.
em foco...
Apartheid, África, África Austral, África do Sul

Nelson Mandela era “um ser humano comum”

CITY PRESS VIA GETTY IMAGES
Winnie Madikizela-Mandela durante seu aniversário de 78 anos em Soweto, na África do Sul. (Photo by Leon Sadiki/City Press/Gallo Images/Getty Images)

Em uma entrevista exclusiva, a complexa e polêmica, a ativista antiapartheid e deputada do Congresso Nacional Africano explicou ao HuffPost SA como seu ex-marido Nelson Mandela era “um ser humano comum” e disse que acredita que ele poderia ter feito mais pelos negros nas negociações da Convenção para uma África do Sul Democrática (Codesa).

Quando entramos na casa de Winnie Madikizela-Mandela, temos a sensação de estar na casa de nossa própria avó. No aposento onde fizemos nossa entrevista com ela, há sofás cor de creme com um exagero de almofadas e mantos bordados pendurados na parte de trás deles. Uma pesada mesa de madeira no meio do piso encarpetado mostra uma abundância de livros sem nome colocados aparentemente para decoração, e cada espaço nas paredes está repleto de quadros.

Assim que a ícone da luta contra o apartheid, de 80 anos, entra na sala,qualquer ansiedade anterior desaparece. Madikizela-Mandela nos cumprimenta como se tivéssemos aparecido para uma visita depois de algumas semanas fora. Seus abraços, apertos de mão e sorrisos são tão calorosos que alguém seria perdoado por esperar um comentário sobre o quanto havíamos crescido. Naquele momento, fico impressionada com o quanto ela é diferente pessoalmente em relação à figura brava e assustadora criada em minha cabeça sobre o que eu havia lido sobre ela.

A cineasta Pascale Lamche lançou seu documentário sobre a história de Madikizela-Mandela, Winnie, no Encounters Documentary Film Festival, em junho. O filme, que busca sem rodeios mudar a narrativa de “mulher amarga” criada em torno dela, ganhou o prêmio de melhor direção em Cinema Mundial — Documentário em Sundance.

Quando perguntada sobre o que achou da forma como sua história foi contada, Madikizela-Mandela cita o filme do produtor Anant Singh, Mandela: O Caminho para a Liberdade, adaptado do best-seller de Madiba — apelido de Nelson Mandela, referente ao clã de sua família — Longo Caminho para Liberdade: Uma Autobiografia.

“Como você condensa aquele tipo de estilo de vida em um episódio que pode ser visto em duas horas? Você fez uma tarefa impossível”, diz Madikizela-Mandela para Pascale Lamche, a diretora francesa que produziu o documentário de 97 minutos sobre a ativista.

Talvez incentivada pelo filme, que foca menos em seu canonizado ex-marido e mais em uma versão menos conhecida de sua história, mais favorável à sua figura, Madikizela-Mandela vai direto ao ponto. Ela quase que imediatamente acusa o sistema do apartheid de capturar Madiba e enfraquecer sua militância.

E, talvez, isso mostre que o documentário veio na hora certa. A percepção de que Mandela não fez o melhor que pôde pelos negros é uma ideia que não só tem sido tema de discussão entre vários acadêmicos e comentaristas desde os debates da Codesa nos anos 90, como também voltou às conversas ‘mainstream’ a convite dos chamados nascidos livres, que exigem uma educação descolonizada, gratuita e que lutam para encontrar seu lugar no arco-íris de Mandela.

SIPHIWE SIBEKO / REUTERS

“Devo ter sido a tal ponto motivo de orgulho para Niël Barnard que, no final das contas, eles realmente acalmaram Madiba”, diz Madikizela-Mandela sobre o chefe do serviço de inteligência nacional na era do apartheid. Barnard, juntamente com ex-chefe do Stratcom, máquina de propaganda da polícia do apartheid, Vic McPherson, relatam irrefletidamente como criaram um conflito entre Madiba e Madikizela-Mandela com o objetivo de ter um melhor controle sobre ele.

“Eles queriam me desestruturar. Esse foi o problema deles, nunca me desestruturei”, diz.

