuais.  O domínio fica completamente disponível ao público a partir de Julho.

 

“Com o ‘.africa’, eu diria que a África finalmente conseguiu a sua identidade digital”, disse Nkosazana Dlamini-Zuma, presidente da Comissão da União Africana, que esta semana entrega o cargo ao chadiano Moussa Faki Mahamat, após quatro anos na chefia da organização. Segundo Nkosazana Dlamini-Zuma, o novo domínio permitirá que as pessoas e as empresas do continente africano alcancem melhor o Mundo, inserindo-se mais na globalização.

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A África Subsariana tem uma das taxas mais baixas de penetração na Internet do Mundo, de acordo com o Banco Mundial, com cerca de 22 por cento de utentes, em comparação com a média global de 44 por cento.
A UA prometeu aumentar a penetração da Internet em banda larga em 10 por cento no próximo ano, como parte da sua proposta de desenvolvimento “Agenda 2063”.
A África do Sul, a maior economia do continente, domina a presença africana “on-line”, possuindo 1,1 milhões dos dois milhões de registos de “sites” em África, disse Lucky Masilela, presidente do Conselho de Administração da ZA Central Registry, a empresa sul-africana que vai administrar o domínio “.africa”.
“As altas taxas são um obstáculo para muitas pessoas que querem registar um ‘site”, disse Masilela.
Essas taxas, em alguns países africanos, podem custar até 250 dólares norte-americanos anuais, mas Lucky Masilela disse que o domínio “.africa” estará disponível por apenas 18 dólares. “O domínio ‘.africa’ vai ser um ‘agitador’ no mercado e vai ajudar a reduzir os custos dos nomes de domínio”, garantiu o responsável da ZA Central Registry.
A UA espera que os rendimentos dos registos de domínio ajudem a cobrir alguns dos custos administrativos e de funcionamento da Comissão da organização continental.
Um domínio é um nome de fácil memorização e que serve para localizar e identificar os computadores na Internet.
Ao visitarmos um sítio web ou enviarmos um e-mail, o   computador precisa de saber a localização do servidor em que a página ou a caixa de e-mail de destino estão armazenados para então mostrar a informação que se deseja ver (o conteúdo da página ou o relatório de entrega do e-mail).
A informação da localização destes servidores está noutro servidor (chamado servidor de nomes) que assegura a indicação do endereço certo para a entrega dos pedidos enviados pelo nosso computador para a Internet.

 

http://jornaldeangola.sapo.ao/sociedade/africa_ganha_identidade_digital

Gana aos 60 anos: Lembrar Kwame Nkrumah

O Gana celebra o sexagésimo aniversário da sua independência. Cidadãos recordam o primeiro Presidente ganês, Kwame Nkrumah.

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Neste 6 de março, dia em que o Gana comemora o sexagésimo aniversário da sua independência, recordar Kwame Nkrumah é incontornável: “Atualmente, o nome de Nkrumah está envolto em mistério e controvérsia”, diz Atsu Aryee, da Universidade do Gana.

No passado, era diferente. Quando o Gana conquistou a independência da Grã-Bretanha em 1957, os apoiantes de Nkrumah aclamaram-no em massa. “Finalmente chegou ao fim a batalha! O Gana, a nossa pátria amada, será, a partir de agora, livre para sempre”, afirmou Nkrumah na altura. Em resposta, a multidão gritava “viva!”

Nos primeiros anos depois da independência, o Governo de Kwame Nkrumah colocou em prática um programa económico ambicioso, com o objetivo de colocar o país, tradicionalmente rural, no mapa dos países industrializados. As barragens hidroelétricas construídas ao longo do rio Volta ainda hoje são vistas como marcos da engenharia africana e é nelas que o Gana continua a confiar para garantir a produção energética no país de 27 milhões de habitantes. Mas nem todos os projetos de Nkrumah resultaram. As grandes empresas geridas pelo Estado foram, na maior parte dos casos, mal sucedidas, acumulando enormes dívidas ao longo dos anos, sobretudo devido à má gestão e à corrupção.

