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Nelson Mandela era “um ser humano comum”

CITY PRESS VIA GETTY IMAGES
Winnie Madikizela-Mandela durante seu aniversário de 78 anos em Soweto, na África do Sul. (Photo by Leon Sadiki/City Press/Gallo Images/Getty Images)

Em uma entrevista exclusiva, a complexa e polêmica, a ativista antiapartheid e deputada do Congresso Nacional Africano explicou ao HuffPost SA como seu ex-marido Nelson Mandela era “um ser humano comum” e disse que acredita que ele poderia ter feito mais pelos negros nas negociações da Convenção para uma África do Sul Democrática (Codesa).

Quando entramos na casa de Winnie Madikizela-Mandela, temos a sensação de estar na casa de nossa própria avó. No aposento onde fizemos nossa entrevista com ela, há sofás cor de creme com um exagero de almofadas e mantos bordados pendurados na parte de trás deles. Uma pesada mesa de madeira no meio do piso encarpetado mostra uma abundância de livros sem nome colocados aparentemente para decoração, e cada espaço nas paredes está repleto de quadros.

Assim que a ícone da luta contra o apartheid, de 80 anos, entra na sala,qualquer ansiedade anterior desaparece. Madikizela-Mandela nos cumprimenta como se tivéssemos aparecido para uma visita depois de algumas semanas fora. Seus abraços, apertos de mão e sorrisos são tão calorosos que alguém seria perdoado por esperar um comentário sobre o quanto havíamos crescido. Naquele momento, fico impressionada com o quanto ela é diferente pessoalmente em relação à figura brava e assustadora criada em minha cabeça sobre o que eu havia lido sobre ela.

A cineasta Pascale Lamche lançou seu documentário sobre a história de Madikizela-Mandela, Winnie, no Encounters Documentary Film Festival, em junho. O filme, que busca sem rodeios mudar a narrativa de “mulher amarga” criada em torno dela, ganhou o prêmio de melhor direção em Cinema Mundial — Documentário em Sundance.

Quando perguntada sobre o que achou da forma como sua história foi contada, Madikizela-Mandela cita o filme do produtor Anant Singh, Mandela: O Caminho para a Liberdade, adaptado do best-seller de Madiba — apelido de Nelson Mandela, referente ao clã de sua família — Longo Caminho para Liberdade: Uma Autobiografia.

“Como você condensa aquele tipo de estilo de vida em um episódio que pode ser visto em duas horas? Você fez uma tarefa impossível”, diz Madikizela-Mandela para Pascale Lamche, a diretora francesa que produziu o documentário de 97 minutos sobre a ativista.

Talvez incentivada pelo filme, que foca menos em seu canonizado ex-marido e mais em uma versão menos conhecida de sua história, mais favorável à sua figura, Madikizela-Mandela vai direto ao ponto. Ela quase que imediatamente acusa o sistema do apartheid de capturar Madiba e enfraquecer sua militância.

E, talvez, isso mostre que o documentário veio na hora certa. A percepção de que Mandela não fez o melhor que pôde pelos negros é uma ideia que não só tem sido tema de discussão entre vários acadêmicos e comentaristas desde os debates da Codesa nos anos 90, como também voltou às conversas ‘mainstream’ a convite dos chamados nascidos livres, que exigem uma educação descolonizada, gratuita e que lutam para encontrar seu lugar no arco-íris de Mandela.

SIPHIWE SIBEKO / REUTERS

“Devo ter sido a tal ponto motivo de orgulho para Niël Barnard que, no final das contas, eles realmente acalmaram Madiba”, diz Madikizela-Mandela sobre o chefe do serviço de inteligência nacional na era do apartheid. Barnard, juntamente com ex-chefe do Stratcom, máquina de propaganda da polícia do apartheid, Vic McPherson, relatam irrefletidamente como criaram um conflito entre Madiba e Madikizela-Mandela com o objetivo de ter um melhor controle sobre ele.

