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Wole Soyinka: a voz crítica da realidade africana

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Nascido na Nigéria, primeiro africano ganhador do Nobel da Literatura, em 1986, Wole Soyinka esteve no Rio Grande do Sul a convite da Bienal do Mercosul, para falar na 63ª Feira do Livro de Porto Alegre. Nesta entrevista, ele trata de tolerância, diversidade, arte de guerrilha e dos métodos que usa para escrever as suas obras.

Correio do Povo: O senhor defende como escritor e intelectual um mundo de diversidade e tolerância. O momento atual pode ser visto como de retrocesso em relação a esse ideal?
Wole Soyinka: Um pouco de duas coisas. Está retrocedendo, mas também está evoluindo. A maioria das pessoas considera a diversidade como algo bom. Sem diversidade a vida seria muito enfadonha. Mas houve momentos na história em que grupos usavam esse tipo de questão para explorar outros. Havia uma ideia de que eliminar a diversidade equivaleria a suprimir as diferenças de classe, as diferenças sociais. Mas essa ideia é falsa. Quem pensava assim não entendia que as diferenças culturais costumam melhorar a produtividade e o entendimento entre as pessoas. Estamos, porém, retrocedendo em termos de tolerância. É o que se vê, por exemplo, com o islamismo radical.

CP: O mundo ocidental tem como aceitar essa ideia de pluralidade?
Wole Soyinka: Nas minhas experiências no Brasil, em Cuba e na Colômbia, encontrei pessoas que se identificam com essa cultura pluralista. Há quem retorne à África para se reconectar com esses valores. O sincretismo mostra que se a pessoa está com a mentalidade aberta essa convivência é natural.

CP: O senhor disse que tem a impressão de que parte dos brasileiros tem essa ligação com a África e que outra parte a ignora. É isso mesmo?
Wole Soyinka: A nossa cultura carrega em si a concepção da diversidade. Entendemos e aceitamos que existam outras visões de mundo, que não são excludentes. Na África, o islamismo e o cristianismo entraram, mas não se foi tentar resgatar os que se converteram. Nossa postura é de convivência e de aceitação das diferenças. Há até quem sem converta por loucura.

CP: O senhor tem apontado o Boko Haram como a grande ameaça na Nigéria. Como foi possível que um grupo extremista islâmico se encravasse numa cultura de tolerância?
Wole Soyinka: 
O fato é que entre os convertidos ao islamismo radical que mais levam ao pé da letra o que defendem, muito poucos são de origem iorubá. Conheço um líder iorubá, membro do governo, radicalizado que não deixa a esposa receber em casa ninguém que não seja convertido ao islamismo. Tem um membro do governo que usa luvas para não tocar com as mãos nuas em nenhuma mulher nas suas ações oficiais. Mas esses são exemplos raros.

CP: Escritor político, o senhor esteve preso, critica ditadores e não poupa o autoritarismo. A queda de Robert Mugabe será a libertação do Zimbábue ou apenas mais um capítulo numa longa novela de ditaduras?
Wole Soyinka: 
Em todas as sociedades existem homens que acreditam ter encontrado o segredo da vida e da morte. O mesmo vale para o poder. Existem homens que acreditam saber como nunca mais perder o poder. Mugabe, no começo, lutou de maneira libertária para livrar seu país da opressão colonialista. Com o passar do tempo, no entanto, alienou-se e passou a praticamente se identificar com as forças coloniais expulsas. Para nossa cultura, porém, não existe poder eterno. A hora de Mugabe teria de chegar. Mugabe não é o fim nem foi o começo de coisa alguma. Ele é apenas mais um capítulo nessa marcha rumo à libertação, uma das últimas figuras a ainda a acreditar na perenidade do seu poder.

CP: A saída desse tipo de homem muda um país ou é só mais uma ilusão?
Wole Soyinka: 
Há algum avanço, pois essa saga de Mugabe foi instrutiva no sentido de que a oposição ficou mais madura. Os generais estão tirando-o do poder lentamente de modo a evitar uma ruptura traumática.

CP: Durante um tempo o senhor dizia fazer teatro de guerrilha. Hoje, consagrado pelo Nobel, ainda faz uma espécie de arte de resistência?
Wole Soyinka: Se eu continuasse a fazer sempre o mesmo teatro, sofreria uma espécie de atrofia mental. O meu teatro também precisa de diversidade. A minha última peça é meio uma farsa que trata do fato de que muitas pessoas se recusam agora a falar a língua iorubá com o sotaque certo. Falar sem esse ritmo, de uma língua tonal, é perder metade da sua força. Como é difícil ficar livre de um hábito, contudo, agora me dou conta de que dentro dessa minha peça tem algumas críticas a governantes.

CP: O senhor disse que não consegue entender os escritores que levantam de manhã e já começam a produzir. É muito difícil escrever?
Wole Soyinka: 
Não sou um escritor metódico. Gosto de ter bastante tempo para trabalhar. Posso virar madrugadas. Às vezes, dou uma parada, tomo um expresso e, quando me falta inspiração, saio para dar uma caminhada. Quando a inspiração vai embora, é preciso fazer outra coisa, ouvir música, andar, espairecer. É dessa maneira que trabalho.

