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Isabel dos Santos viaja para Portugal e ‘reclama’ do tempo de espera

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Isabel dos Santos viajou para Portugal este sábado, dia 4, como mostrou nas redes sociais “A nossa Taag a voar mais alto…”, escreveu a filha do presidente angolano, José Eduardo dos Santos, na legenda da montagem fotográfica publicada no Instagram, onde mostra o bilhete de avião. Mais tarde, quando chegou a Lisboa, Isabel dos Santos voltou a recorrer à mesma rede social para se ‘queixar’ do tempo que esteve à espera no autocarro. “A cara que se fica às 6:30 da manhã aeroporto de Lisboa – 30 minutos fechados dentro do autocarro cheio esperando… esperando…”, disse.

Fonte: Noticias ao minuto/RM

http://tpa.sapo.ao/noticias/sociedade/isabel-dos-santos-viaja-para-portugal-e-reclama-do-tempo-de-esper

História:A revolta de 4 de fevereiro de 1961 em Angola

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A luta pela liberdade contra o jugo colonial mobilizou vários nacionalistas em Angola. O secretário-geral da Associação Comité dos Heróis do 4 de Fevereiro, Agostinho Miguel Inácio “Kisekele, um dos sobreviventes do levantamento de 4 de Fevereiro de 1961, falou ao Jornal de Angola dos momentos que marcaram o dia do início da luta armada.

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Nascido aos 8 de Junho de 1940, na aldeia de Auri, em Icolo e Bengo, conta como chegou a Luanda e ingressou nas células clandestinas. Agostinho Miguel Inácio “Kisekele aponta a crença em Deus e nas forças ocultas como as principais razões de força que motivaram os nacionalistas para a luta. De 76 anos, disse que foi preciso engolir moedas para não serem atingidos por balas. Com catanas empunhadas nas mãos, 250 jovens saíram às ruas de Luanda, sob a protecção de uma jovem virgem e rainha de 12 anos, para derrubar o poderoso regime colonial. Recorda com emoção o massacre da PIDE depois dos ataques dos heróis do 4 de Fevereiro. Hoje, num país livre e em paz, diz que a juventude angolana sempre foi patriota em todas as fases da luta e apela ao registo eleitoral a todos os angolanos.


Jornal de Angola – Como é que tudo começou a 4 de Fevereiro de 1961?


Agostinho Miguel Inácio –
Foi em 1956 que saio de Icolo e Bengo para Luanda e me dirijo ao Liceu Salvador Correia para me matricular no primeiro ano e não fui aceite, porque o meu pai era indígena. Também na Escola Comercial não fui aceite. Consegui um lugar, por intermédio de uma senhora, que viu a minha aflição e me disse que a prima dela precisava de alunos no Colégio D. João IV. É ali onde me matriculo. E, como se não bastasse também, o meu pai vê-se impossibilitado de pagar propinas para dois filhos. O meu pai aconselha-me que eu começasse a trabalhar e deixar o meu irmão menor a estudar de dia. Foi o que fiz. Em Novembro de 1957, arranjei emprego, no então Serviço de Direcção Provincial de Economia e Estatística Geral, onde me empreguei.

Jornal de Angola  –  Que  cargo ocupou na administração colonial?

Agostinho Miguel Inácio –
Não fui aceite para escriturário sequer. Disseram-me que, se quisesse trabalhar, tinha que ser servente de 2ª classe, nem contínuo poderia ser. Eu aceitei o cargo de servente de 2ª classe. Aceitei, porque alguém me aconselhou que, no período de três ou quatro meses, passaria a escriturário de 2ª classe. Aceitei este conselho e, no espaço de seis meses, passei logo para auxiliar escriturário de 3ª classe.

Jornal de Angola – Mas como é que participou na revolta de 4 de Fevereiro?

Agostinho Miguel Inácio –
Em 1958, começam a criar-se as células em Luanda. Eu sou convidado por um colega que se chamou em vida João Pedro de Andrade que era afilhado do finado padre Filipe. Ele é que me convidou. No princípio, eu tinha receio, mas, depois de tanta conversa com ele, convenci-me de engrenar na célula. Ingressei na célula com o João Pedro da Andrade e só depois vim a conhecer o senhor padre João da Silva. Para dizer que o 4 de Fevereiro começou a desenhar-se em 1958. O falecido Fabião, um dos responsáveis das células, sentindo-se incapaz de conduzir a luta, convida o seu sobrinho Paiva, que se encontrava no Uíge, para encabeçar a rebelião.

Jornal de Angola – Qual foi a reacção do Paiva?

Agostinho Miguel Inácio – O Paiva, posto cá em Luanda, dirige-se ao Sambizanga, porque o Fabião morava junto ao comerciante António Camponês, no musseque Mota. O tio diz: Paiva, chamei-te para que você conduza aqui uma situação. Eu não tenho coragem, é preciso nós nos libertarmos do colono. E, para nos libertarmos, é preciso que haja um levantamento. Temos que resistir contra o colono. O Paiva aceita o desafio e depois regressa para o Uíge, apenas para entregar as obras, porque ele fazia obras por ajuste.

Jornal de Angola – Quais foram os passos subsequentes?

Agostinho Miguel Inácio – Quando o Paiva entregou as obras no Uíge e regressa a Luanda, a situação estava mais avançada e entrou numa célula. No dia 25 de Janeiro de 1961, a célula onde se encontrava o Paiva resolve encontrar um lugar para os treinos. Os treinos começaram no espaço onde está o bairro Rangel. É ali onde se encontrava a casa onde as pessoas reuniam-se. Entretanto, a direcção viu que o sítio estava muito visível e facilmente se descobriria que ali havia movimentação. Muda-se para ali onde está hoje o Marco Histórico do Cazenga e ali começou a haver treinos de grau urbano, já em 1961. Contudo, neste local onde hoje há o Marco Histórico existia lá cerca de sete casas. Numa delas, habitava um tenebroso da PIDE que se chamava Pina. O senhor era natural de Icolo e Bengo e era informador.Então, resolveu-se abandonar o sítio e mudámos para Cacuaco na zona da Pedreira, ali onde hoje deram o nome de Belo Monte. O local também não era seguro. A 25 de Janeiro de 1961, regressámos a Luanda.

Jornal de Angola – Como eram feitos os treinos?


