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Moçambique:“Os mediadores não são os donos do nosso problema”

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Afonso Dhlakama diz que cabe ao Governo e à Renamo devolver a paz e não aos mediadores. Numa entrevista ao “O País”, o líder da Renamo confirma a autoria de todos os ataques no país e garante que tem controlo dos seus homens

 

Nos últimos tempos, temos estado a assistir à intensificação dos ataques nas zonas centro, norte e sul do país. Qual é o objectivo da Renamo? Será para reforçar a sua influência no diálogo político?

Não cessámos fogo, o conflito militar continua. Esta é uma forma que encontrámos para obrigar as forças governamentais a espalharem-se. No momento, encontram-se concentradas na região da Gorongosa. A ideia era irem defender onde há operações da Renamo, porque sabem que a Renamo se limita apenas a defender-se. São estratégias militares, isso não significa espalhar a guerra, porque ela acabou em 1992.

 

Ao longo da guerra, a Renamo dizia que atacava para se defender. Neste momento, não podemos dizer a mesma coisa…

A razão continua a mesma. A forma de fazer com que a concentração reduza na zona de Gorongosa é fazer operações militares em outros cantos do país. A título de exemplo, alguém pode atacar-te em Marracuene e você pode responder em Xipamanine, portanto, isto é autodefesa. Eu gostaria que isto fosse resolvido, porque nós não queremos guerra. Se quiséssemos guerra, estaríamos a atacar em Maputo, para causar mais preocupação, tal como o Presidente da República manda atacar a região da Gorongosa, onde eu vivo.

 

Qual foi a contraproposta do Governo para a governação das seis províncias por parte da Renamo?

Até ao momento, não há nenhuma contraproposta por parte do Governo, pelo contrário, oGoverno disse que era impossível, inconstitucional e nem sabia explicar. Através do Jacinto Veloso, às vezes, o Governo tentava saber se haverá ou não independência nessas províncias e como elas irão funcionar, mas ainda não há nenhuma contraproposta. As sessões do diálogo decorreram durante uma semana apenas e a equipa do Governo limitava-se a dizer que era impossível, que as eleições de 2014 não eram para eleger governadores, mas sim para eleger deputados, membros das assembleias provinciais e Presidente da República. Nós limitámo-nos a dizer que o Presidente Nyusi não ganhou as eleições, embora tenha tomado posse, e que queríamos um meio-termo.

 

Tem falado com o Presidente da República, Filipe Nyusi?

Não. Falámos há um mês, daquela vez que aceitou a mediação internacional. Não voltámos a falar até hoje.

 

Por que é que os mediadores abandonaram o diálogo e só voltam esta semana?

Não, não abandonaram o diálogo, a interpretação não é bem assim. Quando saíram dos países de origem, talvez tenham calculado que o assunto fosse leve e que em uma semana conseguiriam mediar e resolver logo. Deve ter sido o problema da logística, não tenho provas, mas quero acreditar que a logística tenha influenciado. Não fugiram, despediram o coordenador. Acredito que na segunda-feira vão retomar o debate.

 

O que é que os mediadores têm estado a dizer ao líder da Renamo?

Os mediadores não são os donos do problema que o país atravessa, eles falaram com o Presidente da República e pediram para falar comigo. Como estou na Gorongosa, deslocaram-se ao meu gabinete e falei com eles telefonicamente sobre os pontos que a Renamo pretende e aconselharam a que as duas partes se aproximem.

 

A falta de contacto com o Presidente da República não será uma das razões que faz com que os ataques se intensifiquem a cada dia que passa?

Não, porque não tem sido a rotina. No mês passado falámos, mas não tem sido frequente.

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Qual é o projecto que a Renamo tem para o país?