CP: Há sempre um grande interesse pela ‘‘cozinha’’ dos escritores. Hemingway dizia trabalhar 12 horas por dia para obter um parágrafo. O senhor consegue produzir grandes fragmentos de texto num único dia de trabalho?
Wole Soyinka: 
O meu processo é muito parecido com o de um escultor. Quando um escultor começa normalmente ele tem uma ideia de onde quer chegar, mas ao tirar pedaços da pedra vê que sua ideia inicial pode ser redirecionada para outro lugar. Hoje, com o computador, é uma pena não termos mais provas físicas desse trabalho de transformação, desse suor, ver todas as páginas que foram arrancadas e rasgadas, tudo que foi riscado. Eu me sinto assim.

CP: O escritor francês Michel Houellebecq diz que quando está possuído por uma ideia precisa escrever para se livrar dela. Acontece com o senhor?
Wole Soyinka: 
Quando sou possuído por uma ideia tenho pena das pessoas à minha volta. Nesses momentos, tudo que não seja escrever, como dar aula ou receber pessoas, vira inimigo. Quando vejo uma modelo rindo numa propaganda como essas de creme dental, com aquele sorriso falso, sei que é exatamente assim que fico quando estou possuído por uma ideia que precisa sair.

CP: A literatura tem futuro num tempo em que, segundo uma pesquisa, duas pessoas em cada três veem Netflix até mesmo quando estão na rua?
Wole Soyinka: 
Será difícil matar a literatura não só pelo poder da palavra escrita, mas por causa do livro como objeto. Nem sei o que é Netflix. Prefiro ver filmes no cinema. Tento ver no avião, mas acabo dormindo. Trabalho nos aviões e talvez durma rapidamente por já estar esgotado.

CP: Por que o teatro lhe pareceu a forma de expressão mais conveniente?
Wole Soyinka: 
Nasci num meio muito teatral, com muito teatro de rua e muitas mascaradas, que são espetáculos metade sagrados metade profanos. Cheguei a escrever contos. Na verdade, sou atraído por muitos meios de expressão. Eu me sinto um arquiteto fracassado, um músico fracassado…

CP: Uma frase sua diz que ‘‘o homem morre em todos os que se calam’’. Calar não é em certas circunstâncias a única forma de sobreviver?
Wole Soyinka: 
Nessas circunstâncias é uma estratégia pessoal e cabe a cada um perceber quando é o momento de esperar um pouco, inclusive de aconselhar os outros a esperar. Outra situação que exige o silêncio é quando a gente fala, fala e vê a sociedade fazendo exatamente o contrário do que lhe é dito. É insuportável ficar ouvindo a própria voz cair no vazio. Outro momento para calar é quando surge uma nova geração para assumir certas causas. Dá vontade de deitar a cadeira e pegar uma taça de vinho.

CP: Um escritor num país africano ou no Brasil, lugares de muita desigualdade, tem a obrigação de falar, de denunciar, de se engajar?
Wole Soyinka: Não. Eu não vejo qualquer problema em literaturas escapistas como a ficção científica, que são produtos da imaginação, pois elas, às vezes, apontam outros modos de vida não diretamente políticos. O engajamento obrigatório pode resultar em pura propaganda.

CP: Ano passado, estive em Moçambique. É lindo e chocantemente pobre como muitas partes do Brasil. O senhor consegue imaginar num tempo razoável uma África democrática, desenvolvida e igualitária?
Wole Soyinka: 
Sim. Estamos a caminho disso, mas muito lentamente. Eu me sinto incomodado quanto estou ao volante do meu carro e vejo crianças mexendo no lixo em busca de comida. Machuca a alma e deixa até o que comemos com gosto ruim. A África, porém, não precisa inventar a roda. Coisas já mudaram.

CP: O Brasil é o décimo país mais desigual do mundo. A África do Sul é o primeiro. A desigualdade tornou-se o principal ponto em comum entre Brasil e África?
Wole Soyinka: 
Visitei favelas brasileiras. É uma pobreza muito similar à que temos na África. Lembro dos protestos na época da Copa do Mundo para que o evento não acontecesse por causa dessa desigualdade. Apesar disso, não é necessário esperar que todos sejam iguais para que alguns progressos ocorram. Não devemos sobretudo ficar esperando assistencialismo externo.

por Juremir Machado da Silva

http://www.correiodopovo.com.br/blogs/dialogos/2017/11/1510/wole-soyinka-sera-dificil-matar-a-literatura/

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Cabo Verde teve mais de 512 mil turistas até setembro de 2017

cidade da Praia1Cabo Verde recebeu, nos primeiros nove meses deste ano, mais de 512 mil turistas, totalizando 3,3 milhões de dormidas, o que se traduz num aumento de 11,0% no número de hóspedes relativamente ao mesmo período de 2016.

De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INECV), divulgados hoje, no período de janeiro a setembro de 2017, os estabelecimentos hoteleiros registaram 512.297 hóspedes e mais de 3,3 milhões de dormidas.

