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Chifre da África

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Crise entre o Djibuti e a Eritreia por disputa territorial na fronteira

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Eleazar Van-Dúnem |

 

O agravar da tensão entre o Djibuti e a Eritreia com o ressurgimento de uma disputa territorial na fronteira comum dos dois países na sequência da retirada de soldados do Qatar, analisado ontem em debate no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), é a mais recente consequência da crise diplomática que assola a região do Golfo Pérsico.

União Africana decidiu enviar uma missão à fronteira entre o Djibuti e a Eritreia após “estreitas consultas” com as autoridades dos dois países
Fotografia: Mota Ambrósio | Edições Novembro

O ministro dos Negócios Estrangeiros do Djibuti, Mahmoud Al Youssouf, acusou sexta-feira Asmara de “colocar as suas forças” na região de Doumeira, junto ao mar Vermelho, disputada pelos dois países. “O Djibuti é um país pacífico e damos prioridade às soluções pacíficas. Mas se a Eritreia insistir na procura de soluções militares, o Djibuti está pronto”, disse Al Youssouf em conferência de imprensa.
A Eritreia não reagiu publicamente às declarações do governante do Djibuti. Num comunicado divulgado sábado, o presidente da comissão da União Africana, Moussa Faki Mahamat, apelou à calma e contenção do Djibuti e da Eritreia, depois de o primeiro acusar o segundo de aproveitar a saída das forças do Qatar para ocupar parte do território reivindicado pelos dois Estados na fronteira e apresentar uma queixa formal à Comissão da organização continental.
“A Comissão da União Africana, após estreitas consultas com as autoridades do Djibuti e da Eritreia, decidiu enviar uma missão à fronteira entre os dois países para verificar os factos”, é referido no documento, que acrescenta que “o presidente da Comissão está ao dispor do Djibuti e da Eritreia para ajudar a normalizar as relações bilaterais e a promover a boa vizinhança”.  Também no sábado, o porta-voz da ONU, Stephane Dujarric, confirmou que a organização recebeu documentos do Djibuti e da Eritreia e garantiu que a Organização das Nações Unidas está a analisar a questão, que considerou “um exemplo das repercussões” da disputa entre o Qatar e a Arábia Saudita.
O Conselho de Segurança das Nações Unidas debateu ontem a situação à porta fechada.
A retirada dos militares, anunciada na semana passada pelo Qatar, ocorre na sequência da crise entre o pequeno emirado do Golfo e a Arábia Saudita e aliados, que acusam Doha de apoiar o terrorismo islâmico.  O Qatar, que rejeita estas acusações, não especificou o número de soldados que integram a sua força de observação implantada na fronteira entre a Eritreia e o Djibuti em 2010.
Apesar de o Djibuti e a Eritreia terem boas relações com a Arábia Saudita e os seus aliados dos Emiratos Árabes Unidos e ficarem ao lado de Riade no conflito com o Qatar, mantêm relações muito distintas com as potências estrangeiras.  O Djibuti alberga bases militares francesas e norte-americanas e a China também está a construir a sua base no pequeno território africano. Actualmente, a Eritreia é considerada um Estado desgovernado. Por outro lado, o porto do Djibuti escoa importações e exportações da Etiópia, inimigo regional da Eritreia.
As relações entre os dois países da região do Corno de África agravaram-se em 2008, com confrontos entre as forças armadas dos dois países na Doumeira, território não demarcado no Mar Vermelho.
Em 2010, os dois Estados assinaram um acordo sob os auspícios do Qatar com vista a negociações para resolver a disputa territorial. O Qatar enviou soldados para a área em questão, na sequência de um acordo final entre Djibuti e Asmara.
Depois da Arábia Saudita, os  Emiratos Árabes Unidos, o Bahrein, o Egipto, o Iémen e parte da Líbia romperem relações diplomáticas com o Qatar, por considerarem este último “apoiante de grupos terroristas”.
O Senegal foi o primeiro país da África Subsaariana a fazê-lo, antes de o Chade e a Mauritânia, e por último o Níger. A Somália adoptou uma posição neutra.
As posições destes países africanos, que escolheram apoiar um dos lados ou abster-se do conflito na perspectiva de maximizarem os seus benefícios e eventuais perdas, têm o potencial de dividir o já pouco unido continente africano.
Para evitar males maiores no continente, Alpha Condé, o presidente da Guiné Conacri e em exercício da União Africana, já manifestou publicamente disponibilidade para mediar e procurar, nesta qualidade, “uma solução rápida e pacífica” para a crise diplomática entre o Qatar e os países vizinhos.

http://jornaldeangola.sapo.ao/mundo/tensao_entre_djibuti_e_eritreia_com_a_saida_de_soldados_do_qatar

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Secretário Geral da ONU vê África um continente de esperança promessa e vasto potencial

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O Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, disse ontem que África é “um continente de esperança, promessa e vasto potencial”, preferindo esta abordagem em vez de olhar para a região“pelo prisma dos problemas”.