Os ganeses conheceram então um outro lado de Kwame Nkrumah. O líder político tornou-se cada vez mais autoritário, tendência que culminou na transformação do Gana num Estado de partido único, em 1964, e na auto-proclamação de Nkrumah como Presidente eterno. Milhares de cidadãos viram-se obrigados a abandonar o país. Com a economia em queda livre, a popularidade de Nkrumah também decresceu. Um golpe militar colocou um ponto final na era Nkrumah, quando o Presidente se ausentou do país para uma visita de Estado à China, em 1966.

Ghana Kwame NkrumahKwame Nkrumah é lembrado como um herói da luta contra o colonialismo

Legado cada vez mais esquecido?

Hoje a imagem de Kwame Nkrumah é mais positiva: Os observadores dizem que o líder histórico contribuiu de maneira decisiva para que o Gana goze atualmente de uma certa estabilidade política.

“O legado mais importante de Nkrumah é o patriotismo e o nacionalismo que ele incutiu no povo enquanto esteve no poder”, diz o politólogo Atsu Aryee. “É esta noção de que somos todos ganeses, que temos um país e que é preciso manter a estabilidade.”

Mas, embora muitas crianças e jovens continuem a visitar o mausoléu de Kwame Nkrumah em Accra, poucas parecem compreender o seu legado: “Nkrumah ainda é um nome importante no Gana, pois conduziu o Gana à independência. Mas muitos jovens conhecem apenas o nome e já não conhecem as suas políticas enquanto Presidente e primeiro-ministro”, afirma Burkhardt Hellemann, chefe do escritório da fundação alemã Konrad Adenauer na capital do Gana, próxima ao partido no poder na Alemanha, a CDU.

“Ainda dá para ver que o nome de Nkrumah tem alguma influência, mas as suas políticas pouco ou nada influenciam os debates políticos deste país hoje em dia”, diz. O partido criado por Nkrumah em 1949, o Partido da Convenção do Povo (CPP, na sigla em inglês) desempenha hoje um papel menor na arena política ganesa.


Ainda assim, muitos na África subsaariana continuam a lembrar o legado de Nkrumah. Em 2004, a revista “New African” pediu aos leitores para elegerem os maiores líderes africanos de todos os tempos e Nkrumah ficou em segundo lugar, atrás do ex-Presidente sul-africano e líder da luta anti-apartheid Nelson Mandela.

Nkrumah defendia uma união pan-africana para contrabalançar a influência ocidental. Ele foi um dos fundadores da Organização da Unidade Africana, predecessora da União Africana (UA).

“Ainda se fala dos conceitos de Nkrumah nos corredores da UA”, conta o historiador nigeriano Toyin Falola.

Mas, apesar de a União ter hoje mais influência no continente, a concretização da ideia de Nkrumah de criar uns “Estados Unidos de África” está muito longe, sublinha Falola.

“Depois de Mbeki e Obasanjo saírem, não há líderes africanos dinâmicos que advoguem a ideia. Os países parecem interessar-se apenas nos seus assuntos, concentrando-se na sua política interna, preocupados com o declínio das suas economias. Portanto, a ideia do pan-africanismo foi tirada de cima da mesa.”

http://www.dw.com/pt-002/gana-aos-60-anos-lembrar-kwame-nkrumah/a-37819580

“Um dos problemas da literatura moçambicana é estar trancada num beco sem saída”

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Adelino Timóteo é um dos escritores nacionais que mais publica na actualidade. Tal evento concorre para que o autor de Nós, os do Macurungo seja alvo de alguns “ataques” por parte dos seus homólogos. Mas Timóteo não se deixa levar com as “querelas” à volta da sua velocidade de escrita. Pelo contrário, nesta entrevista, o artista realça o seu compromisso com a escrita – escrevendo como se quisesse resgatar o tempo furtivo da infância –, fala dos valores que lhe caracterizam como homem, dos traços que lhe são peculiares como criador, refere-se a alguns problemas da literatura moçambicana e deixa recados aos escritores e aos políticos.

