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Angola, Brasil – África

O olhar angolano sobre a crise brasileira:”Era Uma Vez o Brasil” ou a narradora Carla Guimarães”

DILMA RECEBE PRIMEIRO-MINISTRO FRANCÊS NO PLANALTOLuís Alberto Ferreira | *
20 de Maio, 2016

A brasileira Carla Guimarães reside na capital de Espanha, Madrid. É escritora e dedica-se também ao jornalismo. Quando escreveu o seu “manifesto” intitulado “Era Uma Vez Um País Chamado Brasil”, publicado por um órgão habilidoso da imprensa espanhola,

Carla Guimarães não suspeitaria ainda que os novos “governantes” brasileiros expelidos pelo golpe de Estado contra Dilma Rousseff iriam eliminar o Ministério da Cultura.

Com ou sem ditadura militar, o encerramento do ministério da Cultura teria desencadeado a ira e a indignação de pessoas de distintas épocas da vida brasileira. Por exemplo, Euclides da Cunha, autor de um livro fascinante, “Os Sertões”, publicado  em 1902. Euclides, que esse livro tornou célebre, trabalhou como poucos as grandes possibilidades que um idioma oferece, fez da obra um admirável exercício multiforme que liga entre si universos tão diversos, ou coincidentes, como a geologia, a filosofia, a antropologia e a sociologia, também a história do Brasil.

A eliminação de um ministério da Cultura num país como o Brasil, longe ainda da realização plena de um projecto de nação para todos, muito nos diz do registo mental e curricular de Michel Temer, porventura o brasileiro mais empenhado no derrube do Executivo presidido por Dilma Rousseff. “Era Uma Vez Um País Chamado Brasil”oferece-nos não só indicadoresda leitura que da actualidade brasileira faz Carla Guimarães. Assegura-nos outros referentes– as mentalidades, o passado que não “melhora” a visão dos que o desejam eterno, a luta de classes, as reminiscências psicológicas das diferentes formas de colonialismo que a ditadura militar, primeiro, e alguns governantes, depois, agravaram num país de território imenso e às vezes sujeito de inobjectável atraso.
É interessante e devemos mesmo reter o que a escritora e jornalista brasileira recorda de vivências no seio da própria família. CarlaGuimarães nasceu em Salvador da Baía e seu tio “chamava revolução à chegada dos militares ao poder”. A perplexidade, ou espanto, de Carla Guimarães, teria sido a de João Goulart, ou a de Juscelino Kubitschek de Oliveira, que na área presidencial conheceram os alçapões que agora afastaram Dilma Rousseff da Presidência.

“Os grandes meios de comunicação do Brasil”, sublinha a escritora e jornalista, “que pertencem a um pequeno grupo de famílias, criaram o que o que se poderia chamar a dramaturgia do “impeachment”: existe um Governo corrupto, o povo pede a sua demissão nas ruas, o Congresso derruba a Presidente e o Brasil volta a ser o país do futuro. “Para esses meios”, prossegue Carla, “o Partido dos Trabalhadores (PT) não só era o culpado da corrupção mas, também, a causa de todos os males do Brasil. (…) A história narrada pelos meios de comunicação e defendida nas ruas era quase perfeita, não fora um pequeno detalhe: Dilma Rousseff não está acusada em nenhum caso de corrupção. No entanto, muitos dos responsáveis pelo avanço do processo de “impeachment” sim, estão acusados. É o caso do ex-presidente do Congresso, Eduardo Cunha; do presidente do Senado, Renan Calheiros, e do próprio vice-presidente, Michel Temer. Este último foi condenado pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo por fazer donativos de campanha acima do limite legal e não poderá (não poderia) candidatar-se a nenhum cargo público num período de oito anos. Temer acaba de ser nomeado presidente interino da República do Brasil”, remata Carla Guimarães.
A escritora da Baía tece, ainda, outras considerações, um trecho das quais nos ajuda a melhor entender mais cenáriosdo gravíssimo problema e mau exemplo em curso no Brasil: “Talvez um dos maiores erros do partido de Dilma e Lula haja sido o ter-se deixado absorver pela política tradicional brasileira. Depois de tantos anos no poder, o PT já não era tão próximo dos movimentos sociais que o apoiaram e estava dedicado em absoluto ao jogo político. Dilma ganhou as últimas eleições com o apoio do PMDB de Michel Temer, Eduardo Cunha e Renan Calheiros. Um partido de direita, o PMDB, que sempre esteve próximo do poder e que agora encontrou uma maneira de o tomar”. A constante das interpretações desta brasileira a residir em Espanha mas sempre de visita ao seu país volta a aparecer, entretanto, na sua narrativa (“Era Uma Vez Um País Chamado Brasil”): “Apesar da decepção com o PT, nos últimos meses milhares de pessoas saíram à rua para denunciar o golpe. Algo que não estava no guião redigido pelos grandes meios de comunicação. Movimentos sociais, sindicatos, líderes indígenas, personalidades do mundo da cultura e cidadãos de várias origens sociais manifestaram-se contra o “impeachment” em diversos actos ao longo do país. A cor predominante nesses protestos era o vermelho, réplica ao verde e amarelo nas marchas anti-Dilma. Eu participei numa manifestação (de brasileiros) em Madrid. Éramos quatro gatos protestando na “Puertadel Sol”, mas tínhamos a sensação de fazer parte de algo maior. Sentíamo-nos parte do enorme movimento de luta pela democracia que vai tomando o Brasil. Mais que as siglas, unia-nos a indignação de ver tantos políticos involucrados em casos de corrupção votando a favor do “impeachment” da Presidente, em nome, paradoxalmente, da luta contra a corrupção. Também nos unia a sensação de que o Governo de Dilma não estava sendo julgado pelos seus erros, sim pelos seus acertos. Durante os 12 anos de Governo do PT, cerca de 40 milhões de pessoas saíram da pobrezae a população historicamente excluída ganhou espaço dentro da sociedade. O partido mudou uma história de mais de 500 anos de desigualdade. Quiçá por isso, ganhou quatro eleições seguidas. Por último, a direita percebeu que lhe custaria muito recuperar o poder nas urnas (…). Os que agora assumem o Governo representam os interesses dos grandes latifúndios, da indústria das armas, das igrejas evangélicas e talvez de muitos políticos e grandes empresários aos quais conviria que as investigações dos casos de corrupção acabassem já e sem grandes consequências”.
Eis a narrativa da escritora baiana Carla Guimarães.

(*) Luís Alberto Ferreira é o mais antigo jornalista angolano no activo

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Este observatório é uma iniciativa do Grupo de Estudos Africanos vinculado ao Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (GEA/IREL-UnB), que busca refletir sobre a vida política, social e econômica da África contemporânea, com destaque para sua inserção internacional. Preocupando-se com o continente marcado pela diversidade, o Grupo de Estudos Africanos, por meio do Observatório, propõe um olhar crítico e compreensivo sobre temas africanos, em suas mais diversas dimensões.
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