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Angolanos criticam o golpe no Brasil

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O “Programa do Jô” e o milagre do Senado em Brasília

Luis Alberto Ferreira |*
16 de Maio, 2016

Quem já viu, e ouviu, na “Globo”, o “Programa do Jô”, deve ter retirado, calculo, as indispensáveis e naturais conclusões. Apuradas ou refinadas, nos últimos dias, pelo espectáculo de alguns “directos”.

“Directos” que a turba agradece, dado que o “Programa do Jô” nos impinge, volta e meia, frascaria e enlatados “fora de prazo”: programas de 2014, ou 2013, exibidos na actualidade – na nossa actualidade, porque a noção temporal e estética que a “Globo” tem da actualidade é exclusivo seu.
Ora, qual é então o assunto? O “Programa do Jô”, de facto. Como ponto de partida. Na tradição ou circunstâncias desta coluna, o assunto decorre, em suas motivações muito explícitas, do interesse que ao longo de decénios me merece a América Latina. Esta é apenas mera parcela das Américas, que costumo rotular de Amerrikúa, o nome que as culturas e civilizações de raiz aborígene atribuem ao Continente Americano, Estados Unidos e tudo o mais incluídos. Porque os apaches, os sioux e outras etnias índias norte-americanas não foram “mercadoria” exportada da Europa dos séculos XVI, XVII ou XVIII.
Para os mais atentos – à História, à Sociologia, à Geopolítica… – o “Programa do Jô” reúne todos os tiques, “fantasias” e ademanes ou trejeitos de um nacional-porreirismo que se vai esgotando, minuto a minuto. E não é só pela esclerose da habituação, da costumança. É, sobretudo, pela sucessão dos lances aglutinantes de “venenos” do obscurantismo e da hábil distorção da vida real e dos factos mais incontroversos. Nos fluxos variáveis de convidados de Jô Soares a constante não são os cientistas, os transmissores de uma coisa chamada conhecimento, ou os agora chamados criativos. A constante são as “mininas”, as modelos– de preferência as que possam falar de Nova Iorque, Paris, Londres, porque o “Jô” logo nos diz que também já lá esteve, conhece recônditos de museus e restaurantes, marcas de vinhos e conhaques, ele trata por tu os cadáveres de muitas eminências e de muitos pulhas e, enquanto isso, lá vai a mãozinha do “gordo” profissional deslizando para a perninha da “minina”, lá vai beijoca mais, nunca menos, lá vai piada mais ou menos caquéctica ou a frequente exclamatória atiradiça do “você é um homem muito bonito”, quando de convidados varões se trata.
Em Jô Soares, inefável piadista-humorista, ou vice-versa, oriundo de famílias dinheirosas e vinculadas ao anfiteatro do “repovoamento” e da “ocupação” definitiva do Brasil,o necessário Portugal é objecto de uma admiração mais ou menos de condescendência e cheirete a caravelas. O inverno da Beira Alta recorda-lhe as noites frias e as lareiras acesas em Ouro Preto, não a frieza selvícola do despedaçamento do Tiradentes (Joaquim José da Silva Xavier), ali assassinado com “requintes” de barbárie dantescos pela maquinaria repugnante da “ocupação” e do “repovoamento”. (Menos mal: como nos conta a repórter lusitana Alexandra Lucas Coelho, que percorreu o Brasil de lés-a-lés, Ouro Preto é hoje emblematizada por uma universidade frequentada por cerca de 12 mil estudantes, “a maioria vinda do interior mineiro ou paulista, da própria São Paulo e também do Rio”).
Numa das suas versões mais recentes, o “Programa do Jô” – da “Globo”, enfim – traduziu-se em parte intrínseca e reveladora de um até há pouco desconhecidíssimo manancial milagreiro: o Santuário de Nossa Senhora do Senado Brasileiro, com altar-mor em Brasília mas estribado em incontáveis filiais no reino do “Eu juro por Deus, por minha mulher, meus filhos, meu gato e meu papagaio”, encadernador do celebérrimo “voto contra” a Presidente Dilma Rousseff– e preparatório da golpada do inacreditável MichelTelmer. Nessa versão do “Programa do Jô” foi-nos vendida uma “marca” preferida e pessoalíssima do humorista-piadista: “As mininas do Jô”, quatro ou cinco “jornalistas” da rede “Globo”, do sexo feminino, que ali divulgaram, sabichonas, o seu “manifesto do patrão” – contra o magistério de Dilma, na altura ainda em funções. As “mininas do Jô”, nada preocupadas com o “acordo desortográfico” – de que nos fala, também, Alexandra Lucas Coelho – peroraram a seu bel-prazer sobre matérias de todo subjectivas, tão subjectivas quanto as decisões de um Governo que, em busca de paliativos, engenharias ou cirurgias técnico-financeiras, incorre em eventuais ou provadas inobservâncias normativas. Esta é uma prática que se conhece de vidas venturosas, ou infortunadas, de muitíssimos Governos do planeta. Maquilhagens e expedientes em sede económica, fiduciária, orçamental, conhecem-se de Governos da Europa e dos Estados Unidos que, em tempos bons ou menos bons, passaram a sorrir pelo crivo dos máximos rigores das diferentes ortodoxias de regulação.
Numa área, a do Santuário de Nossa Senhora do Senado Brasileiro, que se reclama da “ética” e do “rigor”, impendem cobranças de uma transparência inexistentes no manobrismo que levou a este milagre desnorteador, porassombroso: carrega-se num botão, porventura mágico, e desbanca-se, em benefício do infractor, um Presidente eleito de facto em escrutínio de todos. Este é um grito de guerra de óbvia decifração. Há uma estratégia, um “pacote para as Américas”. Contra o Brasil de Dilma ou Lula da Silva. Contra o Equador de Rafael Correa. Contra a Bolívia de EvoMorales. Contra a Venezuela de Nicolas Maduro e do Projecto Bolivariano. Contra a Cuba de Raúl Castro. A tal ponto que a República do Equador, há pouco desmantelada por novo terramoto – e de imediato socorrida pela República da Venezuela – assiste à subestimação, pela imprensa “ocidental”, dos seus titânicos e impressionantes exemplos de coragem, tenacidade, amor próprio e solidariedade nacional. Olhando o que é na verdade o verdadeiro e obediente “pátio traseiro do Tio Sam”– México, a “nova” Argentina, Chile, Colômbia,Guatemala, Honduras, etc.– logo identificamos a multinacional inventora do mágico botão electrónico que permite, num instantinho, defenestrar um Presidente legitimado pelo voto popular. Milagre! E um “lindo exemplo”, também.

(*) Luis Alberto Ferreira é o mais antigo jornalista angolano no ativo

 

http://jornaldeangola.sapo.ao/opiniao/as-subesferas/o_programa_do_jo_e_o_milagre_do_senado_em_brasilia

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Este observatório é uma iniciativa do Grupo de Estudos Africanos vinculado ao Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (GEA/IREL-UnB), que busca refletir sobre a vida política, social e econômica da África contemporânea, com destaque para sua inserção internacional. Preocupando-se com o continente marcado pela diversidade, o Grupo de Estudos Africanos, por meio do Observatório, propõe um olhar crítico e compreensivo sobre temas africanos, em suas mais diversas dimensões.
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