Estes movimentos traduzem acréscimos de 11,0% e 12,1%, respetivamente, em relação ao mesmo período do ano anterior, quando tinham sido registados 461.635 hóspedes e mais 2,9 milhões de dormidas.são vicente

No terceiro trimestre de 2017, o número de hóspedes no país aumentou 18,1%, face ao trimestre homólogo, enquanto no mesmo período, as dormidas cresceram 17,1%.

Em termos absolutos, durante este período, entraram no país mais de 163 mil hóspedes que originaram mais de 1,1 milhões de dormidas, um crescimento de 25.060 turistas e mais 163.528 dormidas, comparativamente com o trimestre homólogo.

O principal mercado emissor de turistas, neste trimestre, continua a ser o Reino Unido com 20,5% do total das entradas, a seguir vem Portugal (15,4%), Alemanha (9,5%), cabo-verdianos residentes (8,4%) e turistas provenientes da Holanda (8,3%).

Relativamente às dormidas, o Reino Unido também permanece no primeiro lugar com 31,8% do total, seguindo-se Portugal (12,9%), Alemanha (11,3%) e Países Baixos (9,2%).

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A maioria dos turistas provenientes do Reino Unido preferiu como destinos as ilhas do Sal e da Boavista, representando respetivamente 53,5% e 46,25% das dormidas e escolheram como local de acolhimento os hotéis 99,8%.

As dormidas dos residentes em Portugal distribuíram-se principalmente pelas ilhas do Sal (47,2%), da Boavista (41,0%) e Santiago (7,4%).IMG_4032

Os hotéis foram os tipos dos estabelecimentos mais procurados pelos mais de 25 mil portugueses que visitaram Cabo Verde durante este trimestre.

Ainda segundo os dados do INECV, os visitantes provenientes do Reino Unido foram os que tiveram maior permanência média em Cabo Verde (9,5 noites).

Durante o terceiro trimestre de 2017, em média, a taxa de ocupação-cama foi de 56%, contra os 55% registados no trimestre homólogo.

As ilhas da Boavista e do Sal tiveram as maiores taxas de ocupação – cama com 85% e 64%, respetivamente.

Os hotéis foram os estabelecimentos hoteleiros com maior taxa de ocupação – cama, 68%, seguindo-se os aldeamentos turísticos (31%) e as residenciais, com 19%.

https://www.rtp.pt/noticias/economia/cabo-verde-com-mais-11-de-turistas-nos-primeiros-nove-meses-do-ano_n1040425

Teatro brasileiro esteve presente em Cabo Verde

20663762_1425829237453480_6945747696100738249_nO Festival Internacional de Teatro do Mindelo, Mindelact é considerado importante evento de artes cénicas da África Ocidental. Ele acontece todos os anos na ilha de São Vicente, em Cabo Verde, e este ano contou com a maior delegação de artistas e companhias de teatro do Brasil. Ao todo, sete grupos brasileiros se apresentaram este ano no evento que terminou neste sábado (11).

Odair Santos, correspondente da RFI em Cabo Verde

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A 23ª edição do Festival Internacional de Teatro Mindelact contou com a participação do grupo de Teatro Caixa Preta, do Núcleo Vinicius Piedade e Companhia, do Desvio Coletivo, do Grupo Dragão 7, da Companhia Satyrus, da Palavra Z Produções Teatrais e da contadora de histórias, Clara Haddad, Alguns dos artistas brasileiros que participaram do evento partilharam as suas experiências com a RFI Brasil, na cidade do Mindelo. Para a diretora do grupo Desvio Coletivo, Priscilla Toscano, foi “muito importante” para ela e, principalmente, para o grupo, essa participação. “É a primeira vez do ‘Desvio Coletivo’ num país africano. A gente tem feito a peça ‘Cegos’ há quase seis anos e o objetivo é realizar o máximo de cidades possíveis. Recentemente, a gente esteve na Ásia e pra gente, no mesmo ano, poder vir e fazer a África é muito importante” explica Priscilla.midelact

O ator brasileiro Vinicius Piedade, do Núcleo Vinicius Piedade e Cia, apresentou no festival o drama ‘Cárcere’ que é uma reflexão sobre a liberdade. A peça conta a história de um personagem que é privado de sua liberdade e de seu piano. De acordo com Vinicius Piedade, o Brasil tem uma relação direta com a África e “para nós é extremamente relevante ter esse contato direto com os nossos irmãos africanos”.

O ator afirma que a relação entre Brasil e Cabo Verde “é muito natural” porque “qualquer brasileiro que vem pra cá vai se sentir em casa, o que certamente não vai acontecer no Senegal, que é mais perto de Cabo Verde no continente”.

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Brasileiroes conhecendo brasileiros em Cabo Verde

Por sua vez, o ator Júnior Lima, que faz parte do grupo Dragão 7 que promove no Brasil um festival de teatro onde se dá a troca de experiência entre artistas e companhias de teatro do Brasil e dos países africanos de língua portuguesa, destaca o fato do Mindelact impulsionar o intercâmbio teatral.mindleact

Junior Lima cita, como exemplo, o fato de poder conhecer o trabalho dos colegas que vem, como ele, de São Paulo: “Uma oportunidade única de encontrar e conhecer pessoas que mesmo lá na cidade de São Paulo a gente não tem acesso. Eu antes de vir pra cá não conhecia o trabalho do ‘Desvio Coletivo’ e do Vinicius Piedade e foi aqui, graças ao Mindelact que a gente pôde se cruzar e conhecer”.