A sua obra perpetua um fascínio por civilizações antigas. Por exemplo, a Grécia e, mais recentemente, o Egito lá estão. Como reage a esta constatação?  

Antes de tudo, devo confessar-te a minha paixão literária. Tenho um vínculo muito forte com a língua e com a leitura, desde os meus nove, dez anos. E por vezes surpreendo-me nestas constatações, trabalhadas ao nível do inconsciente. Lembro-me agora de um livro que li para aí aos dez anos,Escorpiões do Deserto, de Hugo Pratt, que me permitiram o fascínio ao Egito daspirâmides, dos mitos. Na quinta classe, o Egipto foi também um dos temas de fascínio. A escrita nasce dessa herança entre o transcendental e a contemplação. Li o livro Carta a Greco, de Nikos Kazantzakis, nos meus dezassete anos. Fiquei fascinado com a quantidade de imagens. Mais tarde, aos trinta e quatro, surpreendi-me a escrever Viagem à Grécia. Portanto, o meu grande trabalho talvez esteja na leitura, depois tudo frui como marcas de entrosamento com outras coordenadas. Trabalho de rescrita e desconstrução, que termina na criação do meu universo.

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E esse processo da configuração civilizacional e espacial faz-se através de uma viagem que entrecruza tempo e espaço, como se pretendesse sugerir que o melhor da Humanidade está no passado… Quis com O corpo de Cleópatraestabelecer uma relação da rainha egípcia com o continente?

Não pretendo sugerir que o melhor da Humanidade esteja no passado. Devo dizer-te que tudo opera debaixo da matriz em que me sinto um cidadão do mundo, porque a minha formação cultural e literária são nutridas dessa dimensão de ser, do sentir. Escrevo como se quisesse resgatar o tempo furtivo, da infância, da adolescência, conectar-me com vozes e ressonâncias universais. Repara, hoje se fala do feminismo e vão buscar exemplos a Madame Bovary. Mas temos aqui perto a Cleópatra, as donas dos prazos. É um pouco um piscar de olhos a um espaço geográfico e mito que nos pertence por herança, mas de que somos passivos.

 

Publicou, há alguns anos, uma obra dedicada ao público infanto-juvenil, Na aldeia dos crocodilos, a qual mergulha no Zambeze com realismo fantástico. Porquê escolher esta linha do (im)provável e terror nesta conversa com as crianças?

As minhas primeiras leituras infantis foram Os cinco e os sete, de Enid Blyton. Se chama isso terror não sei como encararia os livros de Blyton, onde não faltam fantasmas e mistério. Com Na aldeia dos crocodilos pretendi oferecer histórias que ouvia em miúdo, sobre aquele universo que tanto me fascinou, de um submundo, contraponto de Alice no País das Maravilhas. Repara que os alunos da Escola Portuguesa de Maputo encenaram Na aldeia dos Crocodilos. Um grupo de canto e dança da Beira tem estado a encenar o mesmo livro.

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É muito ligado à sua terra – Nós, os do Macurungo é um exemplo claro disso. É daqueles autores que tem ou teria dificuldade em escrever fora do país?