Agostinho Miguel Inácio – O treino que fazíamos era de guerrilha, treinos feitos com catanas e paus
. Nós tínhamos três soldados indígenas que tinham servido o exército colonial, em Timor, Macau e na Índia. Esses é que eram os nossos instrutores. Corrida, cambalhotar, rastejar, simular ataque com alguém de pé, neste caso a sentinela. Postos em Luanda, a direcção apercebe-se que havia-se desviado o navio Santa Maria, que se dizia que rumava para Luanda e também aproximava-se o Carnaval. Então, com estas duas coisas ao mesmo tempo… Mas aí havia o problema de comprar as catanas. Comprávamos as catanas nos comerciantes do Rangel, cada um comprava a sua catana. Numa reunião, ficou acordado que cada um deveria arranjar a sua catana. Na compra de catanas, dizíamos que era para roçar as nossas lavras.

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Jornal de Angola – A procura de catanas não despertou os colonialistas?

Agostinho Miguel Inácio –
Nós fazíamos assim: se um compra aqui catana, o outro compra noutro sítio. Há pessoas que saíam do bairro Rangel para ir comprar no Bairro Popular. Não poderíamos comprar no mesmo sítio, senão dariam conta, porque os comerciantes eram os informadores da PIDE.

Jornal de Angola – Quanto custava uma catana?

Agostinho Miguel Inácio – A catana custava entre 15 a 20 escudos.
Eu tenho esta catana que serve de amostra. Nós ficámos cerca de 20 a 30 dias a afiar as catanas. Inicialmente, começámos a afiar as catanas com limas, depois passámos para as pedras. Em Icolo e Bengo, há pedras próprias que servem para afiar as catanas. Cada um afiava a catana em sua casa. Sem exagero nenhum, com aquelas catanas poder-se-ia fazer a barba. Estavam muito bem afiadas.

Jornal de Angola – Para além de catanas, que outros instrumentos de luta estavam a preparar?

Agostinho Miguel Inácio – Se alguém disser que no 4 de Fevereiro entraram armas, mente. Não é verdade. Ninguém poderia ter armas. Tínhamos catanas e paus.

Jornal de Angola – Quantos elementos estavam envolvidos neste processo?

Agostinho Miguel Inácio –
Éramos 3.123 jovens, contudo, no dia 4 de Fevereiro só entraram em acção 250 pessoas (241 soldados e 9 responsáveis).
Jornal de Angola – Havia jovens com 18 anos na altura?

Agostinho Miguel Inácio –
Com 18 anos, parece que havia apenas um ou dois, que eu conheço. Um deles é o Mateus Mário de Andrade.

Jornal de Angola – Depois de receberem o treino e comprarem as catanas, qual foi o passo seguinte?

Agostinho Miguel Inácio –
No dia 3 de Fevereiro de 1961, há uma reunião de dirigentes. Nos concentrámos no quintalão do falecido Imperial Santana, como se fosse o comando geral, o comandante-geral era o Raul Agostinho Leão. Na altura que reunimos havia a discussão sobre qual seria a data. Só no dia 3 é que se encontra a data. Enquanto estávamos reunidos, surge um colega nosso, que é o Salvador Sebastião, que avisa que tínhamos muitas dificuldades de entrar lá por que havia muita segurança em volta e que não foi fácil. Ele avisa o comandante Paiva. O Paiva não lhe manda entrar, ele saiu e foi ter com ele fora. Então, o que é que se passa? O comandante Paiva pergunta ao Salvador o que se passava. Ele respondeu que trazia um recado, que teve um contacto com o Padre Manuel das Neves, que lhe disse que os colonos que se encontram em Angola já tomaram conhecimento do assunto, que haveria uma rebelião em Luanda e que haveria escaramuças.

Jornal de Angola – Qual foi a orientação do Padre Manuel das Neves?

Agostinho Miguel Inácio –
Ele orientou que se tivesse tudo preparado, que fizessem ainda hoje ou amanhã, porque se falhasse, eles iriam agir. Isso serviu de motivação para que o acto tivesse lugar no dia 4 de Fevereiro. E inclusive, parece, calhou num sábado como vai calhar este ano. Na reunião que tivemos, os dirigentes saem da reunião, vieram ter connosco. Então, avisam que chegou o dia e nós tínhamos que passar à acção. O primeiro passo que nos deram foi o de criar grupos de 25 elementos cada. Mas antes desses grupos, distribuíram a cada uma boina preta e catana. Cada um usou um calção preto e uma camisola. Levámos isto tudo às escondidas. Só lá no quintalão é que usámos os nossos calções pretos, os ténis pretos e azuis, a boina e a catana. Depois, partimos para a acção a partir das 2 da manhã. As partidas começaram a ser feitas da seguinte forma: de dez em dez minutos, partia um grupo. Cada grupo tinha um objectivo a atingir, um dos postos a atingir era a Cadeia de São Paulo hoje, a Casa de Reclusão que hoje é Unidade Operativa, o Regimento de Infantaria, o aeroporto que hoje é ali onde é o Largo das Escolas. Eram cerca de sete objectivos a atingir, só que houve falha, porque o espaço de dez minutos foi muito grande, de mais.

Jornal de Angola – Como foi possível atacar homens que tinham armas de fogo?

Agostinho Miguel Inácio – O nosso sangue era da juventude. Também  duas coisas contribuíram para isso. Primeiro, crença em Deus e, depois, a magia negra. Engolimos cada um uma moeda de 50 centavos, porque acreditávamos que com isto a bala não entrava. E, outra coisa, ao ir ao ataque, se recuasse não poderia virar. Se virasse atrás a bala te apanhava. Havia ainda outra orientação. Aqueles que tinham mulheres, ninguém podia um dia antes envolver-se com a sua mulher. E quem o fizesse poderia morrer. Eu na altura não tinha mulher, porque o meu pai não deixava. Os que tinham mulheres eram os nossos chefes, como Paiva da Silva, Imperial Santana e Gomes Manuel, que foi o tesoureiro geral e o Adão Boca, comandante Francisco Mbungo, que era o secretário-geral da célula.

Jornal de Angola – Que outras orientações receberam mais?

Agostinho Miguel Inácio – Na altura, nos perguntaram quem queria morrer pela pátria. Todos em uníssono respondemos: queremos morrer pela pátria. Nós jurámos a bandeira aí. O Paiva perguntava quem quer morrer pela pátria – respondíamos – nós queremos morrer pela pátria.

Jornal de Angola – No dia do ataque, não houve mortes?

Agostinho Miguel Inácio –
Houve. Morreram dois dirigentes. Morreu o dirigente que comandou a quarta esquadra, Ivo Manuel, e morreu o comandante que orientou o assalto à cadeia de São Paulo, António Francisco. Feridos, o comandante que foi comigo na Emissora Oficial, ficou lá ferido, o Imperial Santana também ficou ferido e mais seis.