Num artigo de opinião, António Guterres refere que “muitas vezes, o mundo vê a África pelo prisma dos problemas; quando olho para a África, vejo um continente de esperança, promessa e vasto potencial”.

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No texto, que surge na sequência da sua participação na cimeira de Chefes de Estado e de Governo da União Africana, que decorreu a 30 e 31 de Janeiro em Addis Abeba, António Guterres garante estar “empenhado em reforçar esses pontos fortes e estabelecer uma plataforma mais elevada de cooperação entre as Nações Unidas, os líderes e o povo da África” e diz que isso é “essencial para promover o desenvolvimento inclusivo e sustentável e aprofundar a cooperação para a paz e a segurança”.
O antigo primeiro-ministro português afirma no texto ter trazido da capital etíope um “espírito de profunda solidariedade e respeito”, mas também “um profundo sentimento de gratidão” pelo contributo africano para as forças de paz da ONU.
África “fornece a maioria das forças de paz das Nações Unidas no mundo; as nações africanas estão entre os maiores e mais generosos anfitriões de refugiados mundiais; em África estão algumas das economias com mais rápido crescimento do mundo”, salienta o antigo Alto-Comissário das Nações Unidas para os Refugiados.
“Deixei a cimeira mais convencido do que nunca de que toda a humanidade vai beneficiar-se ouvindo, aprendendo e trabalhando com o povo de África”, afirma Guterres, que sublinha que a prevenção é essencial para resolver os conflitos.
“Muitos dos conflitos de hoje são internos, desencadeados pela competição pelo poder e recursos, desigualdade, marginalização e divisões sectárias; muitas vezes, eles são inflamados pelo extremismo violento ou por ele alimentados”, lê-se no documento.
A prevenção, prossegue, “vai muito além de nos concentrarmos unicamente no conflito. O melhor meio de prevenção, e o caminho mais seguro para uma paz duradoura, é o desenvolvimento inclusivo e sustentável”, defende.
O Secretário-geral da ONU diz não ter dúvidas “de que podemos vencer a batalha pelo desenvolvimento sustentável e inclusivo, que são também as melhores armas para prevenir conflitos e sofrimentos, permitindo que aÁfrica brilhe ainda mais de forma vibrante e inspire o mundo”. António Guterres deixou a 28.ª Cimeira da União Africana com um forte apelo para a mudança na forma como o continente berço da humanidade é caracterizado pela comunidade internacional, e com a promessa de apoiá-lo na construção do desenvolvimento e da paz sustentáveis.
Na cimeira de Addis Abeba, lamentou a forma como África é descrita na Europa, Américas e Ásia, denunciou o que chamou de “uma visão parcial de África” e disse ser preciso mudar a narrativa sobre o continente na comunidade internacional e que este deve ser reconhecido “pelo seu enorme potencial”.
O líder da ONU elogiou a União Africana pelo “trabalho muito importante em nome do continente”, manifestou “disposição total da ONU em apoiar plenamente as suas actividades” e destacou “o entendimento integral entre a ONU, a União Africana e a Autoridade Intergovernamental para o Desenvolvimento sobre a necessidade de se trabalhar “numa só voz” para pacificar o Sudão do Sul.”
O novo paradigma no relacionamento entre a ONU e os africanos implementado por António Guterres levou o Alpha Condé, o Presidente da Guiné-Conacri e líder em exercício da União Africana, a convidá-lo a participar anualmente num pequeno almoço com Chefes de Estado e de Governo africanos em Janeiro.

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Para o Secretário Geral da ONU, estas ocasiões servem para interagir com líderes africanos e discutir “de forma muito significativa” as relações entre a União Africana e a Organização das Nações Unidas.