Devo esclarecer-te que escrevi Nós, os do Macurungo, para aí aos 40 anos. É um livro de pausa. De exercício memorialístico. Muito preocupado com a verdade e a contemplação do tempo. Talvez nunca mais fique curado dessa ligação intrínseca a Macurungo. E ainda bem. Saí de lá aos 26, mas precisei de muitos anos de distância para escrever sobre o mesmo. E o resultado foi óptimo. É muito procurado. Está praticamente esgotado. Tenho já esboçado a segunda parte deNós, os do Macurungo. É uma questão de metodologia. Mais tarde, encontrei a mesma perspectiva sistemática, quando li O peixe na água, de Vargas Llosa, ou mesmo A tia Júlia e o Escrevidor, desse mesmo autor. Se quiser, Viver para contá-la, de Garcia Marquez. Ou Não chora, criança, de Ngugi wa Thiong’o. Se teria dificuldade de escrever fora do país? Diria que não. Fiz uma experiência pioneira com Não chora, Carmen, em 2009, quando cheguei à Espanha. Tenho pretensão de escrever algo sobre a comunidade africana de Lisboa, uma das cidades intrinsecamente ligadas a minha vida, pois penso que um dos problemas da nossa literatura é estar trancada num beco sem saída. Elementos e símbolos externos enriquecem qualquer literatura.

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Falando na terra, há oito anos publicou Nação pária, obra que inventa o desaparecimento de uma nação, questiona a existência de cidadãos e não se esquece do medo. Escreveu este livro tentando vaticinar o que hoje caracteriza a sociedade moçambicana?

Não tentei vaticinar nada. O livro fez-me o favor de ser intemporal. Eu tenho o hábito de ir fechando etapas, ir fechando épocas que vivi ou sobre as quais descorri, ouvi falar. A guerra foi uma delas. Quando era adolescente ouvi como os capitães de exército se enriqueciam à custa da guerra. Daí, em Nação Pária, há uma personagem que diz algo assim: “Nós inventamos a guerra para enriquecermos”. E sempre que isso se passar em Moçambique o livro ganhará actualidade. Vimos como foi urdido o processo das aquisições de armas e com quem ficou o dinheiro. Vimos como se inventaram as duas últimas guerras. Eu acho que a guerra é uma invenção com certas premissas, ou totalitárias ou de enriquecimento ou de domínio de uma tribo sobre a outra.

 

O que julga que os moçambicanos, sobretudo aqueles que não gostam e nem investem na política, devem fazer para recuperar a utopia de que se constrói o projecto de nação?

Para recuperar a utopia devemos ser mais tolerantes. O país deveria criar um fórum nacional sobre a paz, para discutir mensalmente cada questão que periga a paz, ser uma instituição que promova debates itenerantes. Que esse fórum funcionasse como uma instituição que juntasse actores políticos e da sociedade civil independente, onde se pudesse desperir da balalaica e do casaco partidário e se discutisse activamente a cidadania.

Acredita no seu país?

Acredito em Moçambique, razão porque falo de um fórum da paz a diversos níveis, onde os partidos beligerantes, cada chefe local, todos os segmentos da sociedade, fossem chamado a representar e dialogar. Uma vez por mês subia ao púlpito, na voz de políticos representante das suas hostes, e falavam das linhas de fraquezas e forças da paz, buscar caminhos conjuntos. Sermos mais abertos, porque sempre somos atropelados quando as coisas não têm conserto, quando o fogo nos tem dentro da sua cintura. Se fosse assim por um período de 10, 15, 20 anos, seríamos um país com as instituições consolidadas e fortes. Moçambique tem tudo para ser uma potência de África e do mundo. Tem riqueza que chega para todos. Falta é de inteligências.

 

Numa apresentação do seu livro vinquei que “apocalipse” é um tipo de literatura próprio das épocas de perseguição e de crise, tentando convencer aos deprimidos que a vitória final será dos bons. Agrada-lhe que Apocalipse dos predadores possa ter esta interpretação?

Não tinha reparado nisso. Ainda bem que a tua sensibilidade captou essa mensagem de esperança.

 

Uma personagem desse livro diz: “O segredo desta burguesia é que criou uma utopia e, enquanto nós nos distraímos da utopia socializante, eles esbanjam do erário público, para acumular propriedades, as suas fartas mansões, os seus faustosos carros de luxo”. Identifica-se com esta reflexão?