Jornal de Angola – Como é que o senhor Agostinho Miguel Inácio se saiu destes ataques?


Agostinho Miguel Inácio –
Eu tive sorte. Nós fomos com o objectivo de atacar a Emissora Oficial. Ao chegarmos próximo, cerca de seis metros de distância, surge um polícia que é da guarda republicana que rondava a área. O Paiva lhe pergunta – quem vem aí, faz alto. Nós abrimos alas, ele ficou no meio, mas ele teve tempo de disparar dois tiros no abdómen do nosso comandante. E depois foi evacuado.

Jornal de Angola – E o que acontece com o polícia?

Agostinho Miguel Inácio – O polícia foi abatido de imediato, morreu logo aí. Foi morto com catanas. Eu e o Samuel demos a volta ao polícia e lhe demos com catanas ao pescoço. A cabeça caiu em direcção ao peito e ficou suspensa pela cartilagem. Senti-me feliz, porque sabia que havia algo de bom a vir para o povo.

Jornal de Angola – Disse que a vossa força estava enraizada em Deus, como compreender a vossa acção com a crença em Deus?

Agostinho Miguel Inácio – Deus, na Bíblia, diz cuida-te e eu te cuidarei.Como me cuidar, é estar livre. Nas nossas reuniões na igreja, nas classes, fazíamos os cultos à tarde e à noite. Eram mais metodistas do que católicos. Eram mais metodistas e kimbanguistas. Eu orgulho-me de ter participado dessa acção.

Jornal de Angola – Qual foi o passo seguinte, depois do primeiro ataque?

Agostinho Miguel Inácio –
Houve necessidade de nós sairmos da área. Saímos daí dos Correios. Alguns polícias estavam em cima do tanque e estava escuro. Era por volta das 2 horas da manhã. Nós chegámos às duas da manhã. Recuámos, atravessámos a linha férrea. E fomos parar ali onde hoje é a sede da Associação 4 de Fevereiro, ali atrás da Fábrica da Cuca, nos Cajueiros. Parámos aí e fomos saindo cada um sozinho. A maior parte das pessoas que estavam ali vivia no Rangel. Eu saí com o Adão Cardoso, durante dois dias.

Jornal de Angola – No dia do ataque, todos dispersaram?

Agostinho Miguel Inácio – Todos dispersaram. Mas havia um sítio onde todas as pessoas tinham que se encontrar, mas nós não fomos lá. As pessoas tinham que se encontrar depois na casa do Imperial Santana, ou então na casa da nossa rainha.

Jornal de Angola – Quem foi a rainha?

Agostinho Miguel Inácio – Engrácia Francisco Cabenha. Era uma miúda de 12 anos. Um dos chefes, o finado Augusto Bembi, numa reunião, aconselha que a revolução angolana só teria êxito se nela estivessem envolvidas também mulheres. E era preciso uma mulher para representar a Rainha Ginga. E essa mulher tinha de ser virgem. E a única mulher que foi encontrada e que deveria ser virgem era a Engrácia, que era sobrinha do Raul Augusto Leão.

Jornal de Angola – Por que razão tinha de ser necessariamente uma mulher virgem?

Agostinho Miguel Inácio – Aí já não sei dizer. Só os chefes sabiam o truque. Mas eles queriam que fosse só uma mulher virgem e se não fosse virgem não daria certo. Ela tinha uma casa que era espécie de um posto policial. Uma casa de um quarto e sala só, tinha velas acesas, a Bíblia aberta e três guardas à volta. Os guardas eram Pascoal Salvador, Adriano Manuel Gerónimo e Mateus de Andrade. A rainha se ocupava de disciplinar os chefes, principalmente. Porque, ali onde ela estava, nenhum chefe poderia sair sem orientação dela. Ela é que tinha de autorizar. Quem incumprisse tinha castigo para ele. O Imperial Santana tinha mais de trinta anos. Ela tinha autoridade para tal. Ela foi investida com esta autoridade.

Jornal de Angola – Qual foi o papel da rainha no dia 4 de Fevereiro?

Agostinho Miguel Inácio – Ela ficou nesta casa onde havia Bíblia, a orar, já de luto, porque sabia que poucos voltariam. Ela já estava  enlutada. Muitos já não regressaram às casas.

Jornal de Angola – E, no dia seguinte, como se comunicaram?


Agostinho Miguel Inácio –
Eu tinha dinheiro no bolso, fui alugar uma casa e não voltei mais onde eu morava. Eu vivia ao lado da casa do Imperial Santana. Depois deste acto, eu já não voltei mais lá. Tudo o que tinha, lá deixei.

Jornal de Angola – Qual foi a reacção dos colonialistas?

Agostinho Miguel Inácio – Havia rusgas em todos os bairros. Batiam casas e pegavam nas metralhadoras e direccionavam por baixo da cama. Foi uma carnificina, morreu muita gente. Eu fui morar no Bairro Operário. Muitos dos meus familiares só souberam que eu estava vivo em 1967, porque, depois do assalto, no dia 5 de Junho incorporo-me no exército português. E vou para o Huambo como recruta. Fiz a recruta, jurei a bandeira, fiz a escola de cabo e depois fui transferido para Carmona na altura, no Uíge.

Jornal de Angola – Como se sentiu ao servir os ideais dos colonialistas?

Agostinho Miguel Inácio – Primeiro é que era obrigatório. Ninguém poderia dizer que não iria cumprir o serviço militar, porque senão seria refractário.Os únicos que não faziam o serviço militar até 1970 eram os mestiços, os assimilados, os colonos nascidos em Angola também não poderiam fazer serviço militar.

Jornal de Angola – Qual foi o maior ganho do 4 de Fevereiro?

Agostinho Miguel Inácio –
O maior ganho do 4 de Fevereiro foi a abolição do indigenato em Angola. Foi um decreto de 6 de Setembro de 1961, quando foi abolido o indigenato.

Jornal de Angola  –  Quantos sobreviventes do 4 de Fevereiro ainda existem?


Agostinho Miguel Inácio –
Neste momento, somos apenas 25, incluindo a rainha. Na altura da Independência, eram 101 pessoas. A rainha, neste momento, vive no Namibe. Todos nós somos reformados.

Jornal de Angola – Que apoios recebem do Estado?

