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Angola, Cultura, Política

A longa e dura caminhada por uma vaga nas Universidades Angolanas

Domingos Mucuta | Capitão Aremes | Lubango
2 de Fevereiro, 2017

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Aos 22 anos de idade, Raimundo El-Shaddai faz a terceira tentativa para entrar para o Ensino Superior. Disputa com milhares candidatos uma vaga na Faculdade de Direito da Universidade Mandume ya Ndemofayo.

A casa onde vive, na cidade do Lubango, para onde se mudou há três anos de modo a ingressar no Ensino Superior, está apinhada de livros e fascículos e o computador sempre ligado à Internet.
O nome de Raimundo consta da já divulgada lista de candidatos. Agora, tudo depende dele para se tornar estudante universitário ainda em 2017. Trocou as andanças com amigos pelas aulas preparatórias com um grupo de colegas. Deita-se apenas depois das 3h00 da manhã.
Proveniente de Luanda, El-Shaddai quer jogar no seguro e fazer testes de acesso noutras instituições, mas a coincidência no horário dos exames impede essa intenção.

Insónias de Icha

Os candidatos ao ensino superior na Huíla estão focalizados nas aulas preparatórias para os testes. À medida que os exames de acesso se aproximam, aumentam as expectativas de quem luta por uma vaga na Universidade. Icha de Almeida tenta pela segunda vez ingressar no curso de Medicina na Universidade Mandume ya Ndemofayo.
De 21 anos, tomou “medidas radicais” para melhor se preparar. Deu um tempo ao trabalho e ao namoro. Toda a concentração está nos cursos preparatórios. Inscreveu-se nas Universidades Mandume, na Huíla, e Agostinho Neto, em Luanda.

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A técnica média em Ciências Físicas e Biológicas conta que os exames de admissão estão a tirar-lhe a calma e, sobretudo, o sono, devido à concentração e aos estudos intensos. Icha passa por momentos de insónia, mas espera que o sono perdido seja compensado com a entrada numa das opções. Começou as aulas preparatórias a 1 de Dezembro passado e diz que só descansa um dia antes dos exames.
Nzongo Armando candidata-se pela primeira vez ao Ensino Superior. Inscreveu-se no curso de Matemática no Instituto Superior de Ciências da Educação da Huíla. Está ansioso.
Com 23 anos, natural de Luanda, concluiu o Ensino Médio na escola secundária da Arimba, em Ciências Físicas e Biológicas. Nzongo quer ser professor de Matemática e considera de muita responsabilidade a preparação para o teste de ingresso.
As aulas preparatórias com os professores voluntários mobilizados pela JMPLA na Huíla registaram grande adesão. Dezenas de candidatos participam nas sessões, que decorrem desde princípios de Janeiro.
O espírito de voluntariado e o dever patriótico mobilizaram 145 professores de diferentes disciplinas, que dão aulas de matemática, história, língua portuguesa, física, biologia, psicologia, pedagogia, entre outras disciplinas.
O secretário provincial da JMPLA, Fernando Cativa, afirma que o objectivo é ajudar os estudantes a enfrentarem os exames de admissão com o mínimo de gastos possível. Estão definidos quatro turnos com horários flexíveis para facilitar os candidatos.

Orientação vocacional

Gabinetes ou disciplinas de orientação vocacional nas instituições do Ensino Médio podem ser a solução para minimizar as incertezas dos ­estudantes na escolha dos cursos a frequentar no Ensino Superior, defende o jornalista e psicólogo Estanislau Costa.
O psicólogo afirma que muitos estudantes terminam o Ensino Médio sem noção do curso ou especialidade a seguir no Ensino Superior por falta de acompanhamento das escolas de proveniência, o que aumenta as dificuldades de êxito nos testes de admissão.
Estanislau Costa entende que o acompanhamento dos estudantes permite identificar o potencial, as habilidades e a vocação dos mesmos em relação a determinadas disciplinas, a ajuda do tutor, facilita ao aluno a determinar os seus pontos fortes e fracos.
Quanto à ansiedade, o psicólogo considera que os candidatos são, à partida, tomados por uma componente  negativa na psique. Entre os factores de pânico, apontou o número elevado de pessoas que se inscrevem e a desconfiança  face à complexidade das provas, ausência de recursos financeiros para a reprodução de conteúdos e insegurança.
O estado de pânico aumenta à medida que se aproxima o “dia D”. Nesta fase, são determinantes para o sucesso o controlo da ansiedade e a auto-estima de cada um. “A auto-avaliação das capacidades, os novos conhecimentos adquiridos e estudos complementares devem estar focados na preparação.”
Estanislau Costa aconselha os candidatos a não desanimarem. Todos partem para o exame em pé de igualdade, visto que a oportunidade de ingressar é igual. “É necessário ir ao exame com a certeza de que é possível obter resultados positivos e ser admitido”, diz.