Júnior Lima disse que cada relação que teve em Cabo Verde foi muito rica e que “o pessoal cabo-verdiano é de fato muito afetuoso, que para você na rua, que quer saber de onde você veio, o que faz na vida e a que se dedica para te conhecer “. O ator do grupo Dragão 7 afirma que “para além do intercâmbio artístico, (a experiência) foi de trocas humanas e muitos especiais”.

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União linguística

Já o ator Bruno Mariozz, da Palavra Z Produções Teatrais do Rio de Janeiro, o Festival Internacional de Teatro do Mindelo reforça a união linguística entre o Brasil e Cabo Verde. “Eu acho que o Mindelact reforça esse conceito e troca da nossa língua. Apesar de alguns sotaques e palavras diferentes, a gente se une através da língua”, ressalta Bruno Mariozz.

 

Mais de 30 companhias de teatro de 12 países realizaram 50 espetáculos, em 12 palcos diferentes, do Mindelact. Oito dessas apresentações foram encenadas por companhias de teatro brasileiras.

 

http://br.rfi.fr/brasil/20171111-brasil-tem-participacao-de-peso-em-principal-festival-de-teatro-da-africa-ocidental

A cultura da poupança em Angola ainda é fraca

bnaO Banco Nacional de Angola (BNA)  tem procurado a disseminar no seio das populações a cultura da poupança de dinheiro, no quadro das iniciativas institucionais voltadas para a inclusão financeira.

Inserir a população no sistema financeiro, facilitar o consumidor na abertura de contas bancárias por apenas cem kwanzas e auxiliá-lo a constituir uma conta de depósito a prazo por apenas mil kwanzas, promover a literacia financeira, incutir nas famílias o espírito de poupança de finanças e a forma da elaboração do orçamento familiar, são muitos dos objetivos.Banco_Nacional_de_Angola_in_Luanda_-_Angola_2015

A campanha de educação financeira,em Angola  será feita em línguas nacionais, para maior abrangência. Com o lema “Poupar e investir de forma segura” e promover a “conta banquita”, com vista à inclusão financeira para quem não tem a possibilidade de abrir conta num banco.

Tem-se verificado que a poupança interna não é suficientemente elástica para acolher as diferentes necessidades internas, incluindo do Estados. Os bancos são os primeiros interessados em fomentar essa cultura de poupança desde tenra idade.

O diretor do departamento de educação financeira do Banco Central, Avelino dos Santos, que anunciou o evento, considerou importante que a população, dada a crise econômica e financeira mundial, tenha um consumo mais moderado e adote a prática da poupança.
“Temos um indicador que nos sinaliza que a cultura da poupança em Angola ainda é fraca, falta apetência por parte das famílias em fazer poupança, há uma apetência muito grande para o gasto, as pessoas não pensam no dia de amanhã”, sublinhou. O responsável aconselhou, por isso, às famílias a preservarem alguma poupança para um imprevisto no futuro.
“O BNA está preocupado porque há necessidade de se encontrar um denominador comum para que as famílias possam começar a cuidar mais dos seus rendimentos, olhar para o dinheiro não apenas como uma variável para se gastar todo, mas também para poder tirar algum rendimento e pensar no futuro”, disse.

Quando os países não têm capacidade interna  para fazer face  às suas necessidades têm de recorrer às poupanças externas, nós não temos outra saída senão recorrermos à poupança  externa  para cobrir o gap de financiamento e fazer face às necessidades do Estado, disse o Archer Mangueira, Ministro das Finanças

A literatura de Chinua Achebe

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Chinua Achebe colocou a Nigéria na geografia literária ao contar num tom sério, a partir de dentro e sem direito a desfile etnográfico, a identidade africana em subtil mudança.

Achebe retoma as regras canónicas do romance e acrescenta-lhe a estética da tradição oral africana

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Achebe retoma as regras canónicas do romance e acrescenta-lhe a estética da tradição oral africana MANUEL ROBERTO

Ler os romances do escritor nigeriano Chinua Achebe (1930-2013) é viajar para a realidade africana das histórias contadas oralmente na sombra da grande árvore do centro da aldeia. Ele é como o velho sábio que assim vai passando a tradição aos que o ouvem, levando-os pelas palavras ditas ao mundo dos mitos africanos, inscrevendo nos ouvintes (ou mostrando, no caso dos leitores) uma identidade cultural apenas entendida na sua essência se vista e descrita a partir de dentro. Contar uma história tem na sua natureza um elemento de magia, de poder viajar a uma outra realidade. Esse efeito mágico cumpre, sobretudo nas comunidades e nas sociedades mais tradicionais, a função de organizar um suposto passado (tantas vezes mítico e também arquetípico) de maneira a estruturar o presente. É fazendo uso desse “poder de feiticeiro que narra” que Chinua Achebe — considerado pelos críticos anglo-saxónicos o fundador da literatura africana — começa a recriar de maneira singular universos até então ausentes dos romances sobre África.