Agostinho Miguel Inácio – Temos recebido algum apoio, mas precisamos de mais apoio. Precisamos que o Governo nos olhe mais, porque o que recebemos ainda não é o suficiente. Nós recebemos viaturas protocolares V8. Fomos promovidos em 1998 a brigadeiros. Em 2014, fomos promovidos a tenentes-generais. Todos somos tenentes-generais, menos um que é coronel. Nós desconhecemos por que razão um não é promovido a tenente-general. Recebemos também a pensão de 25 mil kwanzas, para os antigos combatentes, e o fundo de pensões, onde recebemos 62 mil kwanzas por mês. Ainda não temos casas. Já reclamámos, já escrevemos. Só se diz que teremos casas, mas quando, não sabemos. Eu, por exemplo, vivo nesta minha casa desde 1975. Estamos todos dispersos. Os 25 estamos todos em Luanda, tirando a rainha que vive no Namibe, mas ela está sempre em Luanda.

Jornal de Angola – Como estão organizados?

Agostinho Miguel Inácio – Temos a Associação Comité dos Heróis do 4 de Fevereiro. Eu sou o secretário-geral da associação. Nós, constantemente, tentamos nos encontrar, discutimos, para vermos se o partido e o Governo criam melhores condições para nós. Por exemplo, ter uma casa em condições, ter uma xitaca, uma lavra ou fazenda, ao invés de estarmos aqui a vegetar na cidade. Ainda não temos isto. Não sei se haverá um dia. Se já estamos a acabar… do dia 18 de Dezembro até hoje já morreram dois.

Jornal de Angola –  O  que gostariam de ter mais?

Agostinho Miguel Inácio –
Seria fastidioso dizer o que é que gostaríamos de ter mais. Nós gostaríamos do essencial, fosse a bolsa de estudo para os nossos filhos, nós já estamos velhos. Gostaríamos que os nossos filhos dissessem que eu estou aqui porque o meu pai participou aí e, então, com base nisso, tenho uma bolsa de estudo.

Jornal de Angola – As bolsas de estudo para os filhos dos antigos combatentes existentes nas universidades públicas do país não vos abrangem?

Agostinho Miguel Inácio –
Os meus filhos e os dos meus colegas todos estudam por nossa conta. Se existem antigos combatentes do 4 de Fevereiro que beneficiaram de bolsa de estudo, só dos que foram membros do Governo, talvez são os que beneficiaram. Nós nunca beneficiámos de bolsas de estudo para os nossos filhos. Quem já contactou a Associação 4 de Fevereiro para dizer que temos bolsas? Ouvimos dizer que existem bolsas de estudo, mas quem beneficia delas?

Jornal de Angola – Que apoio recebem da sociedade civil?

Agostinho Miguel Inácio –
Caro jornalista, já que o partido, o Governo, praticamente não olha para nós, como nós pensamos como devia ser, nós evitamos fazer pedidos. Evitamos encostar às igrejas. Cada um vai rezar e depois vai para sua casa, mas não dizemos nada sobre isto. Estamos sempre aqui. Nós não temos apoio de nenhuma instituição. Tirando o apoio do Fundo de Pensões e a pensão dos antigos combatentes, nós não temos nada. A nossa sobrevivência é com base nisso. As organizações juvenis que também deveriam nos contactar também não nos procuram. Nós andamos quase que divorciados de outras organizações.

http://jornaldeangola.sapo.ao/entrevista/pais_recorda_herois

José Eduardo deixa o governo de Angola depois de 37 anos no poder

 

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José Eduardo dos Santos é Presidente de Angola desde setembro de 1979, cargo que assumiu após a morte de Agostinho Neto, o primeiro Presidente angolano.

A Constituição angolana aprovada em 2010 prevê a realização de eleições gerais a cada cinco anos, elegendo 130 deputados pelo círculo nacional e mais cinco deputados pelos círculos eleitorais de cada uma das 18 províncias do país (total de 90).

O cabeça-de-lista pelo círculo nacional do partido ou coligação de partidos mais votado é automaticamente eleito Presidente da República e chefe do executivo, conforme define a Constituição, moldes em que já decorreram as eleições de 2012.

Pela manhã, num discurso de 12 minutos com que iniciou a reunião do Comité Central, em Luanda, José Eduardo dos Santos anunciou – o que aconteceu pela primeira vez publicamente – que já está aprovado o nome do vice-presidente do partido e ministro da Defesa, João Lourenço, para cabeça-de-lista do MPLA às próximas eleições gerais, e candidato a Presidente da República, e do ministro da Administração do Território, Bornito de Sousa, também general na reserva, como número dois, concorrendo a vice-Presidente.

“Na sua reunião de 02 de dezembro de 2016, no quadro da preparação do partido para participar nessas eleições [gerais, de 2017], o Comité Central aprovou o nome do candidato João Manuel Gonçalves Lourenço como cabeça-de-lista a candidato a Presidente da República e o nome do camarada Bornito de Sousa como segundo da lista e vice-candidato a Presidente da República”, anunciou José Eduardo dos Santos.

 

ddJoão Lourenço, Ministro da Defesa

O cabeça de lista pelo MPLA às eleições gerais deste ano, João Gonçalves Lourenço, disse que se vem preparando para o cargo e para os desafios do país.

João Lourenço fazia o primeiro pronunciamento público depois de ter sido anunciado pelo líder do partido, José Eduardo dos Santos, como cabeça de lista pelo MPLA às eleições gerais previstas para este ano.

Em caso de vitória eleitoral, o cabeça de lista assume a presidência da República.

“Venho sendo preparado e vou me preparando para o exercer a função. Hoje foi a confirmação de algo que internamente, a nível da direcção do partido já era um dado adquirido. Estou sim preparado a aceitar o desafio que o Presidente José Eduardo dos Santos e o partido colocam nas minhas mãos”.

Promete tudo fazer para honrar a confiança depositada.

Sublinha que a única prioridade de momento é trabalhar para vencer as eleições.

Questionado se oito meses seriam suficientes para ser suficientemente  conhecido pela massa eleitoral, João Lourenço respondeu não ser desconhecido pelas funções que já desempenhou a nível partidário, na  governação e nas forças armadas.

“O meu rosto é conhecido”, respondeu sublinhando não quer relevar a sua condição de general na reserva pelo facto de o país já não estar em guerra e que os desafios são a consolidação da democracia e o fortalecimento da economia.

Afirmou ser um grande desafio substituir o Presidente José Eduardo dos Santos na presidência da República mas não ser impossível, com o apoio do próprio MPLA,
transmite aos militantes e cidadãos angolanos uma mensagem de esperança de que o partido continuará a cumprir com sua grande missão de criar as melhores condições possíveis para o povo angolano.