Dúvidas dissipadas

O número de candidatos às unidade orgânicas da Universidade Mandume é superior ao de vagas. Só os melhores ingressam. O vice-reitor para a Área Académica e Vida Estudantil, José Caluina, anuncia 1.796 vagas nos diferentes cursos ministrados em seis unidades orgânicas.
Das vagas disponíveis, 240 são para a Faculdade de Economia, 200 em Direito, 60 em Medicina e 620 para o Instituto Superior Politécnico da Huíla. A Escola Superior Politécnica tem 315 lugares   e a Pedagógica do Namibe 361 vagas.
Apesar do número de vagas ser insuficiente, regista-se um aumento de 157 novos lugares em relação ao ano anterior, altura em que a Universidade Mandume admitiu 1.639 novos estudantes. “Abrimos excepção aos filhos dos antigos combatentes, que devem apresentar documentos comprovativos da sua condição”.

Agregação pedagógica

Após ter lançado, no ano passado, o Centro de Estudos e Investigação Científica (CEIC), o Instituto Superior Politécnico Independente (ISPI) projecta para este ano o lançamento do Curso Técnico de Agregação Pedagógica como a inovação do plano curricular.
O Centro de Estudos e Investigação Científica visa promover pesquisa e publicação dos resultados de estudos académicos e de mercado, realização de workshops, palestras, lançamento de livros, apoiar a orientação de trabalho de fim de cursos dos estudantes e muito mais.
O estabelecimento dispõe este ano de duas mil vagas nos cursos de Ciências da Comunicação, Direito, Ciências de Educação, Finanças e Contabilidade, Sociologia, Gestão e Marketing, Informática e Gestão de Empresas e Engenharia Informática.
A instituição do ensino privado procura a cada ano dispor de serviços inovadores para atrair mais estudantes e diferenciar-se das demais escolas do ensino superior. O director-geral do Instituto Superior Politécnico Independente, Francisco Chocolate, refere que o Curso Técnico de Agregação Pedagógica tem a duração de um ano e coincide com o ano lectivo.
A formação, aberta a todos os técnicos superiores formados pelas instituições sem agregação pedagógica, vai ser ministrada por professores cubanos da Universidade Agostinho Neto (UAN) à luz da parceria existente.

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Situado na zona do Cristo Rei na cidade do Lubango, o Instituto Superior Politécnico Independente é a primeira instituição do Ensino Superior na Huíla a integrar uma biblioteca digital, inaugurada em 2014. Com um acervo de mais de três mil livros, teve um investimento na ordem dos 200 mil dólares.
O director-geral do ISPI sublinha a existência de protocolos de cooperação com a Direcção Provincial da Educação, Associação Agropecuária, Industrial e Comercial da Huíla (AAPCIL).
Os protocolos abrem oportunidades para os estudantes do curso de Ciências de Educação e de Gestão de Empresas realizarem estágios profissionais nas escolas do ensino geral e nas empresas filiadas na maior agremiação empresarial do Sul de Angola.
Francisco Chocolote disse  que o Instituto Superior Politécnico Independente tem   um convénio com a Rede de Mediatecas de Angola (REMA), que possibilita o registo e acesso dos estudantes ao acervo bibliográfico da Mediateca do Lubango.
Instalado numa área de 40 hectares, que oferece margem de crescimento infra-estrutural, o Instituto Superior Politécnico Independente  tem 27 salas para aulas e 172 docentes, dos quais 62 estrangeiros.

http://jornaldeangola.sapo.ao/reportagem/a_longa_luta_por_uma_vaga

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