Em 1958 publicou aquele que é considerado o livro seminal da literatura africana pós-colonial, Quando Tudo Se Desmorona (Mercado de Letras, 2008). Ele escreve a partir de dentro, levando o leitor para uma nova realidade cultural e histórica, em oposição aos romances em que o olhar está do lado de fora, em que esse olhar é “estrangeiro”. Por várias vezes (e escreveu mesmo um ensaio para o demonstrar) apelidou de racista o famoso livro de Joseph Conrad, Heart of Darknesse (O Coração das Trevas), exactamente por causa dessa maneira de olhar etnocêntrica, ignorante da cultura africana, arrogante e exterior ao continente.Chinua-Achebe-speakn-abt-thingsfallapart1.jpg

Achebe retoma as regras canónicas da forma do romance, as convenções clássicas do género, e acrescenta-lhe a estética da tradição oral africana. Não subverte a linguagem nem cai no facilitismo de lhe inventar efeitos “folclóricos” (escreve num inglês perfeito; conta histórias na língua dos colonos para que os seus livros possam ser lidos em todo o continente, é assim que se justifica quando é disso acusado). Nascido num país, a Nigéria, com 200 etnias e 500 línguas faladas, Chinua Achebe consegue unificar numa língua escrita (extraindo do todo o essencial) essas múltiplas tradições da oralidade, retratando uma identidade em constante e subtil mudança.

O olhar desapiedado

Deste autor nigeriano foram publicados em Portugal três dos cinco romances que escreveu: A Flecha de Deus (Edições 70, 1978), Um Homem Popular (Caminho, 1987) e aquele que é considerado a sua obra-prima, Quando Tudo Se Desmorona (Mercado de Letras, 2008). Chinua Achebe foi uma voz incómoda para alguns intelectuais africanos que a qualquer pretexto desfraldam a bandeira da “vitimização” do continente, demitindo-se assim de responsabilidades; e foi-o também para um certo Ocidente trendy que não se consegue ver livre de um exacerbado complexo de culpa histórica, e que com essa disfarçada atitude paternalista mais não faz do que legitimar a hipocrisia e a desgraça.

Em Um Homem Popular é feita uma crítica feroz, por vezes irónica, aos políticos africanos corruptos. E Achebe sabe daquilo que conta. O livro foi publicado originalmente em 1966 e a história acaba com um golpe de Estado, final profético, pois uns meses depois o Governo nigeriano foi derrubado. A trama literária é-nos narrada por um jovem professor de aldeia que um dia se encontra com um seu antigo mestre-escola, entretanto tornado ministro. Um Homem Popular traz-nos o olhar desapiedado de Achebe, não apenas sobre a classe política, mas também sobre os povos africanos: “O próprio povo, como já vimos, tinha-se tornado ainda mais cínico do que os seus líderes, e estava apático frente às negociatas.” Achebe tenta entender (sem desculpabilizar) esse mesmo povo que acaba por ser vítima também de si próprio, ao não conseguir manter o equilíbrio entre o lado material e espiritual da vida, ao aceitar passivamente a hipocrisia de uma duplicidade de valores.

Quando Tudo Se Desmorona tem por epígrafe quatro versos de W. B. Yeats retirados do poema The Second Coming, que se refere ao dia do Juízo Final, ao acordar da Besta, à desintegração da ordem do mundo, a um tempo de desmoronamento. O livro conta-nos a história de Okonkwo, um jovem de uma tribo Igbo, que está determinado a não ser um falhado como o pai, e que pretende seguir a tradição e ascender socialmente na tribo. E as coisas não lhe correm mal. Consegue atingir a prosperidade e o topo da hierarquia. Mas chega o dia em que desrespeita a tradição e as coisas começam a mudar. É o princípio do fim, o início de uma série de catástrofes. Tudo coincide com a chegada do “homem branco”.

A linguagem de Chinua Achebe, elegante e luminosa, é muito telúrica, característica que empresta às narrativas uma vertente poética que prende o leitor mesmo nos momentos em que nada acontece, como neste exemplo retirado da sua obra-prima: “Recordou-se da história que ela habitualmente contava sobre a antiga desavença entre a Terra e o Céu, e de como o Céu retivera a chuva durante sete anos, até as sementeiras definharem e os mortos não poderem ser enterrados porque as enxadas se quebravam ao tentar abrir sulcos na Terra empedernida. Por fim, o Abutre foi enviado até junto do Céu para tentar amolecer o seu coração com uma canção sobre o sofrimento dos filhos do homem.”

 

https://www.publico.pt/2017/08/15/culturaipsilon/noticia/saber-contar-a-sombra-da-grande-arvore-africana-1782306

Ministra angolana divulga bastidores do dossier Mbanza Kongo: Patrimônio Mundial da Humanidade

Victor Mayala | Mbanza Kongo

26 de Julho, 2017

A ministra da Cultura, Carolina Cerqueira, apresentou, oficialmente ontem, em Mbanza Kongo, província do Zaire, o feito de inscrição da cidade na lista do Património Mundial da Humanidade, alcançado a oito deste mês em Cracóvia, Polónia, durante a 41.ª sessão do Comité do Património Mundial da Unesco.