Madikizela-Mandela nunca foi uma personalidade fácil de classificar. Ao fazer parte de um bloco radical dentro do partido governista, ela foi forçada a trabalhar como soldada em Soweto durante o encarceramento de Mandela, que começou em 1964. Devido à sua impopularidade com o público, ela foi banida do lar que tinha com Mandela e jogada à margem pelo governo do apartheid. Sua ascensão se deu pelas fileiras do braço armado do Congresso Nacional Africano (CNA), o Umkhonto we Sizwe, nos anos 70 com seu apoio aos jovens que foram chamados em 1985 por seu líder, Oliver Reginald Tambo, para “servir o país ingovernável”. Ela acabou se tornando uma das mais importantes e respeitadas representantes do partido, com enorme apoio da população.

Durante esse período, Madikizela-Mandela foi acusada de muitos delitos graves. Uma das polêmicas mais notáveis que a envolveram foi o assassinato de Stompie Seipei, de 14 anos. Ela foi acusada de raptá-lo e, em um recurso, conseguiu pagar uma multa com a suspensão da sentença de dois anos pelo crime. Um integrante de seu time, o Mandela Football Club, cumpriu pena pela morte do adolescente.

O modo de vida complicado e obscuro durante a luta armada contra o apartheid significa que, talvez, nunca possamos compreender totalmente o que aconteceu com Seipei.

“Estávamos em guerra”, Madikizela-Mandela explicou algumas vezes durante a entrevista. “Líamos sobre a Alemanha nazista, e equiparávamos nossa situação à Alemanha nazista.”

“A luta é um trabalho ingrato. Não saí por aí dizendo: ‘Bom trabalho, bom trabalho’”, afirmou.

No documentário, Madikizela-Mandela diz que sempre sonhou em ver o Congresso Nacional Africano e a África do Sul liderados por Chris Hani, líder do Umkhonto we Sizwe, que tinha uma inclinação ideológica mais socialista do que outros líderes do CNA. Hani foi assassinado em 1993.

“Tragicamente, acho que teremos sorte se um dia soubermos o que de fato aconteceu. Chris Hani não foi assassinado pela direita. Havia forças mais sinistras do que Janusz [Waluś, ativista de extrema-direita],” disse ao HuffPost SA.

Mandela

MIKE HUTCHINGS / REUTERS

No que poderia ser visto como um ato final de desafio, Madikizela-Mandela fala sobre Mandela com uma franqueza que poderia surpreender muitos simpatizantes acríticos de Madiba. Ela disse que ele teve muitos casos extraconjugais e o chamou de “mulherengo” em mais de uma ocasião.

“Ele era daquele jeito por natureza, velhaco. Por isso que sua prole está aumentando”, ela brinca. “Toda hora há uma foto de uma pessoa que diz: ‘Sou filho de Madiba’. O público não sabia; eu sabia sobre eles, e é verdade. São seus filhos.”

Ela explicou que deu apoio a alguns dos filhos do “mulherengo”.

“Eu matriculei alguns na escola, sem falar nada. Eu os eduquei. Isso é o que fazemos, temos famílias extensas.”

E, ou em mais um ato para protegê-lo ou em uma tentativa final de se justificar, Madikizela-Mandela tenta explicar que Madiba não era um mito. Era uma pessoa de carne e osso, que também tinha falhas.

“Era um homem que gostava de mulheres. Era um ser humano comum que tinha uma queda pelas mulheres”, disse.

Todas as mulheres agiriam como Mama Winnie agiu? Claro que não. E, talvez, ela mesma não teria se comportado daquela maneira se as circunstâncias tivessem sido diferentes.

“Ele não estava lá para que eu arranhasse sua cara. Estava fervendo de raiva”, disse sobre quando soube que ele tinha outros filhos.

“No final das contas, era um ser humano normal… Ele tinha de ser normal. Não era apenas um mito. Esta enorme figura, de que ele era tão incrível, um semideus — ele era apenas um ser humano normal.”

