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Angola, Economia

Mulheres angolanas aprendem a gerir negócios

Casimiro José | Porto Amboim
8 de Novembro, 2016

Fotografia: Fernando Camilo

O projecto “Mulheres Empreendedoras”, executado em Porto Amboim, província do Cuanza Sul, pela organização não governamental Visão Mundial, em parceria com a Federação das Mulheres Empreendedoras (FMEA), teve resultados animadores nas comunidades.

A gestora de projectos de desenvolvimento económico da ONG no município, Ilda Chiyo, disse que, desde o início, em 2014, a iniciativa gerou rendimentos a famílias dos arredores de Porto Amboim, com destaque para viúvas  e mulheres com parceiros desempregados.
Financiado pela petrolífera Total, a primeira fase do projecto, que termina em Dezembro, permitiu elevar a capacidade das mulheres nas componentes de formação e de empreendedorismo. Ao todo, foram formadas 572 mulheres sobre metodologia de bancos comunitários, liderança comunitária e cultura corporativa, habilidades de negócios, técnicas de comercialização e desenho de planos de negócios.
Através de um acordo com a entidade financiadora, a Total, na base da adopção de um fundo de garantia, a agência do Banco Sol em Porto Amboim concedeu, durante três anos, créditos avaliados em 25,5 milhões de kwanzas a 150 mulheres empreendedoras em diversos segmentos de negócios, com destaque para a captura, processamento e comercialização do peixe, comércio e corte e costura. Cada mulher recebeu do Banco Sol um crédito de 170 mil kwanzas, para reembolsar em12 meses. O projecto criou 40 bancos comunitários que, com as poupanças feitas, geraram um capital de quatro milhões de kwanzas, cujo valor destina-se a apoiar mulheres com dificuldades para honrar os compromissos com o Banco Sol, bem como potenciar outras a terem acesso ao crédito bancário.

Resultados atingidos

Ilda Chiyo revelou que os resultados previstos pelo projecto superaram as expectativas. As beneficiárias directas rondam as 600 mulheres, enquanto os indirectos, entre filhos, maridos e outros membros das famílias, totalizam 4.800 pessoas. “É uma conquista e a realidade mostra quantos benefícios trouxe o projecto às comunidades”, frisou.
Durante a primeira fase, 322 mulheres receberam formação em bancos comunitários, 236 em liderança comunitária e cultura corporativa, 496 em habilidades de negócios e técnicas de comercialização e 159 em desenhos de planos de negócios.
Até ao  final deste período, a ONG pretende formar no município de Porto Amboim equipas de mulheres capazes de dar resposta aos desafios que o momento impõe.

Conhecer o mercado

Com as acções desenvolvidas na primeira fase do projecto, disse Ilda Chiyo, as mulheres passaram a acreditar que podem aumentar os seus rendimentos, através de planos de negócios viáveis, mobilizar as poupanças e, ao mesmo tempo, melhorar os investimentos, como premissa para um espírito empresarial e de crescimento.
Outro ganho para as mulheres empreendedoras foi a acumulação de conhecimentos sobre o mercado, a identificação de concorrentes, ­características dos clientes e custos envolvidos e fazer o registo de caixa todos os dias.
A formação sobre liderança visionária, governação interna e promoção da solidariedade entre as beneficiárias, bem como a realização de palestras sobre a prevenção de doenças infecciosas e a necessidade do saneamento básico nas comunidades foram outras valências adquiridas com o projecto.

Microempresas na forja

A gestora de projectos de desenvolvimento económico da Visão Mundial em Porto Amboim garantiu que, pelo sucesso alcançado na primeira fase, a seguinte vai consistir na criação de microempresas no seio das famílias, bem como criar conglomerados de negócios e ligá-los a firmas com maior domínio do mercado.
“As experiências positivas obtidas na primeira fase do projecto levam-nos a pensar em coisas maiores, a começar pelas microempresas familiares, e procurar inseri-las nas que possuem experiência e domínio do mercado para que caminhem juntas e com o propósito de satisfazer o bem-estar das pessoas envolvidas e das comunidades, em geral”, disse.
Outro desafio para a segunda fase são o estudo e o diagnóstico para replicar o projecto noutras áreas.