Salientou que a sua participação em debates públicos ao longo da campanha eleitoral vai depender do que for estabelecido, e que não depende apenas um dos actores.

Fonte:http://www.rtp.pt/noticias/mundo/jose-eduardo-dos-santos-fora-das-listas-de-candidatos-as-eleicoes-angolanas-mpla_n980597

Moçambique anuncia fim da mediação internacional nas negociações de paz com a Renamo

O Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, anunciou hoje o encerramento da fase que envolve a mediação internacional nas negociações de paz, considerando que os mediadores serão solicitados para as conversações entre o Governo e a Renamo caso se considere necessário.
Filipe Nyusi, presidente de Moçambique

MaputoMaputo – O Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, anunciou hoje o encerramento da fase que envolve a mediação internacional nas negociações de paz, considerando que os mediadores serão solicitados para as conversações entre o Governo e a Renamo caso se considere necessário.

“Hoje, esta fase do processo de diálogo [que envolve a mediação internacional] pode ser considerada encerrada”, declarou o chefe de Estado moçambicano, durante as cerimónias centrais do Dia dos Heróis em Maputo, que hoje se assinala, informa a agência Lusa.

Expressando a sua “profunda gratidão” pelo trabalho e entrega do grupo, Filipe Nyusi disse que os mediadores internacionais nas negociações paz em Moçambique prestaram uma “valiosa contribuição” nas conversações entre o Governo e a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), principal partido de oposição.

“O povo moçambicano está verdadeiramente agradecido e aprecia os esforços dos mediadores para a aproximação de posições entre o Governo e a Renamo”, acrescentou o chefe de Estado, dando conta de que foram endereçadas cartas de agradecimento a toda a equipa de mediação pelo apoio prestado.

Manifestando-se otimista com as conversas que vem mantendo com o presidente da Renamo, Afonso Dhlakama, Filipe Nyusi avançou que as partes decidiram criar dois grupos diferentes compostos por especialistas para tratar dos “assuntos militares” e da descentralização, exigida pelo maior partido da oposição em Moçambique.

“Apelamos a todas forças vivas da sociedade para acarinharem estas ações”, referiu o chefe de Estado, observando que a paz é a “vontade suprema dos moçambicanos”.

Moçambique atravessa uma crise política que opõe o Governo e a principal força de oposição e o centro do país tem sido assolado por conflitos militares entre as Forças Defesa e Segurança e o braço armado Renamo, que reivindica vitória nas eleições gerais de 2014, acusando a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), no poder há mais de 40 anos, de fraude no escrutínio.

Os trabalhos da comissão mista nas conversações do Governo e da Renamo, orientada pela equipa de medição internacional, pararam em meados de dezembro sem acordo sobre o pacote de descentralização, um dos temas essenciais das negociações de paz, após meses de reuniões.

Na altura, o coordenador da equipa de mediação, Mario Raffaeli, indicado pela UE, disse que os mediadores só regressarão a Maputo se forem convocados pelas partes.

Além do pacote de descentralização e da cessação dos confrontos, a agenda do processo negocial integra a despartidarização das Forças de Defesa e Segurança e o desarmamento do braço armado da oposição, bem como sua reintegração na vida civil.

Os mediadores internacionais foram selecionados pelas duas partes, tendo a Renamo apontado um grupo de representantes indicados pela União Europeia, Igreja Católica e África do Sul, enquanto o Governo nomeou o ex-Presidente do Botsuana Quett Masire, pela Fundação Global Leadership (do ex-secretário de Estado norte-americano para os Assuntos Africanos Chester Crocker), a Fundação Faith, liderada pelo ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, e o antigo Presidente da Tanzânia Jakaya Kikwete.

Em finais de dezembro, após conversas telefônicas com o Presidente moçambicano, o líder da Renamo, Afonso Dhlakama, declarou uma trégua de uma semana como “gesto de boa vontade”, tendo, posteriormente, prolongando o seu prazo para 60 dias.

http://www.portugaldigital.com.br/lusofonia/ver/20108830-mocambique-anuncia-fim-da-mediacao-internacional-nas-negociacoes-de-paz-com-a-renamo

Moçambique: Dhlakama confirma criação de grupos para discussão de questões militares

Maputo – O líder da Renamo (maior partido da oposição em Moçambique), Afonso Dhlakama, confirmou hoje, sexta-feira, a criação de dois grupos de trabalho que deverão discutir questões militares e assuntos relacionados com a descentralização no país, vislumbrando-se, deste modo, para breve, o retorno do diálogo político.

LÍDER DA RENAMO, AFONSO DHLAKAMA, COM SEUS APOIANTES, VOTANDO EM ELEIÇÕES GERAIS

FOTO: CARLOS VAZ

Segundo Dhlakama, citado pela Rádio Moçambique, a emissora pública, os  grupos vão ser constituídos por quatro membros, dois do lado do governo e o remanescente da Renamo.

“A partir da segunda-feira vamos criar novo grupo que vai tratar de assuntos da descentralização e militares”, disse o líder da Renamo, falando em teleconferência para uma reunião do seu partido na Zambézia, centro de Moçambique, de preparação das eleições autárquicas de 2018.

Ele acrescentou que “não posso precisar para quando vamos reiniciar o diálogo. Mas os grupos serão constituídos.”

No que diz respeito à presença dos mediadores, Dhlakama disse “esta fase vai decorrer sem a presença deles. O trabalho deles terminou. O que agora sobrou é o trabalho dos especialistas. Mas a qualquer momento poderemos chama-los.”

Na manha de hoje, o Presidente da República, Filipe Nyusi, anunciou o fim da fase do diálogo político envolvendo os mediadores internacionais, apelando-os a manifestarem a sua disponibilidade caso sejam solicitados.

Na ocasião, o Presidente moçambicano disse ter endereçado cartas aos mediadores, exprimindo profunda gratidão dos moçambicanos pela sua contribuição para o alcance da paz.

“O povo moçambicano está verdadeiramente agradecido pelo vosso esforço na aproximação de posições entre o governo e a Renamo”, disse o Estadista moçambicano.

http://www.angop.ao/angola/pt_pt/noticias/africa/2017/1/5/Mocambique-Dhlakama-confirma-criacao-grupos-para-discussao-questoes-militares,be1b8b55-8e28-4c32-ab4c-20f16107deff.html

Presidente da República de Moçambique, Filipe Nyusi,anuncia nova diálogo de paz

nyusi-maputoO Presidente da República, Filipe Nyusi, anunciou hoje o início de uma nova fase do discurso político-militar entre o Governo e a Renamo. Nyusi, que falava esta sexta-feira nas cerimónias centrais do Dia dos Heróis, apelou a disponibilidade dos mediadores para a nova etapa com vista ao restabelecimento da paz.