“Eles queriam me desestruturar. Esse foi o problema deles, nunca me desestruturei”, diz.

Madikizela-Mandela nunca foi uma personalidade fácil de classificar. Ao fazer parte de um bloco radical dentro do partido governista, ela foi forçada a trabalhar como soldada em Soweto durante o encarceramento de Mandela, que começou em 1964. Devido à sua impopularidade com o público, ela foi banida do lar que tinha com Mandela e jogada à margem pelo governo do apartheid. Sua ascensão se deu pelas fileiras do braço armado do Congresso Nacional Africano (CNA), o Umkhonto we Sizwe, nos anos 70 com seu apoio aos jovens que foram chamados em 1985 por seu líder, Oliver Reginald Tambo, para “servir o país ingovernável”. Ela acabou se tornando uma das mais importantes e respeitadas representantes do partido, com enorme apoio da população.

Durante esse período, Madikizela-Mandela foi acusada de muitos delitos graves. Uma das polêmicas mais notáveis que a envolveram foi o assassinato de Stompie Seipei, de 14 anos. Ela foi acusada de raptá-lo e, em um recurso, conseguiu pagar uma multa com a suspensão da sentença de dois anos pelo crime. Um integrante de seu time, o Mandela Football Club, cumpriu pena pela morte do adolescente.

O modo de vida complicado e obscuro durante a luta armada contra o apartheid significa que, talvez, nunca possamos compreender totalmente o que aconteceu com Seipei.

“Estávamos em guerra”, Madikizela-Mandela explicou algumas vezes durante a entrevista. “Líamos sobre a Alemanha nazista, e equiparávamos nossa situação à Alemanha nazista.”

“A luta é um trabalho ingrato. Não saí por aí dizendo: ‘Bom trabalho, bom trabalho’”, afirmou.

No documentário, Madikizela-Mandela diz que sempre sonhou em ver o Congresso Nacional Africano e a África do Sul liderados por Chris Hani, líder do Umkhonto we Sizwe, que tinha uma inclinação ideológica mais socialista do que outros líderes do CNA. Hani foi assassinado em 1993.

“Tragicamente, acho que teremos sorte se um dia soubermos o que de fato aconteceu. Chris Hani não foi assassinado pela direita. Havia forças mais sinistras do que Janusz [Waluś, ativista de extrema-direita],” disse ao HuffPost SA.

Mandela

MIKE HUTCHINGS / REUTERS

No que poderia ser visto como um ato final de desafio, Madikizela-Mandela fala sobre Mandela com uma franqueza que poderia surpreender muitos simpatizantes acríticos de Madiba. Ela disse que ele teve muitos casos extraconjugais e o chamou de “mulherengo” em mais de uma ocasião.

“Ele era daquele jeito por natureza, velhaco. Por isso que sua prole está aumentando”, ela brinca. “Toda hora há uma foto de uma pessoa que diz: ‘Sou filho de Madiba’. O público não sabia; eu sabia sobre eles, e é verdade. São seus filhos.”

Ela explicou que deu apoio a alguns dos filhos do “mulherengo”.

“Eu matriculei alguns na escola, sem falar nada. Eu os eduquei. Isso é o que fazemos, temos famílias extensas.”

E, ou em mais um ato para protegê-lo ou em uma tentativa final de se justificar, Madikizela-Mandela tenta explicar que Madiba não era um mito. Era uma pessoa de carne e osso, que também tinha falhas.

“Era um homem que gostava de mulheres. Era um ser humano comum que tinha uma queda pelas mulheres”, disse.

Todas as mulheres agiriam como Mama Winnie agiu? Claro que não. E, talvez, ela mesma não teria se comportado daquela maneira se as circunstâncias tivessem sido diferentes.

“Ele não estava lá para que eu arranhasse sua cara. Estava fervendo de raiva”, disse sobre quando soube que ele tinha outros filhos.