Força garante sucesso

O coordenador de fundos junto dos doadores e representante da Visão Mundial na Suíça, Dominik Sckweizer, que visitou a região para uma pré-avaliação do impacto da primeira fase do projecto junto das comunidades, reconheceu a valentia das mulheres neles inseridas e adiantou que devem ser dados apoios a esta franja da sociedade, que representa a maioria da população.
“As mulheres e outras franjas da sociedade angolana têm energia e força anímica para prosperar. O que falta são apoios ou acessos a oportunidades”, disse. Adiantou que, durante as visitas às províncias de Luanda, Huambo, Benguela, Bié e Cuanza Sul, onde a Visão Mundial intervém em projectos comunitários, os dados mostram uma realidade diferente do que é disseminado no estrangeiro sobre a alegada pobreza em Angola.
“É verdade e não devo negar que a pobreza existe em Angola, mas muitos comentários não reflectem a realidade do país, porque vejo uma força enorme das pessoas quando são apoiadas”, afirmou. Nos locais por onde passou, disse ainda, há um engajamento maior para suprir as necessidades.

Beneficiárias satisfeitas

Os resultados superaram as expectativas da primeira fase do projecto. Na sua maioria, as beneficiárias falam em sucesso nos negócios. Laura Marques disse ao Jornal de Angola que há dez anos escala e vende peixe seco. Ingressou no projecto da Visão Mundial em finais de 2014 e fala em progressos.
“Antes, comprava peixe fresco, escalava para secar e vendia nos mercados do município e em Luanda. Mas nem tudo corria bem, porque não tinha recursos financeiros suficientes para fazer face às variações do mercado. Desde que ingressei no projecto, recebi crédito no Banco Sol e o dinheiro permitiu alargar o meu negócio. O meu lucro mensal actual é de 50 mil”, disse.
Um ganho maior foi da sua capacitação sobre como gerir os empreendimentos. “Estou satisfeita, porque antes enfrentava muitas dificuldades por falta de dinheiro e conhecimentos sobre a planificação e gestão dos meus negócios”, reconheceu.
Com os 170  mil kwanzas do crédito que obteve através do projecto “Mulher Empreendedora”, Maria Emília Pascoal abraçou o comércio precário e afirmou estar à altura dos desafios para se impor no mundo dos negócios. Compra em supermercados de Porto Amboim e vende-os no bairro Cawila, arredores, onde reside.
Começou a sua actividade em 2002, mas o sucesso só veio com o crédito recebido, através do projecto levado a cabo pela Visão Mundial. “É  uma alegria muito grande ter sido contemplada no projecto, onde recebi crédito e formação, sendo uma oportunidade para ver o meu sonho realizado. O crédito beneficiou não só a mim, mas a minha família, pois o abalo com a morte do meu esposo foi minimizado com o negócio que faço”, frisou.
Maria Emília Pascoal deixou um recado a outras mulheres: “Todas as que tiverem vocação empreendedora devem aproveitar as oportunidades que surgem para aprender sobre rendimentos, lucros e poupança”.
Com o crédito recebido, Aba Cardoso passou a sonhar alto. “Sinto-me à altura de pensar em projectos grandes, porque, com os lucros que fui acumulando, comprei um terreno por 500 mil kwanzas e penso construir uma hospedaria”, disse.
Emília dos Santos afirmou que dá graças à iniciativa por tudo o que tem. “Não sei o que seria de mim se não abraçasse o projecto. Consigo sustentar os meus quatro filhos e atender as despesas escolares com eles e comigo, porque também estudo”, concluiu.

http://jornaldeangola.sapo.ao/reportagem/mulheres_aprendem_a_gerir_negocios_1#foto

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O Observatório

Este observatório é uma iniciativa do Grupo de Estudos Africanos vinculado ao Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (GEA/IREL-UnB), que busca refletir sobre a vida política, social e econômica da África contemporânea, com destaque para sua inserção internacional. Preocupando-se com o continente marcado pela diversidade, o Grupo de Estudos Africanos, por meio do Observatório, propõe um olhar crítico e compreensivo sobre temas africanos, em suas mais diversas dimensões.
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