Ministro Bornito de Sousa (ao centro) recebeu das mãos de Carolina Cerqueira e Joanes André a mensagem de reconhecimento ao Chefe de Estado
Fotografia: Garcia Mayatoko | Mbanza Kongo | Edições Novembro

Na cerimónia testemunhada pelo embaixador de Angola junto da Unesco, Sita José, ministros da Administração do Território e dos Transportes e de três antigos ministros da Cultura, Carolina Cerqueira disse que o acontecimento enche de orgulho todos os angolanos de Cabinda ao Cunene e na diáspora que manifestaram a alegria e a auto-estima da nação angolana.
“Viemos aqui apresentar, oficialmente, esta conquista e celebrar com as populações locais que jogaram um papel preponderante no decorrer deste processo, que culminou com o reconhecimento internacional do valor histórico e cultural deste sítio, que é uma referência não só para Angola como para a região da África Austral”, disse.
Para a ministra da Cultura, esta região do continente albergou um dos reinos mais organizados política, económica e socialmente daquela época e que hoje tem o mérito de, séculos depois, mostrar um testemunho único excepcional de uma tradição e de uma civilização viva.
A governante lembrou que a classificação de Mbanza Kongo como Património Mundial da Humanidade resultou do trabalho aturado e de grande qualidade técnica e de investigação multidisciplinar excelentes iniciada há três décadas e que foi acompanhado com um intenso trabalho de diplomacia cultural junto da União Africana, CPLP, países da África Central e do Comité do Património Mundial da Unesco, de que Angola faz parte desde 2015.
“Foi determinante a entrega, dedicação, empenho, resiliência e alto sentido de patriotismo dos quadros angolanos, em particular do Ministério da Cultura, do Governo da provínica do Zaire, de universidades, das autoridades tradicionais, religiosas, militares e da sociedade  em geral”, sublinhou Carolina Cerqueira.
Segundo a ministra, compete agora à Comissão de Gestão do Sítio, instituída pelo Presidente da República, José Eduardo dos Santos, dar seguimento às orientações e recomendações emanadas pelo Comité do Património Mundial. Entre outros desafios, avançou a ministra, deve ser levado a cabo um conjunto de tarefas, entre as quais se destaca a realização do Festicongo, uma actividade conjunta entre a República Democrática do Congo (RDC), Congo Brazzaville e Gabão, para a transmissão das práticas tradicionais do lumbo às novas gerações como fonte de inspiração das boas práticas, costumes e desenvolvimento das indústrias culturais, como fomento do turismo e da economia local, através da geração de postos de trabalho e promoção do desenvolvimento sustentado.
“Com estas premissas, estamos convictos de que Mbanza Kongo pode ser um grande centro de atracção turística e de investigação, num futuro próximo”, afirmou a ministra da Cultura que destacou o papel dos precursores do projecto “Mbanza Kongo – cidade a desenterrar para preservar”, os ex-ministros da Cultura, Ana Maria de Oliveira, Boaventura Cardoso e Rosa Cruz e Silva, incluindo o mentor do projecto, o malogrado professor Emanuel Esteves.
Após o acto, a ministra da Cultura concedeu uma conferência de imprensa, onde, de forma pormenorizada, esclareceu os aspectos inerentes ao desenrolar de todo o processo que culminou com a inscrição de Mbanza Kongo na lista de Património Mundial da Humanidade.
A governante afirmou também, no acto ocorrido à margem das celebrações da 16.ª edição das Festas da Cidade de Mbanza Kongo, que Angola apresentou à Unesco mais três propostas de sítios a serem inscritos, como são os casos das pinturas rupestres de Tchitundu Hulo, no Namibe, o Corredor do Kwanza e a cidade do Cuito Cuanavale.

População precisa de ser educada a preservar a cidade

O embaixador de Angola junto da Unesco, Sita José, afirmou ontem em Mbanza Kongo que agora é preciso continuar a educar a população para a necessidade da conservação do património, além de recomendar maior rigor na gestão e divulgação dos símbolos aprovados dentro do perímetro de protecção.
O governador provincial do Zaire, Joanes André, entregou ao ministro da Administração do Território, Bornito de Sousa, uma mensagem para o Presidente da República, cujo teor refere-se à sua dedicação e sapiência evidenciadas e que permitiram que o projecto tivesse êxito.
O projecto para a inscrição de Mbanza Congo na lista do Património Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) foi lançado em 2007, nesta cidade, com a realização da II Mesa Redonda Internacional denominada “Mbanza Congo, cidade a desenterrar para preservar”.
Desde a fundação do Reino do Kongo no século XIII, a cidade de Mbanza Kongo foi a capital, o centro político, económico, social e cultural, sede do rei e a sua corte e centro das decisões.
Mbanza Kongo foi, no século XVII, a maior vila da Costa Ocidental da África Central, com uma densidade populacional de 40 mil habitantes (nativos) e quatro mil europeus.
Com o seu declínio, a cidade de Mbanza Kongo que se encontrava no centro do reino em plena “idade de ouro” transformou-se numa vila mística e espiritual do grupo etnolinguístico kikongo e albergou as repúblicas de Angola, Democrática do Congo, Congo Brazzaville e Gabão.