“No final das contas, era um ser humano normal… Ele tinha de ser normal. Não era apenas um mito. Esta enorme figura, de que ele era tão incrível, um semideus — ele era apenas um ser humano normal.”

E, com uma referência final sobre o homem, Madikizela-Mandela incorporou mais uma vez o que muitas mulheres negras, algumas de nossas avós e mães, tiveram de enfrentar (e ainda enfrentam) para manter as famílias negras vivas.

“Não havia nada que pudéssemos fazer. Esses homens estavam na prisão. O que importava era o país, a África do Sul. O que eles fizeram em suas vidas pessoais era realmente imaterial. Não era nem aqui nem lá. Devemos entender que eram ser humanos normais no final das contas.”

Na terra

“A verdade era que talvez tenhamos perdido a terra novamente no processo. Nossa luta era uma luta pela terra. Tudo tinha a ver com o retorno da terra para os donos da terra. Não essa noção tola de levar o homem branco para o mar — a noção de lutar para recuperar nossa terra”, explicou.

“Discordávamos de Madiba sobre isso. Você diz: ‘Vamos negociar’. Quando negociamos, você diz que a terra pertence a todos que vivem nela, que as portas do aprendizado devem ser abertas. Agora, como podemos comprar a terra de volta daqueles que a roubaram?”.

Mas ela alertou contra apropriações de terra também.

“Não íamos receber a terra de volta sem compensação. Haveria graves consequências se tivéssemos feito aquilo. Ainda hoje haveria derramamento de sangue”, disse.

“Poderíamos ter chegado a outras decisões em vez de comprador interessado, vendedor interessado” durante a época das negociações, disse.

O que deveria ter mudado

Madikizela-Mandela acredita que as empresas deveriam ter sido mais pressionadas para assumir a responsabilidade de criar empregos, em um esforço para diminuir a desigualdade no país.

“Os capitães da indústria deveriam ter sido parte integrante do acordo na Codesa de que iriam criar empregos. Os governos não criam empregos”, disse.

Para ela, as discussões fracassaram porque o CNA se apressou a alcançar um consenso na época, e foi aí onde as diferenças com seu ex-esposo estadista aumentaram.

“Queríamos levantar a bandeira da liberdade, acomodamos as minorias no processo e alertei Madiba. Eu disse: ‘Não vai funcionar’. Havíamos lutado com essas pessoas desde baixo. Nós as conhecemos melhor do que a liderança que esteve encarcerada durante anos”, disse Madikizela-Mandela.

“Deveríamos ter analisado os tipos de acordo que não iriam vender o país, que não iriam vender o país de volta aos proprietários dos meios de produção”, disse. “Aquela foi a base de nossos desentendimentos com Madiba.”

Mudanças no CNA

“Temos problemas”, Madikizela-Mandela disse sobre o estado atual do Congresso Nacional Africano, mas acrescentou que as coisas podem ser mudadas. Nas últimas eleições locais, o partido perdeu controle de cidades-chave, tais como Johanesburgo e Tshwane, e sofreu derrotas sem precedentes nas eleições parciais.

Em relação aos líderes atuais do partido, Madikizela-Mandela disse que o CNA usaria sua constituição na próxima conferência eletiva para fazer mudanças.

“Vamos reformular o Congresso Nacional Africano. Estamos esperando pela conferência de dezembro. Tudo precisa ser feito estruturalmente”, disse. “Quando tudo for dito e feito, vamos trazê-lo de volta à sua antiga glória.”

Ela disse que as tentações de captura do Estado eram esperadas.

“Há seres humanos que estão fazendo [isso] ao Congresso Nacional Africano”, disse. “Isso é o que acontece aos movimentos revolucionários…. e eu alertei sobre isso há 23 anos.”

Madikizela-Mandela tem esperança de que, por meio do judiciário, a glória do CNA possa retornar.