 

fonte:http://jornaldeangola.sapo.ao/mundo/antonio_guterres_ve_africa_como_esperanca

Brasil – África: os descompassos da canção ultrapassada

A política externa brasileira para África parece ter encontrado um caminho interessante e mais sofisticado com a dupla Lula da Silva e Celso Amorim na década passada. Diplomacia presidencial, novas (e excessivas) embaixadas, inserções empresariais, novos convênios, novo fôlego para a CPLP; enfim, Brasília foi (re)encontrando a África e encontrando um espaço para o continente nas linhas gerais da sua política externa. Tanto pela nova embocadura quanto pelo conteúdo injetado nessas relações, nossas relações com o continente africano foram deslocadas para um patamar inédito da nossa política externa: tanto pela sofisticação conceitual quanto pela dimensão dada ao continente, o governo Lula inaugurou um marco fundamental neste aspecto.

Fundamental, mas longe de ser suficiente. Os oito anos de nova política não tinham condições de estabilizar de fato uma via definitiva entre os dois lados do Atlântico. Como toda política externa de Lula, este arranjo político-conceitual era altamente funcional para reinserir o Brasil no sistema/sociedade internacional sob outros parâmetros. De uma forma geral, a vontade de ser líder amparado pelas insatisfações do Sul foi impulsionada tanto por um vazio de liderança quanto pelo otimismo pujante e carismático encarnado no Brasil de Lula. No entanto, não era uma política preparada para arcar com o ônus inerente à liderança e enfrentar os questionamentos decorrentes do desgaste, das exigências mais do que naturais em torno de um líder.

Tanto quanto uma confirmação da pujança econômica brasileira, seria necessária uma alteração de rumos da política externa para o Sul, ainda que gradual. Confirmar com resultados o otimismo criado por Lula e reconhecer os novos desafios resultantes da tão perseguida posição, portanto, seriam passos fundamentais para alcançarmos de fato essa nova política. Mas não foi este o caminho da História. 2011 nos trouxe o governo Rousseff e os desencontros econômicos e políticos, mal organizados dentro da narrativa da “continuidade sem continuísmos”. A situação econômica começou a sofrer a erosão pelas contradições da política econômica e as desconfianças sobre a saúde da nossa economia passam a solapar o otimismo internacional superdimensionado durante o governo Lula.

Por seu turno, é sobre as contradições da política externa para a África que nos debruçamos com maior preocupação. Se, no plano mais geral, a política externa brasileira do atual governo segue carecendo de uma orientação clara, ainda bastante calcada pela casuística; as relações Brasil-África vão se complicando sob as expressões internacionais das nossas contradições domésticas. A diplomacia ex-presidencial de Lula e as relações dúbias entre Estado e construtoras tomam formas delicadas na construção das relações com a África.

O mesmo país que declarou como exploratórias as relações da ex-metrópoles com o continente africano agora usa as vias diplomáticas para exportar seu empresariado. Construtoras vão ao continente num misto de cooperação com internacionalização de negócios e, evidentemente, geram novas realidades locais. Como explicar, por exemplo, qual a diferença entre mineradoras privadas belga e brasileira? Ao longo dos anos, a narrativa da exploração dos pobres pelos ricos começam a se adequar também às ações brasileiras, fomentando desconfianças e reações (pontuais, mas existentes) contra esta nova presença. No entanto, Brasília segue acelerando em direção contrária: seja pela inércia internacional de Rousseff seja pelas não explicadas relações de Lula com o alto empresariado nacional, continua-se a investir um elevado montante político e simbólico num complexo de relações cuja fadiga vai se tornando evidente.

Mais nociva no longo prazo, no entanto, pode ser o comportamento brasileiro com relação às atuais elites governantes do continente africano. Se, há quase dez anos, já eram contraditórias as louvações de Lula à longevidade de governos autoritários, como o de Omar Bongo e Muammar al-Gadaffi; o que devemos falar das relações estabelecidas com as democracias (fragilíssima) de José Eduardo dos Santos em Angola e (decadente) da FRELIMO em Moçambique? Curiosamente, durante o governo da presidente que chegou ao poder falando de aprofundar a democracia e a defesa dos direitos humanos, exportou-se João Santana, que comanda todas as medidas eleitorais de Rousseff, para Angola para comandar a “campanha” de José Eduardo (no poder desde 1978) à reeleição. No mesmo período, Franklin Martins, ex-ministro de Lula e de Dilma, foi a Maputo para capitanear os movimentos eleitorais da FRELIMO (no poder desde a independência). Nessa mesma relação dúbia, Lula conseguiu apoio de parte da “bancada evangélica” no Congresso Nacional garantindo a algumas denominações religiosas um trânsito facilitado com lideranças africanas.