E, com uma referência final sobre o homem, Madikizela-Mandela incorporou mais uma vez o que muitas mulheres negras, algumas de nossas avós e mães, tiveram de enfrentar (e ainda enfrentam) para manter as famílias negras vivas.

“Não havia nada que pudéssemos fazer. Esses homens estavam na prisão. O que importava era o país, a África do Sul. O que eles fizeram em suas vidas pessoais era realmente imaterial. Não era nem aqui nem lá. Devemos entender que eram ser humanos normais no final das contas.”

Na terra

“A verdade era que talvez tenhamos perdido a terra novamente no processo. Nossa luta era uma luta pela terra. Tudo tinha a ver com o retorno da terra para os donos da terra. Não essa noção tola de levar o homem branco para o mar — a noção de lutar para recuperar nossa terra”, explicou.

“Discordávamos de Madiba sobre isso. Você diz: ‘Vamos negociar’. Quando negociamos, você diz que a terra pertence a todos que vivem nela, que as portas do aprendizado devem ser abertas. Agora, como podemos comprar a terra de volta daqueles que a roubaram?”.

Mas ela alertou contra apropriações de terra também.

“Não íamos receber a terra de volta sem compensação. Haveria graves consequências se tivéssemos feito aquilo. Ainda hoje haveria derramamento de sangue”, disse.

“Poderíamos ter chegado a outras decisões em vez de comprador interessado, vendedor interessado” durante a época das negociações, disse.

O que deveria ter mudado

Madikizela-Mandela acredita que as empresas deveriam ter sido mais pressionadas para assumir a responsabilidade de criar empregos, em um esforço para diminuir a desigualdade no país.

“Os capitães da indústria deveriam ter sido parte integrante do acordo na Codesa de que iriam criar empregos. Os governos não criam empregos”, disse.

Para ela, as discussões fracassaram porque o CNA se apressou a alcançar um consenso na época, e foi aí onde as diferenças com seu ex-esposo estadista aumentaram.

“Queríamos levantar a bandeira da liberdade, acomodamos as minorias no processo e alertei Madiba. Eu disse: ‘Não vai funcionar’. Havíamos lutado com essas pessoas desde baixo. Nós as conhecemos melhor do que a liderança que esteve encarcerada durante anos”, disse Madikizela-Mandela.

“Deveríamos ter analisado os tipos de acordo que não iriam vender o país, que não iriam vender o país de volta aos proprietários dos meios de produção”, disse. “Aquela foi a base de nossos desentendimentos com Madiba.”

Mudanças no CNA

“Temos problemas”, Madikizela-Mandela disse sobre o estado atual do Congresso Nacional Africano, mas acrescentou que as coisas podem ser mudadas. Nas últimas eleições locais, o partido perdeu controle de cidades-chave, tais como Johanesburgo e Tshwane, e sofreu derrotas sem precedentes nas eleições parciais.

Em relação aos líderes atuais do partido, Madikizela-Mandela disse que o CNA usaria sua constituição na próxima conferência eletiva para fazer mudanças.

“Vamos reformular o Congresso Nacional Africano. Estamos esperando pela conferência de dezembro. Tudo precisa ser feito estruturalmente”, disse. “Quando tudo for dito e feito, vamos trazê-lo de volta à sua antiga glória.”

Ela disse que as tentações de captura do Estado eram esperadas.

“Há seres humanos que estão fazendo [isso] ao Congresso Nacional Africano”, disse. “Isso é o que acontece aos movimentos revolucionários…. e eu alertei sobre isso há 23 anos.”

Madikizela-Mandela tem esperança de que, por meio do judiciário, a glória do CNA possa retornar.

“Graças a Deus ainda temos um judiciário respeitável. É a única instituição que ainda é aceitável às massas”, disse, em uma alusão a outras partes do governo — tais como o Parlamento, o legislativo, a mídia — supostamente sendo capturadas.

Durante sua pesquisa para o documentário, Lamche descobriu informações sobre o assassinato de Seipei que ela revela para Madikizela-Mandela pela primeira vez durante nossa entrevista, e que a ativista considera “cruciais”.