“Graças a Deus ainda temos um judiciário respeitável. É a única instituição que ainda é aceitável às massas”, disse, em uma alusão a outras partes do governo — tais como o Parlamento, o legislativo, a mídia — supostamente sendo capturadas.

Durante sua pesquisa para o documentário, Lamche descobriu informações sobre o assassinato de Seipei que ela revela para Madikizela-Mandela pela primeira vez durante nossa entrevista, e que a ativista considera “cruciais”.

Jerry Richardson, que confessou durante a Comissão de Reconciliação e Verdade ter recebido uma oferta de 30.000 rands para matar Seipei, disse a Henk Heslinger, policial branco trazido para as operações com o objetivo de desacreditar Madikizela-Mandela, que o estado do apartheid ainda lhe devia dinheiro pelo assassinato. Em 1994, Heslinger checou os dados e comprovou que as informações eram verdadeiras, decidindo assumir o compromisso de quitar a dívida. Richardson pediu que o dinheiro fosse convertido em um solitário de diamantes para uma mulher pela qual ele estava apaixonado.

A informação era importante para que Madikizela-Mandela esclarecesse os fatos.

“Até hoje a direita, mesmo o DA [Aliança Democrática, partido de oposição na África do Sul] para esse assunto, ainda continuam abusando dessa informação e nos chamando de todos os tipos de coisas”, afirmou.

Captura do Estado

Em setembro do ano passado, alguns meios de comunicação citaram Madikizela-Mandela dizendo que o CNA tinha “sérios problemas”. Ela não mudou sua posição. Mas, enquanto a maioria interpretou a afirmação como uma crítica contra a liderança do presidente Jacob Zuma, ela tem o cuidado de não apontar nenhum dos atuais atores que poderia culpar dentro do partido.

Madikizela-Mandela disse que já não reconhece o Congresso Nacional Africano.

Ela afirma que a corrupção no partido governista não faz parte do CNA pela qual ela lutou durante a batalha contra o apartheid.

“O CNA de nossos antepassados desapareceu”, disse. “Todos os dias você abre um jornal e há histórias sobre corrupção, captura do Estado, o CNA está tão capturado… Essas são as notícias que lemos hoje sobre meu CNA.”

Madikizela-Mandela disse que informou à liderança do partido que as coisas na mesa de negociações da Codesa, nos anos 90, não iam bem e acrescentou que esses problemas eram esperados. “Existem seres humanos que estão fazendo [isto] com o CNA”, acrescentou. “Isso é o que acontece aos movimentos revolucionários… E eu alertei sobre isso há 23 anos.”

“Nem um tolo pode fingir que não temos problemas”, disse Madikizela-Mandela. “Temos muitos, muitos problemas sérios. O CNA está com uma hemorragia.”

Madikizela-Mandela disse que viu as acusações de corrupção contra o partido como se fossem contra ela.

“Espero que, depois do sangue e da hemorragia, encontremos um antídoto em algum lugar”, afirmou.

‘Para o que lutamos?’

Madikizela-Mandela encerrou nossa conversa com uma mensagem de esperança para os sul-africanos e mais um impulso como a chamada mãe da nação.

“Estamos cientes de nossos graves desafios hoje”, disse. “As vidas das mulheres nunca foram tão baratas como são hoje”, acrescentou. “Os desafios de hoje são realmente uma mancha para o Congresso Nacional Africano. Para o que lutamos?”.

“Crianças são estupradas! Estas são as chagas da sociedade que vemos hoje, porque o CNA perdeu aquela imagem de proteger as massas”, avalia Madikizela-Mandela.

“Quero [enviar aos sul-africanos] uma mensagem de encorajamento e dizer a eles que nem tudo está perdido no Congresso Nacional Africano. Esperamos que, como remanescentes do Congresso Nacional Africano original, sejamos capazes de restaurar sua dignidade, sua antiga glória.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost África do Sul e traduzido do inglês.