Talvez, ainda que claudicante, estas contradições políticas ainda se sustentem por mais alguns anos. Desconsiderando a dimensão da sustentação da política externa, da criação de laços duradouros com o continente; o atual arranjo gera externalidades que propiciam sua continuidade. No entanto, cabe a pergunta: e quando a situação na África mudar? O governo do MPLA pode acabar um dia, mas Angola esquecerá o suporte que dado ao e os acordos obscuros que feitos com o atual governo? As populações locais esquecerão os erros das empresas brasileiras, muito parecidos com as européias? De alguma forma, não está a política externa brasileira esquecendo a historicidade dos países africanos?

Paradoxalmente, a expressão máxima da aproximação com a África pode estar lançando as sementes do distanciamento futuro. O descompasso entre discurso e prática e os silêncios mal planejados podem estar gestando o ovo da serpente nas tramas das relações Brasil-África. No extremo, parece-nos mais do que necessário lembrar a sabedoria sem data de Cartola: “presta atenção, querida / de cada amor tu herdarás apenas o cinismo / quando notares estás à beira do abismo / abismo que cavaste com os teus pés”.

Projetos e horizontes: o lugar regional do Quênia

Cercado por países que carregam as máculas de terem servido como palco para gravíssimas crises no continente o africano – exceção maior feita à Tanzânia –, o Quênia grassa em seu contexto regional (que compreende, aproximadamente, do Lago Vitória à Etiópia e da República Democrática do Congo à Somália) como uma ilha de estabilidade. Com instituições atipicamente sólidas para o contexto local, a história do Estado queniano não conta com maiores sobressaltos, tampouco a política, apesar da recente crise na transição de governos, vislumbra grandes fragilidades em um futuro próximo. Além disso, conta o Estado queniano com uma economia repleta de espaços em crescente aproveitamento e com um grau de dinamismo capaz de superar os vazamentos da máquina pública.

No entanto, esta apresentação quase que obrigatória em assuntos relacionados a Nairóbi não detecta um ponto fundamental na construção do lugar regional queniano: seu projeto nacional. Encabeçado em sua fundação pelo líder maior do Quênia, Jomo Kenyatta, trata-se de um projeto nacional que não pretende impor balizas nem temporais nem políticas na definição do que é a nação. Ao contrário de muitos países africanos, não optou o Quênia por adotar o momento da independência como o grande marco divisor da nacionalidade; mas sim abarcou todas as raízes sociais da região. Em outras palavras, são quenianas tanto uma máscara usada em um ritual de circuncisão ao sul do Kilimanjaro antes da chegada britânica quanto uma tigela de plástico fabricada na China e usada em algum subúrbio de Nairóbi. Trata-se de um projeto que tenta trazer para o Quênia a capacidade de unir e de representar a região como um todo (tanto histórica quanto geograficamente).

Provando que o projeto vai além de uma preocupação temporal de Kenyatta com a proeminência regional do Quênia, estão sob a guarda dos importantes museus quenianos os claros vestígios desta preocupação. Não por um acaso, está nos Arquivos Nacionais do Quênia uma grande coleção de arte islâmica produzida em áreas que hoje são territórios da Etiópia e da Somália; ou ainda peças ugandesas feitas em marfim. Da mesma forma, os mapas do Museu Nacional de Nairóbi raramente se contentam em narrar fatos apenas do território queniano; reforçando, a todo momento, idéias de diálogos e de integrações na região.

Porém, se, por um lado, existe este projeto com faces conciliatórias e com constante observação da região como um todo, por outro, existem as pressões cotidianas inerentes a qualquer coletividade. De um modo geral, a sociedade queniana se equilibra em contrastes muito profundos e se encontra em um ponto delicado de transformação. Ao mesmo tempo que conta com a forte presença islâmica, com a pujança econômica e com a solidez institucional; presencia a incapacidade de articulação e de alcance estatal, os casos graves de corrupção e crises no poder e as discrepâncias dentro da sociedade quanto à religião acendendo algumas questões arabo-africanas. A sociedade que goza de estabilidade institucional e vê a expansão das possibilidades econômicas – não por acaso, a atual grande telenovela queniana é um retrato do mercado de alto luxo do país – caminha no sentido das grandes desconfianças contra os problemas dos vizinhos. Ou seja, as fronteiras que sempre estiveram tão próximas no imaginário queniano começam a traduzir-se em algum risco ao grande momento do país.