http://jornaldeangola.sapo.ao/cultura/patrimonio/ministra_da_cultura_divulga_bastidores_do_dossier_no_zaire

Cais no Rio que recebeu 900 mil escravos é tombado pela Unesco

Valongo, no centro do Rio de Janeiro, recebeu no século XIX cerca de 900 mil escravos

mediaO cais do Valongo, no centro do Rio de Janeiro, recebeu no século 19 cerca de 900 mil escravos vindos do continente africano.Tomaz Silva/ Agência Brasil

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) incluiu neste domingo (9) o sítio arqueológico do cais de Valongo, no Rio de Janeiro, em sua lista de monumentos tombados pelo Patrimônio Histórico Mundial. O cais, no centro do Rio de Janeiro, recebeu no século 19 cerca de 900 mil escravos vindos do continente africano.

O comitê do Patrimônio Mundial da Unesco, reunido em Cracóvia, evocou na ocasião a memória do afluxo de cerca de 900 mil escravos africanos que desembarcaram no cais de pedra de Valongo, construído em 1811, no centro da capital carioca.

Para a historiadora Katia Bogea, presidente do Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Valongo merece figurar entre “outros lugares relevantes de memória, como Hiroshima ou Auschwitz.” “A proteção do patrimônio”, acrescentou Bogea perante a Comissão, “nos obriga a lembrar estas partes da história da humanidade que são proibidos de cair no esquecimento.”

Valongo é a evidência física e a pista histórica mais importantes associadas à chegada de escravos africanos nas Américas. As pedras em que quase um milhão de escravos provenientes da África deram seus primeiros passos no Brasil haviam sido deixadas sob os escombros da metrópole que se desenvolveu.

O cais desapareceu gradualmente no subterrâneo, sob várias camadas de revestimentos, de acordo com as renovações do bairro carioca.

Protegido por uma simples barreira e sem presença policial, o sítio arqueológico continua sendo particularmente vulnerável. Ele foi localizado sob uma espessa camada de cimento em 2011, quando se faziam escavações para reabilitar nas obras da zona portuária, um dos projetos emblemáticos ligados aos Jogos Olímpicos de 2016.

Contrapartida histórica

Esta estação é a contrapartida brasileira da Ilha de Gorée, no Senegal: classificada como Patrimônio Histórico Mundial em 1978, a ilha senegalesa é reconhecida como o ponto de partida simbólico dos escravos africanos em direção ao continente americano.

Os escravos não permaneceram durante muito tempo no Rio. Uma vez vendidos, eles foram rapidamente transportados para as usinas de açúcar do Nordeste, as minas de ouro de Minas Gerais e as plantações de café na região de São Paulo.

Os números exatos são difíceis de determinar com precisão, mas a maioria dos historiadores concorda que o Brasil recebeu em seu litoral mais de quatro milhões de escravos vindos da África, cerca de 40% das vítimas do tráfico que partiu em direção às Américas, um legado que se tornou um fardo para o Brasil, país que foi um dos últimos a abolir a escravidão, em 1888.

http://br.rfi.fr/brasil/20170709-cais-no-rio-que-recebeu-900-mil-escravos-e-tombado-pela-unesco

Centro Histórico da Cidade de Mbanza Kongo agora é Patrimônio Mundial

kongo.jpgCom a elevação do Centro Histórico da Cidade de Mbanza Kongo ao estatuto de Património Mundial, facto ocorrido sábado por via da votação unânime dos membros do Comité do Património Mundial, abriu-se historicamente um importante precedente para Angola.

Foi o culminar de um longo processo que passou a ser denominado “Dossier Mbanza Kongo-Cidade a Desenterrar para Preservar” e que muito orgulha toda a equipa por detrás do árduo trabalho que convenceu a UNESCO.
Partindo do princípio de que “nem só do pão vive o homem”, todos os angolanos têm motivo para regozijo por essa conquista cultural, obviamente com o potencial para dinamizar outras áreas, nomeadamente a académica, a turística e a recreativa.
Afinal, além desta memorável saga, que começou há cerca de dez anos e há dois com a submissão oficial da candidatura, por parte das autoridades angolanas para que Mbanza Kongo fosse elevada a Património da Humanidade, seguem-se outras iniciativas que precisam de ser promovidas. O país ganha assim motivação para que, para os mesmos efeitos, as candidaturas do Corredor do Cuanza e das cavernas em que se encontram as famosas pinturas rupestres do Tchitundo Hulu, no Namibe, ganhem vida e sejam símbolos patrimoniais de toda a humanidade.
A UNESCO adoptou em 1972 a Convenção do Património Mundial, Cultural e Natural, que tem por objectivo proteger os bens patrimoniais dotados de um valor universal excepcional. E nesta senda, numerosos países membros daquela instituição da ONU vocacionada à educação, ciência e cultura realizaram inscrições e submeteram à apreciação da mesma propostas para elevação de sítios históricos, edificações com grande valor patrimonial.
Angola não pode ser excepção, forçada quase que natural e culturalmente pela vasta riqueza patrimonial de Cabinda ao Cunene, faz todo o sentido que, dentro dos parâmetros da UNESCO, constituam Património