 

http://www.huffpostbrasil.com/2017/07/14/winnie-mandela-abre-o-jogo-sobre-o-futuro-da-africa-do-sul-raci_a_23030488/

Namíbia exige justiça da Alemanha pelo seu primeiro holocausto

De 25 de novembro de 2016 a 12 de março de 2017, o Museu do Holocausto em Paris, França, organizou uma exposição dedicada ao genocídio de dois povos da Namíbia, os hereros e os namas, aquele que é hoje amplamente considerado o primeiro genocídio do século XX.

Após a Conferência de Berlim de 1884, quando as potências europeias dividiram a África entre si, a Alemanha governou o Sudeste Africano Alemão (atual Namíbia) até 1915.

Entre 1904 e 1908, os colonizadores alemães perpetraram um genocídio contra os povos hereros e namas, exterminando 65 000 hereros e 10 000 namas. Num detalhe particularmente macabro, os crânios de algumas vítimas foram levados até a Alemanha para investigação científica acerca da suposta desigualdade racial.

Por fim, sob a liderança de Samuel Maharero, membros das duas tribos organizaram uma revolta bem sucedida contra os alemães, recuperando as suas terras e pondo fim à violação em massa e a outras formas de degradação perpetradas pelos ocupantes alemães. Lutaram numa guerra de guerrilha que levou à situação que Véronique Chemla descreve no seu blogue como «um conflito maior». Véronique Chemla, jornalista de assuntos internacionais da American Thinker, da Ami e da FrontPage Mag, explica:

  • hereros e os namas

A 12 de janeiro de 1904, «ao mesmo tempo que as tropas alemãs tentavam sufocar a «revolta» dos nama Dondelswartz a sul, os herero Okahandja, exasperados pelas injustiças cometidas por Zürn (Comandante de Estação, tenente Ralph Zürn) e pela progressiva perda de território, atacaram explorações agrícolas e empresas alemãs e a infraestrutura colonial. Estes ataques resultaram numa brutal repressão por parte dos soldados e dos colonos, que levaram a cabo linchamentos e represálias indiscriminadas».

Na Alemanha, no seguimento das «descrições exageradas destes ataques, nasceu um verdadeiro desejo de guerra».

Ao mesmo tempo que a violência continuava a crescer, o levantamento local transformou-se num grande conflito, o que obrigou Maharero a colocar-se do lado dos «rebeldes». Para grande enfado dos políticos de Berlim, os homens de Maharero triunfaram, num primeiro momento, na sua resistência às tropas do (administrador colonial Theodor) Leutwein com técnicas de guerrilha. Leutwein foi dispensado do seu comando e substituído pelo implacável general Lothar von Trotha, que havia chegado à colónia em junho de 1904 com milhares de homens.

O general Lothar von Trotha dirigiu 15 000 homens numa implacável campanha de repressão. A 2 de outubro de 1904, deu ordens aos seus oficiais para realizarem o extermínio sistemático de membros das duas tribos, como se descreve numa publicação do Le Blog de Daniel Giacobi, professor francês de História:

Os hereros não são mais súbditos alemães. Se não aceitam isto, ser-lhes-á imposto pelas armas. Devem sair do país ou expulsá-los-ei com o «groot Rohr» [canhão grande].

Todo herero que se encontre dentro das fronteiras alemãs [namíbias], esteja armado ou não, será executado. Mulheres e crianças serão removidas do país — ou serão abatidas a tiro. Não serão levados quaisquer prisioneiros homens. Serão mortos a tiro. Esta decisão respeita os hereros. Dentro das fronteiras alemãs, matar-se-á todo o herero, armado ou não, com gado ou não. Não receberei mais mulheres ou crianças. Enviá-los-ei de volta sozinhos, ou ordenarei que os executem.

