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Angola, Cultura, Economia, PALOP, Política

Angola e Moçambique passaram 2016 em meio às crises e lutas por liberdade

Sem palavras não se fazem discursos, nem política, nem História. Conheça as candidatas a “palavra do ano” em Angola e Moçambique.

defaultAs palavras refletem o contexto social em que estão inseridas. Em Angola, depois de ser libertado, Luaty Beirão disse que, no seu país, “ninguém está em liberdade”

“Liberdade” é uma das candidatas a palavra do ano.

Em Angola, por exemplo, 2016 foi o ano em que a organização de defesa dos direitos humanos Amnistia Internacional pediu um julgamento justo para Rafael Marques, depois de o jornalista ter recorrido da sua condenação por denúncia caluniosa após publicar o livro “Diamantes de Sangue”. Dentro e fora do país, opositores continuaram a pedir “#LiberdadeJa” para os 15+2 ativistas acusados de preparar um golpe de Estado. E um deles, Luaty Beirão, disse que em Angola “ninguém está em liberdade”, mesmo depois de ser libertado, em junho. 2016 foi também o ano em que o rapper publicou o livro “Sou eu mais livre, então – Diário de um preso político angolano”.

defaultAtivistas angolanos acusados de prepararem um golpe de Estado contra o Governo de José Eduardo dos Santos 

“Liberdade” é uma das dez finalistas no concurso “palavra do ano em 2016”, não só em Angola como também em Moçambique. É a primeira vez que o concurso, organizado pelo grupo Porto Editora, se realiza nos dois países. A escolha das palavras finalistas em cada país baseia-se em estudos sobre a distribuição e frequência das mesmas, por exemplo, nos meios de comunicação e nas redes sociais. Até 31 de dezembro, os internautas angolanos e mocambicanos podem votar na palavra que consideram ser a mais importante do ano. As palavras vencedoras deverão ser conhecidas em janeiro.

Crise

A palavra “crise”, também foi uma das palavras mais ouvidas em Angola, devido à queda do preço do petróleo e à falta de divisas. Foi ainda uma das palavras que mais se usou em Moçambique para falar sobre o desequilíbrio das contas públicas e a desconfiança dos doadores internacionais, sobre bancos em falência e sobre o aumento dos preços dos produtos básicos.

“Se eu disser ‘crise’, qual será a primeira palavra que vem à sua cabeça? É como se a palavra ‘crise’ facilitasse o acesso que você tem ao adjetivo ‘financeira’, em muitos casos. Como estamos falando da palavra do ano, o priming lexical pode ser mais interessante e diz respeito justamente a como uma palavra facilita o acesso à outra palavra em nosso léxico mental”, explica o linguista e professor de português na Universidade de Hamburgo, Júlio Matias.

Em Moçambique, não se falou apenas de crise económica e financeira; falou-se também de crise político-militar.

defaultPreços dispararam em 2016, tanto em Moçambique como em Angola

 

O “diálogo” foi, por isso, uma palavra importante no país.

Durante 2016, os avanços e recuos no “diálogo” entre o Governo da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) e o maior partido da oposição, a Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), dominaram a agenda política. Mas a cessação efetiva dos confrontos tarda a chegar. E moçambicanos de diversas organizações da sociedade civil saíram às ruas a pedir paz.

“Temos um país onde temos divídas públicas escondidas; temos casos de perseguições a associações de direitos humanos”, disse Bayano Valy, da rede HOPEM – Homens pela Mudança, por ocasião de um protesto em junho de 2016.

“Paz” é, aliás, outra das candidatas a palavra do ano em Moçambique.

defaultManifestação pela paz em Moçambique reuniu sociedade civil e várias organizações

As palavras, a História e a cultura

As palavras resultam da cultura em que estão imersas em cada país e podem mudar de sentido, conforme os contextos sociais e históricos, segundo o antropólogo cultural Luis Felipe Hirano.

“Um bom exemplo de como as palavras mudam contextualmente é a palavra ‘cultura’. A palavra teve, inicialmente, o sentido de cultivar e, depois, no século XVI e XVII, ganha o sentido figurativo de ‘cultivar a própria pessoa’, de ‘cultivar o conhecimento’. Quem tem cultura é aquela pessoa que estuda, que tem acesso a leitura”, explicou Hirano à DW.

A “educação” também é uma palavra que os internautas poderão escolher em Moçambique. Outras palavras finalistas neste país são “mamparra”, “solidariedade”, “tchilar”, “txunar” e “dívida”.

Em Angola, as palavras finalistas são “candando”, “crise”, “diversificação”,  “kamba”,  “kandengue”,  “kínguila”, “kixiquila”, “paz”, “liberdade” e “esperança”.

Em Angola e Moçambique, os internautas podem votar, respetivamente, nas páginas www.palavradoano.co.ao e www.palavradoano.co.mz.

Com as palavras fazem-se discursos, política e História. Espera-se, por isso, que 2017 seja um ano cheio de palavras cada vez melhores.

 

http://www.dw.com/pt-002/liberdade-e-crise-entre-as-palavras-do-ano-em-angola-e-mo%C3%A7ambique/a-36954561

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O Observatório

Este observatório é uma iniciativa do Grupo de Estudos Africanos vinculado ao Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (GEA/IREL-UnB), que busca refletir sobre a vida política, social e econômica da África contemporânea, com destaque para sua inserção internacional. Preocupando-se com o continente marcado pela diversidade, o Grupo de Estudos Africanos, por meio do Observatório, propõe um olhar crítico e compreensivo sobre temas africanos, em suas mais diversas dimensões.
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