“Brevemente, deverá dar início uma outra etapa de diálogo, para qual gostaríamos de solicitar que se mantenham disponíveis, caso Moçambique assim considere necessário”, fez saber.

Nyusi aproveitou a ocasião para agradecer aos mediadores pelo contributo dado na busca da reconciliação entre o Governo e a Renamo.

“Enderecei cartas a todos os mediadores internacionais que têm participado no processo de diálogo. Exprimi a profunda gratidão dos moçambicanos pela contribuição valiosa por eles dada na busca da paz, o supremo interesse dos moçambicanos”, realçou Filipe Nyusi, tendo revelado, também, que continua a dialogar com Afonso Dhlakama.

“Caros compatriotas, tenho mantido uma interação cordial com o líder da Renamo, com vista a concretização de dois grupos especializados que irão, em separado, debruçar-se sobre os assuntos militares e da descentralização”.

O Presidente da República prometeu anunciar, em breve, o passo subsequente resultante dos consensos alcançados.

O Chefe do Estado relembrou que não existem fórmulas únicas para resolução de problemas, apelando às forças vivas da sociedade, para acarinhar e apoiar os esforços conjuntos.

http://opais.sapo.mz/index.php/politica/63-politica/43437-nyusi-anuncia-nova-fase-do-dialogo-politico-militar.html

Secretário-Geral da ONU critica “visão parcial” sobre o continente africano

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Fotografia: Zacharias Abubeker | AFP

O Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, deixou a 28ª Cimeira da União Africana com um forte apelo para a mudança na forma como o continente berço da humanidade é caracterizado pela comunidade internacional e com a promessa de o apoiar na construção do desenvolvimento e da paz sustentáveis.

 

Ao falar a jornalistas à margem da cimeira que juntou em Addis Abeba dezenas de líderes do continente africano, antes de deixar a capital Etíope, António Guterres defendeu que África deve ser reconhecida pelo potencial de desenvolvimento, economia e governação.
António Guterres lamentou a forma como África é descrita na Europa, Américas e Ásia, denunciou o que chamou de “uma visão parcial de África”, disse ser preciso mudar a narrativa sobre o continente na comunidade internacional e que este deve ser reconhecido “pelo seu enorme potencial.”
O Secretário-Geral das Nações Unidas recordou que África teve o maior crescimento econômico do mundo nos últimos 10 anos e “histórias de sucesso extraordinárias do ponto de vista do desenvolvimento econômico e de governação.”
Uma dessas histórias, prosseguiu, ocorreu há dias com a reacção “exemplar” da Comunidade Econômica dos Países da África Ocidental (CEDEAO) na Gâmbia, que demonstrou “a capacidade de os países africanos se unirem e resolverem os problemas no continente.”
António Guterres lembrou que “o apoio da União Africana e das Nações Unidas ajudou a resolver a crise pós-eleitoral” e disse esperar que esse exemplo “seja seguido noutras partes do mundo.”
O Secretário-Geral da ONU elogiou a União Africana pelo “trabalho muito importante em nome do continente”, manifestou “disposição total da ONU em apoiar plenamente as suas actividades” e destacou “o entendimento integral” entre a ONU, a União Africana e a Autoridade Intergovernamental para o Desenvolvimento (Igad) sobre a necessidade de se trabalhar “numa só voz” para pacificar o Sudão do Sul.

Agradecimento a África

No discurso proferido na segunda-feira na União Africana, António Guterres  reiterou o pleno apoio da organização que dirige à construção do desenvolvimento e da paz sustentáveis na África.
António Guterres, que começou o discurso manifestando solidariedade à União Africana, afirmou que a ONU “tem orgulho dessa parceria” e destacou a cooperação das partes na implementação das agendas 2063 da União Africana, 2030 da ONU e na promoção da paz, da segurança e dos direitos humanos.

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O Secretário-Geral recordou uma frase do ex-Presidente moçambicano, já falecido, Samora Machel, segundo a qual “a solidariedade é um acto de união entre aliados lutando em diferentes áreas, mas com os mesmos objectivos e o principal desses é ajudar no desenvolvimento da humanidade no nível mais alto possível”, para afirmar que a União Africana “trabalha diariamente pela união, paz e progresso para todos.”
E África, prosseguiu, fornece a maioria das forças de paz da ONU.
As nações africanas “estão entre os maiores e mais generosos anfitriões de refugiados do mundo” e as suas fronteiras “continuam abertas às pessoas que precisam de protecção, quando muitas fronteiras estão a ser fechadas, até mesmo nos países mais desenvolvidos.” António Guterres elogiou o continente por incluir algumas das economias que mais crescem no mundo, mas pediu mais atenção para os jovens.
“É fundamental que façamos mais para proporcionar aos jovens oportunidades e esperança. Felicito-vos por terem designado 2017 como o ano do aproveitamento do dividendo demográfico através de investimentos na juventude. Mais de três em cada cinco africanos têm menos de 35 anos de idade”, afirmou.
Para o continente tirar partido deste potencial, António Guterres recomenda mais investimento na educação, na formação e no trabalho condigno e considera “fundamental” envolver os jovens “na construção do seu próprio futuro.” Nesse sentido, prometeu “apoio total” do Sistema das Nações Unidas.  António Guterres disse esperar também trabalhar com a União Africana para reforçar o poder das mulheres africanas, para que estas possam desempenhar o seu papel no desenvolvimento e na paz sustentáveis. Sobre a paz, garantiu que a ONU vai apoiar a iniciativa africana “Silenciar as Armas até 2020”, ou até mesmo antes da data.