A minha política foi sempre no sentido de controlar a situação com terror brutal e até crueldade. Usarei toneladas de dinheiro para aniquilar os membros da tribo revoltosos, em torrentes de sangue. Somente desta semente crescerá algo novo e estável.

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Em agosto de 1904, na Batalha de Waterberg, os hereros e os namas viram-se rodeados «e a única saída era através do deserto Kalahari, onde os pontos de água estavam envenenados».

O que aconteceu depois foi, no entanto, mais trágico:

Por fim, colocou guardas e deu-lhes a ordem formal de matar todo e qualquer herero, independentemente de idade ou sexo. O resultado foi um massacre sistemático que alguns estimam ter feito entre 25 000 e 40 000 mortos (outros falam de 60 000 vítimas).

Vincent Hiribarren, professor catedrático de História Africana e Universal noKing’s College de Londres, responsável pelo site libeafrica4.blogs.liberation.fr, publicou uma entrevista de Jean-Pierre Bat com Leonor Faber-Jonker, historiadora de Universidade de Utrecht, que descreveu os métodos de extermínio usados pelos alemães:

Esta era a política que von Trotha havia seguido, ainda que subentendida, desde o ataque de Waterberg. Durante a batalha, qualquer herero que tinha conseguido escapar do círculo de alemães que os rodeava, fugiu para Omaheke. Von Trotha ordenou que os perseguissem, que procurassem o terreno metodicamente e que eliminassem os pontos de água. Os hereros, obrigados a dirigirem-se ao deserto, morreram em grande número de desidratação e fome. Esta perseguição teve também repercussões para os alemães.

Foram exibidas cópias da ordem escrita aquando da captura dos hereros e estes foram obrigados a assistir à execução de vários dos seus camaradas prisioneiros, antes de serem enviados para o deserto para serem testemunhas do que haviam visto e dissuadirem outros hereros de voltar.

Os colonos tiveram um comportamento execrável, roubaram terras e violaram as mulheres hereros e namas. O sítio web do Museu do Holocausto realçou que a maioria dos colonos que se apoderaram das terras e do gado dos hereros trataram os africanos sem o mínimo respeito.

A violação era uma prática comum e era exacerbada pela falta de mulheres alemãs. O temor do povo alemão (Volk) pela degeneração racial levou à proibição de matrimónios inter-raciais em setembro de 1905. As ideias sobre diferenças raciais baseavam-se na antropologia alemã do final do século XIX, que propunha uma distinção entre raças consideradas «civilizadas» e raças consideradas «primitivas». Esperava-se ter uma compreensão da espécie humana através da observação objetiva dos «primitivos», como as pessoas exibidas em zoológicos humanos (muito populares na Europa nessa época).

Em 2011, descobriram-se onze crânios do genocídio na Namíbia. Até então, esta atrocidade havia permanecido oculta, como é referido no site do Museu do Holocausto:

O Blue Book (Livro Azul), um relatório oficial do governo britânico que enumerava as atrocidades cometidas no Sudeste Africano Alemão, e, pouco tempo depois, recompilou a conquista da colónia durante a Primeira Guerra Mundial, foi censurado em 1926, pensando no interesse da nova unidade. Depois, a perspectiva alemã do genocídio como uma heróica guerra colonial literalmente dominou o âmbito comemorativo da antiga colónia e esta viu-se inundada por monumentos e ruas com nomes que comemoravam o esforço bélico alemão. Depois de 1945, o passado colonial não ficou esquecido na Alemanha. No Sudeste Africano, a repressão do regime do apartheid sufocou qualquer debate público sobre o genocídio. Os descendentes das vítimas tiveram a tarefa de manter viva a memória do genocídio, com atos comemorativos e com a tradição oral.