A Renamo é um partido político. O pouco da democracia que existe em Moçambique é graças à luta da Renamo. É um projecto que vem desde 1977. Entre 75 e 77, a Frelimo era o único partido, desenvolvia as aldeias comunais, execuções, fuzilamentos, tribunais revolucionários, entre outros. Isto tudo a Renamo juntou como projecto e criou a democracia. A Renamo forçou a Frelimo a ir até Roma para assinar os acordos de paz.Infelizmente, a Frelimo não aceitou o projecto político da Renamo, mas continuamos a lutar por uma democracia multipartidária, Estado de direito, as instituições devem ser fortes, as eleições devem ser livres e transparentes, os tribunais devem funcionar. As forças não pertencem aos partidos, como a Polícia, Forças Armadas, o desenvolvimento económico e emprego para a juventude. Que haja unidade nacional, não apenas nas palavras, que as pessoas de diversas regiões do país se sintam irmãos e que haja desenvolvimento, sobretudo a paz, este é o projecto político da Renamo.

 

Dhlakama disse que não tinha nenhum problema com a Vale, entretanto, voltou a atacar a empresa.

Esta é uma estratégia, porque a mineradora dá dinheiro à Frelimo, não sei quantos milhões a Vale gasta. A Frelimo recebe e este dinheiro não vai para o desenvolvimento do país, muito menos para a zona centro, o dinheiro vai para compra de armamento. Quando morrem pessoas, só a família reclama, mas quando um comboio é atacado, vêm vários apelos de toda a parte.

 

Há registo de ataques a unidades sanitárias nos distritos por parte da Renamo.

A Renamo nunca atacou postos de saúde, o que pode acontecer é a Renamo atacar quartel, posições militares. Por vezes, quando vamos a uma ofensiva militar, calha estarmos perto de uma unidade de saúde e, por vezes, há troca de tiros. A Renamo nunca planeou ir atacar um posto de saúde.

 

O líder da Renamo tem controlo de todas as operações?

Não sou chefe de Estado-maior, sou líder político. Tenho conhecimento de que as nossas forças, quando são atacadas, defendem-se. Também planeiam operações antecipadas, para evitar que sejam esmagadas. Posso não ter o controlo, mas dirijo a Renamo desde 1977 e conheço todos os comandantes. Posso não saber o que se passa em cada combate, em cada dia, porque não é meu papel.

 

Como está a sua saúde? Vai candidatar-se a Presidente da República nos próximos pleitos eleitorais?

De saúde estou bem. É claro que as pessoas sempre inventam que eu estou doente. Posso apanhar malária, ter febre, enfim, eu estou bem. Espero que as negociações aconteçam, para voltar a andar livremente. Estou confinado já há algum tempo.

 

Vai recandidatar-se nos próximos pleitos?

Não sei, isso depende do partido Renamo. Se o partido achar que sou válido, ainda posso fazê-lo. Eu não mando em mim e não tenho preocupação em me candidatar. O importante é trazer a paz e democracia.

Tem algum sucessor à vista?

Não sou régulo. O meu pai é régulo e já sei que quando morrer um dos filhos vai substitui-lo, porque é o poder tradicional. No poder político não se fala de quem vai substituir, quem vai decidir é o partido.

 

Está a criar condições para ser substituído?

Tal como afirmei, nós somos um partido democrático, realizamos congressos, temos os órgãos e eles é que deliberam.

Assim que os mediadores chegarem a Maputo, há possibilidade de eu dar tréguas na região de Gorongosa, quando as forças governamentais se afastarem.

 

http://opais.sapo.mz/index.php/entrevistas/76-entrevistas/41525-os-mediadores-nao-sao-os-donos-do-nosso-problema.html

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Este observatório é uma iniciativa do Grupo de Estudos Africanos vinculado ao Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (GEA/IREL-UnB), que busca refletir sobre a vida política, social e econômica da África contemporânea, com destaque para sua inserção internacional. Preocupando-se com o continente marcado pela diversidade, o Grupo de Estudos Africanos, por meio do Observatório, propõe um olhar crítico e compreensivo sobre temas africanos, em suas mais diversas dimensões.
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