E é neste exato encontro entre projetos e horizontes que pode estar uma importante chave para a compreensão da atuação queniana na região. Visto que o país que sempre se enxergou como um importante estandarte da região é convocado pelas circunstâncias a dar respostas palpáveis para sua população sobre os problemas vizinhos. Logo, é muito difícil que o Quênia, que por anos se viu como líder nato e sólido e que, agora, vê os caminhos para o tão esperado salto para o futuro, vá optar por diálogos demorados com a região; ou que vá pelas vias mais lentas de atenuar a chegada dos problemas por suas fronteiras.

De alguma maneira, o que se encontra dentro da lógica da política regional queniana é o cruzamento de uma percepção teórica sobre seus vizinhos confirmada pela História com um generoso horizonte de possibilidades para o país. Configuração que, de certa forma, tira muitos tons de surpresa de sobre as incursões quenianas no sul da Somália e de pressões de Nairóbi sobre os vizinhos do sudoeste. Se for necessário que o Quênia evoque sua liderança regional para deter as instabilidades (que vão desde migrações desordenadas até atentados terroristas) em sua fronteira com a Somália em nome da estabilidade, a lógica desencadeada estará perfeitamente conforme os horizontes de racionalidade política construídos no Quênia.

Desta forma, a conjuntura política, econômica e cultural (em sentido mais amplo) vivida pelo Quênia colocam sobre a mesa decisões urgentes e caminhos necessários. Entre as desconfianças contra algumas fronteiras e auto-confianças, vai Nairóbi tentando encontrar vias possíveis para seus sonhos novos, porém sem esquecer dos destinos que sempre se arrogou.

Sul do Sudão – Um país no esquecimento

Em menos de um mês o Sudão do Sul completará um ano de existência como país soberano e reconhecido pela comunidade internacional. Trata-se do quinquagésimo quarto Estado africano e um dos mais pobres países do mundo. A expectativa inicial de que o surgimento desse novo Estado, criado a partir do desmembramento do Sudão, traria paz e estabilidade para a região, infelizmente não se concretizou. Hoje, o país vive uma guerra não declarada com o Sudão, o que torna ainda mais difícil sua estruturação.

Durante esse primeiro ano de existência muitas negociações envolvendo os governos do Sudão do Sul e do Sudão foram frustradas, apesar da boa vontade e do envolvimento da comunidade internacional e da União Africana que buscaram criar mecanismos para o convívio mais harmônico entre os dois países.

A criação do Sudão do Sul ocorreu após uma longa e desgastante guerra que durou mais de duas décadas e que envolveu o norte e o sul do Sudão. Havia uma aspiração antiga por parte de setores expressivos das sociedades que habitam o sul do Sudão pela criação de um novo estado, uma vez que as diferenças entre o norte e o sul são antigas e profundas. Vão de diferenças étnicas e religiosas, com o norte sendo predominantemente muçulmano e o sul, cristão e animista, a perspectivas políticas diferenciadas.

Em termos econômicos o Sudão do Sul é muito dependente da exploração de petróleo, de forma que 98% das receitas do Estado provem do hidrocarboneto, que é integralmente exportado pelos oleodutos do Sudão. E como agravante o país possui apenas as reservas, sem dominar sequer o processo de extração e nenhuma via de escoação da produção. Em contraste, mais de 85% da população do novo país ganha a vida em atividades ligadas à agricultura, predominando a atividade de subsistência.

O principal parceiro econômico e comercial do Sudão do Sul, mas também o seu principal inimigo, é o Sudão. Aliás, a dependência é mútua, uma vez que no processo de divisão a maior parte das reservas petrolíferas ficaram com o Sudão do Sul. Todavia, como salientado, a única via de escoação se dá pelo território, pelos oleodutos e pelo porto do Sudão, que naturalmente cobra por sua utilização.

São grandes os desafios das autoridades do novo país. Enquanto os governos do Sudão do Sul e do Sudão não encontrarem uma via de convivência pacífica, muito pouco pode ser feito. A paz é condição essencial para que haja uma chance de sobrevivência digna do novo país.