Eu identifico-me com essa reflexão, pois quando miúdo bebemos muito a ideologia do partido Frelimo. A música era o internacionalismo, o campesinato, o proletariado e a solidariedades com os mauberes, namíbios e saharuis. Havia aquela imagem dissuasora do Xiconhoca nos jornais de parede e na revista Tempo. De repente, nos tempos que correm, alguém proferiu um discurso cheiroso prometendo que vai haver mais roubo. E uma vez a lição que nos transmitiram iluminava para a austeridade, fica-se num vácuo. E lembro-me que nos meus dezanove anos, quando o Estado ressentiu-se da falta de escolas, criaram-se escolas comunitárias. Eu e o Carlos Pinto fomos dar aulas, debaixo de cajueiros, em casa da anciã Laura Arouca. Não ganhávamos nada, mas estávamos contentes. Custa muito convencer o povo sobre o voluntariado, porque lá em cima o ensinamento que se incute é apego ao dinheiro.

 

Para quê questiona a heroicidade dos libertadores da pátria à luz dos comportamentos revelados ao longo das últimas quatro décadas, emApocalipse dos predadores?

Esta pergunta parece ter resposta nas anteriores. O oportunismo da esquerda produziu novos ricos, que ao mesmo tempo querem ser visto como puros. Cada um quer ser legítimo para deslegitimar o outro.

 

Desafio-lhe a comentar o seguinte excerto de Amílcar Cabral, retirado do livro de Oleg Ignatiev: “Camaradas, isto é que é África! A nossa tradição é essa! Quem é chefe é cantado, e quem vem atrás para cantar de vez em quando recebe uns tostões e fica calado”.

Na cultura em que me eduquei não se fica calado, nem há espaço a bolas de sabão. Manda-se às urtigas. Isso! Às urtigas!

 

É um autor que está a escrever e a publicar constantemente, o que não é comum no país. E isso, eu sei, já lhe criou algumas “incompreensões”. As críticas dirigidas à sua velocidade de publicação condicionam-lhe? Que conclusões tira dessa estupefação dos seus homólogos?

Já me apercebi que alguns começaram a padecer de urticária desde que me tornei regular. No meio em que eu nasci e cresci este ambiente de hostilidade, quase mobbing, quase bullying, não existe. Na Beira cada novo livro meu é celebrado. De Maputo, vem as zangas. Jorge Luís Borges diz que “quando te detractam é sinal de que estás no bom caminho”. Ainda bem que tenho educação. Estou num dos momentos mais plenos de vida e de criador. Continuarei com o meu ritmo. Alguns querem vir no meu “mercedes”, mas no meu volante ninguém pega! O Rui Knopfli, meu mestre, dizia: “Não deixa que o óxido dos políticos entre na lâmina dos teus versos”. Vê, cada um pode oxidar-se como quer. Quando em 1996 o Filimone Meigos, fazendo digressão pelo país, para estabelecer equilíbrio na difusão da literatura, escalou a Beira, à busca de escritores com originais, eu fui o único que tinha pronto Os segredos da arte de amar. E foi acontecendo que nesse espírito, de que escritor é quem escreve, fui amontoando a gaveta de outros livros. Como não sou assíduo de barracas, tenho opção. Lá vou escrevendo.

 

Paulina Chiziane e Mia Couto foram alvos de muitos ataques ao longo da carreira literária. Sente-se na condição de ser alvo de alguém ou de alguma coisa?