Por fim, em julho de 2015, o governo alemão acordou enumerar os “acontecimentos que ocorreram” como um genocídio oficial, no seguimento do reconhecimento do genocídio arménio. No entanto, o governo não conseguiu proferir uma desculpa formal, nem mostrou vontade de dar uma compensação. Esta situação levou a um encontro em outubro de 2016 no Centro Francês de Berlim, que juntou partidários de vários países que afirmavam o direito das comunidades dos hereros e dos namas a participarem diretamente na negociação de uma resolução que inclua o reconhecimento do genocídio, um pedido de desculpas formal, apropriado e sincero às comunidades afetadas e a atribuição de uma compensação justa às duas comunidades, que continuam a sofrer os efeitos do genocídio.

Desde que a Namíbia conseguiu a sua independência em 1990, os descendentes das vítimas — juntamente com grupos de direitos humanos (sobretudo simpatizantes judeus) da Alemanha, dos Estados Unidos, de Botsuana e da África do Sul — têm batalhado pelo reconhecimento do genocídio e estão próximos de uma importante vitória judicial. Em julho de 2017, a juíza federal de Nova Iorque, Laura Taylor Swainouvirá uma queixa contra Berlim por parte dos descendentes das vítimas.

 

https://pt.globalvoices.org/2017/05/11/um-seculo-depois-namibia-exige-justica-a-alemanha-pelo-seu-primeiro-holocausto/

Vaias a Zuma cancelam ato do Dia do Trabalho na África do Sul

O mandato do presidente Jacob Zuma, seu segundo e último, termina em 2019

Johanesburgo – Centenas de integrantes do sindicato COSATU vaiaram nesta segunda-feira o presidente da África do Sul, Jacob Zuma, durante a comemoração do Dia do Trabalho em Bloemfontein, que acabou sendo cancelada sem o pronunciamento do chefe de Estado depois que este não conseguiu o silêncio dos organizadores, que pediam sua renúncia.

Um grupo de sindicalistas recebeu o presidente com gritos de “Zuma deve sair”. Outros integrantes da COSATU tentaram silenciá-los, sem sucesso, com palavras de ordem em favor do presidente.

 

Zuma assistiu aos gritos e canções contra ele sentado sob a tenda que protegia do sol os dirigentes que compareceram ao evento.

Aliado histórico do partido Congresso Nacional Africano (CNA), que é presidido por Zuma, a COSATU pediu no mês passado a saída de chefe de Estado por causa da destituição em 31 de maio do respeitado ministro de Finanças, Pravin Gordhan.

O Partido Comunista – o outro aliado do CNA desde os tempos da luta contra o apartheid – também pediu a saída de Zuma pela destituição de Gordhan, que tinha manifestado sua oposição aos planos de gastos mais ambicioso do presidente e se converteu em um símbolo de integridade moral na África do Sul.

Zuma foi acusado de tirar Gordhan para aplainar o terreno ao caríssimo projeto de construir novos reatores nucleares na África do Sul, que, segundo alguns comentaristas, proporcionaria concessões milionárias à família dos magnatas Gupta e a um dos filhos do presidente.

Os Gupta e Duduzane Zuma são proprietários de uma mina de urânio que seria utilizada para abastecer os novos reatores.

De origem indiana e com interesses em vários setores estratégicos, os Gupta fizeram fortuna com concessões públicas na África do Sul, e são acusados de ter manipulado licitações para obter contratos do Estado e de terem oferecido cargos de ministro em nome do próprio presidente.

Mais de 100 mil pessoas pediram em abril a renúncia de Zuma, e duas agências de qualificação de risco rebaixaram a nota da África do Sul ao nível do bônus lixo alegando temores com gastos descontrolados após a saída de Gordhan do governo.

A oposição sul-africana prepara uma moção de censura contra o presidente e espera que os deputados descontentes da base governista se juntem a ela.

O mandato de Zuma, seu segundo e último, termina em 2019 e o político deixará de ser presidente do CNA em dezembro deste ano.