Sem a paz será inviável para o governo conseguir promover uma diversificação econômica capaz de gerar emprego e renda para a sua população. Não é possível manter o elevado grau de dependência com relação ao petróleo e nem tampouco exaurir os parcos recursos do Estado na compra de armamentos e manutenção de uma força militar.

Enfim, as perspectivas atuais não são nada boas para o regime do presidente Salva Kiir Mayardit. O Sudão do Sul necessita de um apoio internacional mais propositivo, que deveria começar pelo maior envolvimento dos Estados africanos, que podem e devem atuar por meio da União Africana. Se os africanos e o mundo insistirem em manter o descaso com relação ao povo sul-sudanês, teremos tudo para muito em breve incluir o Sudão do Sul no rol dos conflitos esquecidos.

A fome na Somália

Milhares de somalis estão passando fome. Aliás, muitos já estão morrendo de fome e, ao que tudo indica, continuarão a morrer nos próximos meses, quiçá nos próximos anos. A fome na região conhecida como Chifre da África já assumiu dimensões catastróficas, especialmente na Somália, que teve “Estado de fome” decretado pela ONU, o que em linguagem técnica equivale ao nível máximo na escala que vai de um a cinco criada pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).

A fome não se restringe à Somália, caso mais grave, atingindo também regiões do Quênia, Etiópia e Djibuti. Estimativas das Nações Unidas indicam que mais de doze milhões de pessoas em toda a região estão em situação de extrema necessidade de ajuda. No caso da Somália, uma a cada três crianças estão subnutridas e cerca de 6 crianças morrem todos os dias. Dado mais assustador ainda: pelo menos metade da população passa fome!

A dificuldade adicional, no caso particular da Somália, é que a interminável guerra civil do país impõe inúmeras barreiras para uma ajuda internacional mais intensiva e eficiente. Não há segurança para o trabalho de agências humanitárias que poderiam distribuir alimentos e prestar ajuda a uma população que padece, há décadas, dos horrores da guerra e da precariedade em praticamente todos os aspectos da vida.

Como explicar uma situação tão calamitosa como essa? No caso da Somália é preciso levar em consideração todo o contexto de conflito e crise profunda do Estado que envolve o país desde o início da década de 1990. O quadro atual, todavia, foi agravado pela pior seca verificada na região nos últimos 60 anos, que prejudicou ainda mais a precária e fraca agricultura regional. Esse é o motivo principal para o transbordamento da crise alimentar para além das fronteiras somalis.

A fome não é uma prerrogativa somali ou africana. Ela está, infelizmente, presente em todos os continentes. Estima-se que aproximadamente 1 bilhão de seres humanos passem fome ao redor do mundo. É claro que os mais pobres são sempre os mais afetados e eles estão justamente no continente africano. A fome, portanto, é uma das várias faces da pobreza.

O paradoxo mais assustador e aviltante para a humanidade quando o assunto é a fome é que em nenhum outro momento da história o ser humano conseguiu produzir tanto alimento como agora. Em praticamente toda a história houve ciclos de fome, mas em sua maioria motivados mais pela escassez de alimentos do que pela falta de sua distribuição, seja por razões econômicas ou por quaisquer outras. Esses momentos de fome existiram mais em decorrência de pragas, condições climáticas adversas, guerras, catástrofes naturais ou mesmo como uma combinação desses fatores. Agora, o cenário é outro.

Embora o assunto tenha ganhado a mídia internacional e despertado preocupação em vários países, infelizmente não há solução à vista de curto prazo. Mesmo que houvesse disponibilidade e o empenho decidido por parte de agências internacionais para distribuição de alimentos em caráter emergencial (o que de fato, não há), no caso específico da Somália a falência do Estado e a retomada dos conflitos internos elevam o combate à fome a um patamar ainda mais complexo e de difícil solução.

Infelizmente, já estamos assistindo, e iremos assistir com mais intensidade ainda, a mais um desses episódios trágicos que nos incomoda e diminui a todos e nos faz repensar (pelo menos deveria) que caminho é esse que a humanidade está seguindo.

O Observatório

Este observatório é uma iniciativa do Grupo de Estudos Africanos vinculado ao Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (GEA/IREL-UnB), que busca refletir sobre a vida política, social e econômica da África contemporânea, com destaque para sua inserção internacional. Preocupando-se com o continente marcado pela diversidade, o Grupo de Estudos Africanos, por meio do Observatório, propõe um olhar crítico e compreensivo sobre temas africanos, em suas mais diversas dimensões.