da Humanidade.
Insistimos que temos no país, sem sombra de dúvidas, numerosos locais cujo valor cultural têm todas as condições para preencher os requisitos para Património da Humanidade.
Temos de trabalhar muito para que, nos próximos tempos, possamos ser bem sucedidos na aplicação de mais candidaturas de locais naturais ou sítios, que pela sua relevância histórica e cultural mereçam ser elevados a Património da Humanidade.
As vantagens que decorrem disso tudo não podem ser minimizados, na medida em que isso pode colocar Angola e os seus locais de interesse cultural, particularizando-se aqui a consagração de Mbanza Kongo, na rota do turismo interno e externo. Vale a pena ponderar e preparar-se pelo que vem a seguir, nomeadamente os desafios para correspondermos aos feitos desta importante empreitada sob o signo do Dossier Mbanza Kongo-Cidade a Desenterrar para Preservar.
E é internamente onde as maiores preocupações culturais devem começar ou passar a ser amplamente exploradas para que, além de conhecermos exactamente a dimensão e qualidade do nosso património, saibamos preservá-lo como mandam as regras.
É salutar saber que o ensino incorpora já grande parte da riqueza histórica e  cultural dos bens que o país agendou para esta campanha de candidaturas para Património da Humanidade, agora com  Mbanza Kongo, e como esperamos depois com o Corredor do Cuanza e com as Cavernas do Tchitundo Hulu, no Namibe.
Atendendo a essa espécie de “exposição museológica” a que vai estar submetido o Centro Histórico da Cidade de Mbanza Kongo, precisamos de estar preparados, fazer bem os trabalhos de casa.  Está de parabéns a cidade histórica de Mbanza Kongo.

http://jornaldeangola.sapo.ao/opiniao/editorial/parabens_mbanza_kongo

Prof. Henrique Cunha: “Urbanismo Africano: da antiguidade aos dias atuais”

“Rostos de Loanda”: o teatro angolano que emocionou os brasileiros em São Paulo

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Ontem a noite, no bairro tradicional da cidade de São Paulo , ao lado do Museu do Ipiranga, um dos lugares mais marcantes da história do Brasil, tive o privilégio de assistir a peça “Rostos de Loanda”, no teatro do Sesc Ipiranga.  Na platéia de quinta feira,  destacava-se a presença de angolanos que acompanhavam a peça cantando e rindo muito dos episódios que se sucediam, no belíssimo espetáculo.

Para pessoas como eu que não visitam Luanda há muito tempo, foi maravilhoso poder ouvir o sotaque luandino, os problemas do dia a dia de quem vem a cidade em mudança frenética, com a explosão imobiliária.

Impressiona saber da violência policial numa cidade que cresceu junto com as desigualdades sociais e  o aumento da pobreza, tipica  situação de uma grande metrópole. O humor da peça é muito bem realizado, com um ritmo agradável que te agrada dos atores.

Excelentes atores como Wime Braúlio, Luís da Costa, Elizabeth Rodrigues, Rodrigo Fernandes, Eliseu Diogo, José Teixeira, Serafina Muhongo, Rosa Sousa, Mariana António, Sizainga Francisco e Sidónio Domingos. Uma representação que merece ser vista e revista muitas vezes

A peça infelizmente ficou em uma curtíssima duração, uma pena.

A peça narra a história de rostos que marcaram a cidade de Loanda – hoje conhecida como Luanda. Figuras que norteiam a cultura e o imaginário angolano em Rostos de Loanda, do Grupo Colectivo Miragens de TeatroDSC_2014-1.jpg

Retrata a vida de João Muleta, um deficiente que, após se embriagar, vê figuras importantes que marcaram a história da cidade. Em suas visões, aparecem Salvador Correia de Sá e Benevides, Dom Miguel de Melo e o fundador da cidade, Paulo Dias de Novais, além do Grupo Ngola Ritmos, os músicos Urbano de Castro, Minguito, Luís Visconde, entre outros. Um misto de história e realidade que marcaram a sociedade angolana e que são retratadas por estas figuras.rostosdeloanda

A peça foi inserida no  Festival Yesu Luso – Teatro em Língua Portuguesa,  do idioma que  é o quarto mais falado no mundo. Mas, às vezes, parece caminhar isolado, solitário. “O que nos choca é o gigantesco afastamento entre as pátrias falantes dessa mesma língua. Um silêncio, um abismo, uma distância, no que se refere às relações sociais entre a maioria dos países lusófonos”, comenta Arieta, curadora do .rostos-de-loanda.jpg

A peça angolana emocionou a plateia brasileira e deixará saudades.

 

O Observatório

Este observatório é uma iniciativa do Grupo de Estudos Africanos vinculado ao Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (GEA/IREL-UnB), que busca refletir sobre a vida política, social e econômica da África contemporânea, com destaque para sua inserção internacional. Preocupando-se com o continente marcado pela diversidade, o Grupo de Estudos Africanos, por meio do Observatório, propõe um olhar crítico e compreensivo sobre temas africanos, em suas mais diversas dimensões.