Eu entrei para a escrita muito ingénuo. Tinha aquela concepção de que escrever é antes de tudo ler os contemporâneos. Eu li os meus contemporâneos todos e fui publicando recessões escritas no Savana e na Lua Nova, da AEMO. Quando Os segredos da arte de amar ficou pronto, para lançamento, ninguém me quis apresentar o livro. Lembrei-me muito daquela rapsódia do Nikos Kazantzakis, A Escola Comunal, que para mim, deve ter inspirado As mãos dos pretos. Fala com um e este dizia para ter com o outro, aquele, aqueloutro, etc, jogo de empurra. E depois um crítico escreveu um texto no Savana sobre “um escritor da Beira, de cujo nome esqueço-me sempre”. Eu era durante muitos anos “aquele escritor da Beira, de quem se esqueciam sempre do nome”. E a graça está aqui. Uma forma de manter a velha premissa de esquecimento é obullying, assassínio de carácter. Ou seja, criarem-se artifícios de tipo donos da bola: “Não escreva poesia”, “não, escreva poesia e nunca prosa, porque isso não é para ti”. Eu estudei o fenómeno. Isto passa-se também na Espanha. O problema é o mercado. O mundo literário é feito de vaidade. Os egos feridos.

 

Sente-se um escritor incompreendido?

A escrita deu-me prestígio, muito mais do que eu imaginei alguma vez e não posso exigir mais.Eu sinto que sou um autor não só compreendido, como acarinhado. Sinto-me privilegiado como autor de Moçambique, pelo crescente número de estudos sobre a minha obra não só no país, como em universidades de Portugal, Espanha e Brasil. Quando vou pelas ruas há algo muito marcante, o afecto das pessoas. Não quero mais do que o muito carinho que recebo, sinal óbvio de que a minha mensagem as têm alcançado. Alguns noviços me tratam por mestre. Não me suscita vaidade, pois passo a relacionar-me como amigo deles. Pedem-me todas as semanas que leia seus manuscritos. Pedem-me que os prefacie. E o problema é que, infelizmente, não consigo responder a todos como desejava, porque a demanda é maior e escasseia-me o tempo.

 

De onde vem esse poderio todo e urgência de querer dar voz às palavras?

Simplesmente tenho certo comprometimento com a escrita e uma “disciplina jornalítica”. Não é por acaso que no passado a maioria de escritores faziam carreira depois de passarem pelo jornalismo ou paralelamente. Escrever não é um fim em si. Há todo aquele trabalho de ourives. Burila-se, até sete ou oito versões do mesmo livro, em dois ou três anos. O tempo que medeia um e outro livro é no mínimo esse. É difícil ser faquir, daí haver mais propensão para frequentar barracas e apedrejar aqueles que investem oito horas por dia, curvados a acariciar os teclados.

 

Se pudesse reinventar Moçambique através da ficção, como seria?

Uma mãe que tem vinte e cinco milhões de filhos. Não uma gata borradeira. Mas uma mãe generosa, com um regaço onde cabem todos. Uma mãe-galinha, talvez, que não desampara os seus filhos, que os acoita, no seu útero. Um pouco infantil essa ideia, porque temos uma mãe-galinha que não consegue exercer a providência social e é apedrejada, velipendiada, depois se lhe queimam os pés, lhe saqueiam os ovos. A mãe-galinha pobre coitada que não tem um único ovo para si mesma, inconsolada a chorar, porque não tem nada com que abastercer os pintainhos, pois os corvos, essas aves de rapina, abocanharam-lhe todos os ovos.

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Ventos do apocalipse, de Paulina Chiziane, e Maputo blues, de Nelson Saúte.

 

 

Perfil

Adelino Timóteo nasceu a 3 de Fevereiro de 1970, na Beira. É formado em Docência de Língua Portuguesa e em Direito. Além de escritor, é poeta, artista plástico e jornalista. Possui vários livros publicados, como: Os segredos da arte de amar, Mulungu, A virgem da babilónia, A fronteira do sublime, Viagem à Grécia através da Ilha de Moçambique, Livro mulher, Dos frutos do amor e desamor até à partida. É vencedor do Prémio Literário BCI (2011), do Prémio Nacional Revelação de Poesia AEMO (2001) e do Prémio Anual do SNJ para a Melhor Crónica Jornalística.