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Alpha Condé, o Presidente da Guiné Conacri e líder em exercício da União Africana, convidou António Guterres a participar anualmente num pequeno almoço com Chefes de Estado e de Governo africanos em Janeiro. Para o Secretário-Geral da ONU, estas ocasiões vão servir para interagir com líderes africanos e discutir “de forma muito significativa” as relações entre a União Africana e a ONU.
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Mais apoio ao continente

António Guterres passou das promessas à prática ao liberar, também na segunda-feira, 100 milhões de dólares da verba do Fundo Central de Resposta de Emergência para mais de nove países, oito dos quais Estados africanos.
O Secretário-Geral da ONU disponibilizou o dinheiro para operações humanitárias em nove países com o que considera “crises negligenciadas”,ajudando deste modo mais de 6 milhões de pessoas nos Camarões, na Coreia do Norte, na Líbia, no Madagáscar, no Mali, no Níger, na Nigéria, na Somália e no Uganda. Ao justificar a medida, António Guterres disse que o financiamento é crucial para que agências da ONU e parceiros continuem a apoiar “pessoas que precisam de ajuda tão desesperadamente.”
Boa parte dos 100 milhões de dólares vão para pessoas deslocadas e o financiamento vai ajudar  a garantir cuidados de saúde, abrigo e alimentos para milhões de pessoas que escapam da violência do Boko Haram na Nigéria, no Níger e nos Camarões, explicou.
No Madagáscar, no Mali e na Coreia do Norte, o apoio da ONU segue para os civis que sofrem de desnutrição e com a insegurança alimentar, acrescentou.

 

Fonte:http://jornaldeangola.sapo.ao/mundo/guterres_critica_visao_parcial_sobre_o_continente_africano

Homenagem de Angola na despedida a Nkosazana Dlamini-Zuma, ex-presidenta da Comissão da União Africana

por Guilhermino Alberto | Adis Abeba

Fotografia: João Gomes | Adis abeba-Edições Novembro

O Vice-Presidente da República, Manuel Vicente,  manteve um encontro com o Presidente da Namíbia, Hage Geingob, à margem da  28.ª Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da União Africana, que encerrou ontem em Adis Abeba, capital da Etiópia.

 

Manuel Vicente e Hage Geingob analisaram ontem a cooperação bilateral e os espaços que ainda existem para o seu alargamento. Ainda ontem de manhã, o Vice-Presidente da República recebeu em audiência, no Hotel Radisson Blu de Adis Abeba, a secretária executiva da Associação para o Desenvolvimento da Educação em África (ADEA), a anglo-gambiana Oley Dibba-Wadda, que é especialista em questões para o desenvolvimento da educação e faz campanha activa por uma abordagem eficaz à educação que não ponha de parte estudantes do sexo feminino.
Em declarações à imprensa angolana, Dibba-Wadda disse que o encontro serviu para convidar as autoridades angolanas a participarem, de 15 a 17 de Março próximo, na cidade de Marraqueche, Marrocos, numa mesa-redonda organizada pela ADEA para uma análise profunda sobre a educação no continente africano.
Para a especialista em educação inclusiva, Angola é um país com o qual se deve sempre contar em iniciativas que envolvem a educação da jovem mulher. A ADEA tem projectos virados para o continente africano e conta com o apoio de importantes instituições financeiras, como o Banco Mundial (BM) e o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD).
Manuel Vicente visitou ontem as novas instalações da Embaixada de Angola na capital etíope e assistiu à sessão de empossamento da nova presidência da Comissão da União Africana. Tomou posse para um mandato de quatro anos como presidente da Comissão da União Africana, em substituição da sul-africana Nkosazana Dlamini-Zuma, o chadiano Moussa Faki Mahamat.
Mahamat, que figurava entre os favoritos ao cargo, conseguiu o lugar depois de sete voltas de votação, tendo como principal adversária a ministra dos Negócios Estrangeiros do Quénia, Amina Mohamed.
Na reunião prévia desta instituição, realizada em Julho do ano passado na cidade de Kigali, capital do Ruanda, nenhum dos três concorrentes, entre os quais não figuravam o chadiano e a queniana, conseguiu dois terços dos votos requeridos para ter a maioria (36 dos 54 países que integram actualmente a UA). Com a reintegração de Marrocos na segunda-feira, a União Africana passa a contar agora com 55 Estados-membros. Além do presidente da Comissão, tomou ontem posse como vice-presidente do órgão executivo da União Africana o ghanense Thomas Kwesi Kwete. A União Africana é presidida pelo Chefe de Estado da Guiné Conacri, Alpha Condé, e co-presidida pelo Presidente da Argélia, Abdelaziz Bouteflika.
Ontem tomaram igualmente posse, na sede da organização continental em Adis Abeba, o grosso dos comissários da União Africana, entre os quais a angolana Josefa Sacko, que se vai ocupar da Economia Rural e Agricultura. Em declarações à imprensa, minutos antes de tomar posse, Josefa Sacko agradeceu o voto de confiança dos Estadistas africanos, tendo destacado o papel do Presidente José Eduardo dos Santos na promoção dos quadros dentro e fora das fronteiras nacionais.
O ministro das Relações Exteriores, Georges Chicoti, fez um balanço positivo da 28.ª Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da União Africana. Considerou a eleição do novo presidente da Comissão da União Africana e o regresso de Marrocos à organização, depois de uma ausência de 33 anos, como bons sinais para os consensos que são necessários no futuro, como é o diálogo que vai ter de acontecer à volta da questão do Sahara Ocidental sem pré-condições.
Além da questão de Marrocos e do Sahara, Georges Chicoti congratulou-se com a eleição, por uma margem confortável, do presidente da Comissão da União Africana, assim como com a recondução do comissário para a Paz e Segurança, o diplomata argelino Smaïl Chergui, “que trabalhou muito bem” e por isso mereceu a confiança dos Chefes de Estado africanos.
O ministro congratulou-se também com a eleição de Josefa Sacko. Angola  entra pela primeira vez no órgão executivo da União Africana, com a eleição da engenheira Josefa Sacko. Chicoti revelou que esta era uma candidatura preparada há muito. O chefe da diplomacia angolana acredita que a comissária africana Josefa Sacko vai ser uma grande mais valia na promoção interna do sector da Agricultura, no actual momento da diversificação da economia angolana.
Georges Chicoti reconhece que o orçamento anual da União Africana, estimado em pouco mais de 500 milhões de dólares, não é suficiente para os grandes desafios do continente, mas acredita que os Estados-membros vão dar as suas contribuições para os projectos de desenvolvimento existentes.

Moussa Faki Mahamat, do Chade, foi eleito presidente da Comissão da União Africana

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Ministro dos Negócios Estrangeiros do Chade, Moussa Faki Mahamat foi eleito hoje presidente da Comissão da União Africana, após várias votações, a 28ª reunião de cúpula , em Adis Abeba, em substituição a Dlamini Zuma

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Moussa Faki Mahamat, disputou a eleição com  outros quatro candidatos, ganhou na última votação frente ao candidato do Quênia Amina Mohamed. Moussa  é trilíngue em árabe, francês e inglês. Estudou em Brazzaville e Paris, exerceu o cargo de primeiro ministro e atualmente era Ministro das Relações Exteriores.