Além dos protestos contra Zuma, os trabalhadores da COSATU se manifestaram hoje em frente à Bolsa de Valores de Johanesburgo para pedir a “transformação” racial da economia e denunciar o “monopólio capitalista branco” que, segundo eles, controla a África do Sul.

Fonte:http://exame.abril.com.br/mundo/vaias-a-zuma-cancelam-ato-do-dia-do-trabalho-na-africa-do-sul/

Defensora das vítimas do apartheid premiada na Alemanha

Nomarussia Bonase é a vencedora do Prémio Feminino Anne Klein 2017. A sul-africana luta pelos direitos das vítimas do apartheid que ainda estão à espera de uma indemnização.

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Nomarussia Bonase, de 50 anos, celebrou o Prémio Feminino Anne Klein com um grupo de familiares e amigos nas ruas da township de Thokoza, nos arredores de Joanesburgo. Bonase cantou e dançou.

“Não estava a acreditar que era verdade. Quando me disseram de novo, perguntei se era mesmo eu que tinha ganho o prémio”, conta a ativista à DW. “Chorei quando disse à minha família e ao meu grupo.”

O prémio da fundação alemã Heinrich Böll, ligada ao partido “Os Verdes”, é atribuído anualmente a mulheres empenhadas em promover a democracia de género.

Bonase é a coordenadora nacional do Grupo de Apoio Khulumani, uma organização que representa mais de 100 mil vítimas do apartheid que lutam para obter indemnizações de danos causados pelo antigo regime de segregação racial.

Südafrika Nomarussia Bonase gewinnt Anne Klein Award Grupo de Nomarussia Bonase pede indemnizações para vítimas do apartheid

É o caso de Danisile Maphanga, que reivindica uma compensação estatal por causa da morte do seu filho por militares durante o apartheid.

“Nomarussia é de facto uma mulher corajosa e inteligente, o pilar da nossa organização”, diz Danisile. “Estou muito contente com o prémio. Sem ela não conseguiríamos fazer nada. Ela pode bater a qualquer porta.”

“Não tivemos uma vida decente”

Mathemba Mthembu, de 70 anos, acredita igualmente que Nomarussia Bonase está a fazer um bom trabalho ao tentar reparar os danos do passado. E também ela procura respostas e uma indemnização pela morte do filho.

“O meu filho morreu em 1993 em plena luz do dia. Eu vi. Mataram-no à minha frente. Levaram-no para fora de casa e mataram-no a tiro. Deixou uma criança, hoje com 22 anos. Sofremos, passámos fome, estamos emocionalmente destruídos. Não tivemos uma vida decente.”

Além de lutar por indemnizações, Bonase também ajuda estas mulheres a procurar trabalho. “Queremos que o Governo ouça, reconheça e compense o que fez às pessoas. Consideramos que a indemnização é o primeiro passo da transformação”, afirma a ativista.

Nomarussia Bonase explica que as injustiças que viveu durante o apartheid motivaram-na a dar voz aos mais oprimidos: “Às vezes, não consigo dormir à noite quando vejo a dor e a miséria das pessoas que depositam em mim as suas esperanças.”

Na rua, há pessoas que dizem que “se Nomarussia for bater a uma porta, talvez alguma coisa aconteça.”

A ativista recebe, esta sexta-feira (03.03), em Berlim, o Prémio Anne Klein, da fundação alemã Heinrich Böll.

 

http://www.dw.com/pt-002/defensora-das-v%C3%ADtimas-do-apartheid-premiada-na-alemanha/a-37798236

O Observatório

Este observatório é uma iniciativa do Grupo de Estudos Africanos vinculado ao Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (GEA/IREL-UnB), que busca refletir sobre a vida política, social e econômica da África contemporânea, com destaque para sua inserção internacional. Preocupando-se com o continente marcado pela diversidade, o Grupo de Estudos Africanos, por meio do Observatório, propõe um olhar crítico e compreensivo sobre temas africanos, em suas mais diversas dimensões.