Rei Mandume-ya-Ndemufayo (1917-2017), de Angola

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“Resistência à ocupação no sul de Angola, século XX”, uma mostra comemorativa do centenário da morte do soberano cuanhama Mandume-ya-Ndemufayo (1917-2017) , organizada pelo Arquivo Nacional de Angola. Segundo o secretário de Estado, existe muita matéria documental sobre os soberanos em Angola, que precisam de ser do conhecimento público. O modelo de gestão do seu território, as técnicas de guerra e as tomadas de medidas políticas e econômicas, devem ser inseridos nos manuais escolares de Angola.

mandume1Os documentos em posse do Arquivo Nacional de Angola refletem as ideias das autoridades portuguesas e inglesas sobre os feitos de Mandume, considerados como atos de vandalismo.
Parte desses arquivos estão no formato de telegramas codificados, demonstrando a confidencialidade do tema em tratamento, tradução de um território das autoridades alemã e inglesa sobre a chamada “atrocidades”, do soberano e troca de correspondência entre as autoridades portuguesas e as alemãs.

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Os documentos fazem ainda referência à notícia sobre a morte de Mandume, publicada em jornais portugueses, às armas encontradas com o soberano após a sua morte e também a algumas fotografias de Mandume junto de uma delegação inglesa, tirada em 1915. Segundo alguns documentos expostos, o rei Mandume foi um hábil diplomata, político e líder que soube resistir à ocupação colonial nos seus territórios, congregando forças de vários povos para esse efeito, que usou todas as armas ao seu alcance.
Os documentos realçam que os seus inimigos reconheciam a sua bravura e estratégia, tecendo-lhe elogios, como o do general Pereira de Eça que chefiava as forças portuguesas na batalha do Môngua. Esses registos aguardam estudos, análises e interpretação para se desvendar e melhor conhecer a resistência imposta pelos autóctones no sul de Angola à penetração e ocupação colonial, contribuindo para colocar mais um alicerce na história de Angola.

Cunene

O centenário da morte do rei Mandume-ya-Ndemufayo foi celebrado, ontem, na localidade Oihole, município de Namacunde, província do Cunene.
Mandume-ya-Ndemufayo foi soberano destemido dos cuanhamas, e liderou a resistência contra a ocupação colonial portuguesa na região Sul de Angola, que preferiu a morte, por suicídio a 6 de Fevereiro de 1917, para não ser dominado.
Segundo o programa da efeméride, estão reservadas inúmeras actividades que decorrem no Complexo Turístico de Oihole, com destaque para a realização de uma conferência com os temas “Mandume-ya-Ndemufayo, último rei dos cuanhamas, 100 anos da batalha de Oihole” e um resumo dos acontecimentos do Vau do Pembe até à batalha de Oihole.
Passados 100 anos, Mandume é venerado pelo povo da tribo ambó, localizado no sul de Angola e no norte da Namíbia, por preferir a morte, ao invés de ser capturado e, consequentemente, colonizado pelos portugueses. Para enaltecer a figura do rei, em 2000, foi construído o Complexo Turístico em Memória do Rei, cujo acto inaugural foi presidido pelo Presidente da República, José Eduardo dos Santos, ladeado pelo antigo Presidente da Namíbia Sam Nujoma.
No túmulo, lê-se as suas célebres palavras: “se os ingleses me procuram, eu estou aqui, e eles podem vir e montar-me um ardil, não farei o primeiro disparo, mas eu não sou um cabrito nas mulolas, sou um homem…e lutarei até gastar a minha última bala.”

http://jornaldeangola.sapo.ao/cultura/patrimonio/rei_mandume_homenageado_na_terra_natal

O Observatório

Este observatório é uma iniciativa do Grupo de Estudos Africanos vinculado ao Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (GEA/IREL-UnB), que busca refletir sobre a vida política, social e econômica da África contemporânea, com destaque para sua inserção internacional. Preocupando-se com o continente marcado pela diversidade, o Grupo de Estudos Africanos, por meio do Observatório, propõe um olhar crítico e compreensivo sobre temas africanos, em suas mais diversas dimensões.