O novo presidente da Comissão da União Africana,  sonha com um novo continente “onde o som de armas” seria sufocado por “os hinos da cultura e do rugido das fábricas”, e  colocar “o desenvolvimento e segurança” entre a suas prioridades, ele confidenciou o semanário Jeune Afrique .

Ele também disse que quer  que União Africana com menos burocracia, menos litigiosa também …uma Africa livre de circulação de bens e pessoas par tornar-sem mais eficaz, Construir estradas, vias férreas, criar pontes entre nós.”

Sua eleição  satisfez a França e os Estados Unidos, que apoiam o Chade e seu regime de ferro na luta contra o grupo nigeriano islamita Boko Haram e outras entidades armadas no Sahel.

fonte:http://www.voaafrique.com/a/le-ctahd-faki-mahamet-elu-president-de-la-commission-de-ua/3698402.html

Prof. moçambicano afirma que a visita de Erdogan visava convencer Nyusi a “entregar inimigos’ da Turquia”,

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Uache defende que Erdogan veio ao país em busca de ajuda para neutralizar seus opositores

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Paulo Uache, professor de Estudos da União Europeia, no Instituto Superior de Relações Internacionais em Maputo, não tem dúvidas em relação à visita histórica de Erdogan ao nosso país: “tinha duas perspectivas: uma económica, que era compensatória, e uma perspectiva política, que era uma espécie de combate ao terrorismo na sua percepção de terrorismo”

“Ainda ontem (antes de ontem), deu uma entrevista a um canal a dizer que tinha duas perspectivas: uma económica, que era compensatória, e uma perspectiva política, que era uma espécie de combate ao terrorismo na sua percepção de terrorismo, porque, a partir de 2013, Erdogan entra em desavenças com Gulam, um homem influente do ponto de vista económico, religioso, e até é acusado pelo próprio Erdogan de estar a patrocinar o movimento PKK, que é um partido curdo na Turquia.

Agora, o cenário é que a Turquia tem dificuldade de identificar os amigos. Temos visto o que acontece com a Rússia, com os Estados Unidos, acusados de apoiar movimentos rebeldes dentro da Turquia, mas, mais do que isso, é que não se entende com a própria União Europeia. Com Moçambique, concretamente, é esta percepção de que aqui existem aqueles que são apoiantes do Gulam e que estão a investir em outras áreas, como a económica, turística e até mesmo a educação.

Estes elementos todos fazem com que Erdogan faça esta ofensiva, não só em Moçambique. Eu acho que é uma ofensiva política para África, no sentido de identificar os países, pedir colaboração, como ele diz, para que se afastem. Daí que traz também empresários, na minha percepção, são empresários compensatórios, no sentido de que ‘afastem esses, e eu hei-de dar-vos o que eles já vos dão com estes meus’. Só que a política externa de um Estado não se faz assim, porque Erdogan não é eterno no poder.

Portanto, se não é eterno, nós não podemos estar a mudar de política em função da liderança que está lá. Temos que encontrar parcerias duradouras. Não podemos nos afastar só porque o investidor ou Erdogan não concorda com uma certa perspectiva dentro do país dele e nós temos que aderir automaticamente.

Temos que reflectir, temos que olhar, temos que perceber quais são as tendências dentro da Turquia, e eu penso que ele não tem grandes chances de repetir o mandato dentro do seu país, pela forma como aborda as questões políticas, tanto com os vizinhos, como a nível interno. É uma questão muito forte e difícil com que lidar, mas, diplomaticamente, teremos que encontrar saídas para lidar com a situação. Em diplomacia, o princípio básico é nunca dizer ‘não’. Mas isso não significa ‘sim’.

É sempre encontrarmos uma fórmula de lidarmos com todos os parceiros que achamos relevantes para o nosso desenvolvimento, porque, se ele está aqui, é pelo interesse nacional do país dele, e o nosso interesse nacional onde é que fica? Vamos olhar para os dois: quem é e como preserva melhor o nosso interesse nacional, e como é que podemos, provavelmente, lidar com os dois, para amenizar a questão das nossas perdas.

Uma medida, por exemplo, de dizer que agora estamos com Erdogan pode desincentivar outros investidores ou outros parceiros que estão no nosso território, porque isso significaria a nacionalização dos bens daqueles que supostamente Erdogan está contra.

Isso significaria que o nosso país não é confiável do ponto de vista de investimento, mas também, negar seria uma perspectiva muito dura, porque a Turquia tem as capacidades que tem do ponto de vista económico, não falaria do ponto de vista militar, porque isso não é relevante neste momento, também pela distância, não é uma grande ameaça para Moçambique.

Mas pela capacidade económica, porque, na situação em que nos encontramos, seria um parceiro relevante, desde que não nos imponha as suas vontades. Podemos cooperar até onde podemos, mas não precisamos de ser seguidores da sua percepção, que não é apoiada, por exemplo, pela União Europeia, que também é nosso parceiro; não é apoiada pelos Estados Unidos, pela Rússia, que também são nossos parceiros. Então, temos que encontrar uma fórmula nacional de lidar com os nossos interesses e mostrarmos que temos interesses sobre os quais só podemos negociar se nos beneficiarem.

Erdogan é um homem passageiro, mas o Estado turco está lá e qualquer um desses actores pode ser membro da gestão futura da Turquia. Portanto, eu penso que nós também, como um Estado com 40 anos, temos a capacidade para lidar com o assunto; vamos provavelmente encontrar uma saída, sem negar. Estiveram aqui vários outros estadistas com os seus interesses e tivemos a perspicácia de escolher os nossos interesses, sabendo ceder para também receber, mas não agir de forma clara contra o interesse nacional”.

 

http://opais.sapo.mz/index.php/politica/63-politica/43339-visita-de-erdogan-visava-convencer-nyusi-a-entregar-inimigos-da-turquia-paulo-uache.html

O Observatório

Este observatório é uma iniciativa do Grupo de Estudos Africanos vinculado ao Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (GEA/IREL-UnB), que busca refletir sobre a vida política, social e econômica da África contemporânea, com destaque para sua inserção internacional. Preocupando-se com o continente marcado pela diversidade, o Grupo de Estudos Africanos, por meio do Observatório, propõe um olhar crítico e compreensivo sobre temas africanos, em suas mais diversas dimensões.