Jerry Richardson, que confessou durante a Comissão de Reconciliação e Verdade ter recebido uma oferta de 30.000 rands para matar Seipei, disse a Henk Heslinger, policial branco trazido para as operações com o objetivo de desacreditar Madikizela-Mandela, que o estado do apartheid ainda lhe devia dinheiro pelo assassinato. Em 1994, Heslinger checou os dados e comprovou que as informações eram verdadeiras, decidindo assumir o compromisso de quitar a dívida. Richardson pediu que o dinheiro fosse convertido em um solitário de diamantes para uma mulher pela qual ele estava apaixonado.

A informação era importante para que Madikizela-Mandela esclarecesse os fatos.

“Até hoje a direita, mesmo o DA [Aliança Democrática, partido de oposição na África do Sul] para esse assunto, ainda continuam abusando dessa informação e nos chamando de todos os tipos de coisas”, afirmou.

Captura do Estado

Em setembro do ano passado, alguns meios de comunicação citaram Madikizela-Mandela dizendo que o CNA tinha “sérios problemas”. Ela não mudou sua posição. Mas, enquanto a maioria interpretou a afirmação como uma crítica contra a liderança do presidente Jacob Zuma, ela tem o cuidado de não apontar nenhum dos atuais atores que poderia culpar dentro do partido.

Madikizela-Mandela disse que já não reconhece o Congresso Nacional Africano.

Ela afirma que a corrupção no partido governista não faz parte do CNA pela qual ela lutou durante a batalha contra o apartheid.

“O CNA de nossos antepassados desapareceu”, disse. “Todos os dias você abre um jornal e há histórias sobre corrupção, captura do Estado, o CNA está tão capturado… Essas são as notícias que lemos hoje sobre meu CNA.”

Madikizela-Mandela disse que informou à liderança do partido que as coisas na mesa de negociações da Codesa, nos anos 90, não iam bem e acrescentou que esses problemas eram esperados. “Existem seres humanos que estão fazendo [isto] com o CNA”, acrescentou. “Isso é o que acontece aos movimentos revolucionários… E eu alertei sobre isso há 23 anos.”

“Nem um tolo pode fingir que não temos problemas”, disse Madikizela-Mandela. “Temos muitos, muitos problemas sérios. O CNA está com uma hemorragia.”

Madikizela-Mandela disse que viu as acusações de corrupção contra o partido como se fossem contra ela.

“Espero que, depois do sangue e da hemorragia, encontremos um antídoto em algum lugar”, afirmou.

‘Para o que lutamos?’

Madikizela-Mandela encerrou nossa conversa com uma mensagem de esperança para os sul-africanos e mais um impulso como a chamada mãe da nação.

“Estamos cientes de nossos graves desafios hoje”, disse. “As vidas das mulheres nunca foram tão baratas como são hoje”, acrescentou. “Os desafios de hoje são realmente uma mancha para o Congresso Nacional Africano. Para o que lutamos?”.

“Crianças são estupradas! Estas são as chagas da sociedade que vemos hoje, porque o CNA perdeu aquela imagem de proteger as massas”, avalia Madikizela-Mandela.

“Quero [enviar aos sul-africanos] uma mensagem de encorajamento e dizer a eles que nem tudo está perdido no Congresso Nacional Africano. Esperamos que, como remanescentes do Congresso Nacional Africano original, sejamos capazes de restaurar sua dignidade, sua antiga glória.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost África do Sul e traduzido do inglês.

 

http://www.huffpostbrasil.com/2017/07/14/winnie-mandela-abre-o-jogo-sobre-o-futuro-da-africa-do-sul-raci_a_23030488/

Anúncios

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

O Observatório

Este observatório é uma iniciativa do Grupo de Estudos Africanos vinculado ao Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (GEA/IREL-UnB), que busca refletir sobre a vida política, social e econômica da África contemporânea, com destaque para sua inserção internacional. Preocupando-se com o continente marcado pela diversidade, o Grupo de Estudos Africanos, por meio do Observatório, propõe um olhar crítico e compreensivo sobre temas africanos, em suas mais diversas dimensões.
%d blogueiros gostam disto: