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Economia, PALOP

Empresários portugueses em Moçambique. “O dinheiro não gosta de ruído.” Estamos juntos?

Marcelo e Nyusi brindam a mais investimento. Os empresários portugueses que estão em Moçambique dizem que está tudo calmo, mas alertam para os riscos da turbulência. Esperam ser apenas uma fase.

JOÃO RELVAS/LUSA

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Um empresário português diz que “o dinheiro não gosta de ruído”, dos tiros das armas, da instabilidade social. Outro conta como um dos seus camionistas passou uma noite numa estrada em guerra, e foi pacífico. Os portugueses que investem em Moçambique acham que tudo se vai compor, por terem a consciência de que os negócios ali são uma longa corrida. Marcelo Rebelo de Sousa e Filipe Nyusi juntaram os gestores num almoço.

A expressão é muito moçambicana e usada como cumprimento simpático, para fim de conversa: “Estamos juntos”. É esta a facilidade e despreocupação que Marcelo quer ver mantida na relação das empresas portuguesas com Moçambique, que já dura desde a década de 90. Em Maputo, o Presidente da República vai garantindo “empenho no investimento” no país, que “é para continuar e é para aumentar”. Mas a instabilidade local é uma realidade política, e também económico-financeira. Em que medida afeta quem põe dinheiro em Moçambique? Estamos mesmo juntos?

A resposta pronta vinda dos empresários portugueses no terreno não surpreende. Afinal, negócio é negócio e eles são os primeiros interessados em não dar corda a pessimismos. Ali, no almoço promovido com empresários pelos presidentes de Portugal e Moçambique estão, sobretudo, os que já estavam presentes no país (alguns deles há vários anos). “Isto é fantástico”, garante Tiago Mendonça da Betar, empresa portuguesa instalada em Moçambique especialista em engenharia civil pontes e viadutos. Tiago já está em Moçambique há 20 anos e garante que não se deixa impressionar pelas notícias (até diz que deixou de as ver). Ri-se, e apresenta ao Observador aquele que é, como ele, também vice da Câmara do Comércio de Moçambique Portugal, “este homem é que tem histórias incríveis aqui”.

Alexandre Ascensão, empresário todo-o-terreno, tem negócios na construção civil, imobiliário, corretagem de seguros e logística. É alentejano, está em Moçambique desde 1997 e vai pouco a Portugal, mas não perde o sotaque. Tem otimismo semelhante ao de Tiago Mendonça e histórias para justificar que não há problemas ali. Perguntamos pelo conflito, no norte e centro do país, e se afeta ambições de quem investe dinheiro. “Você vê aqui alguma coisa?”. Os braços rodam à volta. Estamos no hotel Avenida, onde Marcelo acabara de almoçar com cerca de 150 empresários portugueses e moçambicanos, na zona nobre de Maputo, em plena Avenida Julius Nyerere — uma artéria tão central da cidade que boa parte da visita de Estado passa por ela.

O país é enorme (quase 9 vezes maior do que Portugal). Maputo, centro dos negócios, está na ponta Sul ose conflitos estão a muitos quilómetros dali. Mas Alexandre garante que trabalha “no país inteiro” e dá exemplos para desmistificar a existência de riscos, como aquele em que um dos seus motoristas estava a transportar carga no troço entre Caia e Inchope e ligou-lhe preocupado. Ali só se circula em coluna militar, por ser uma zona quente do conflito que opõe Renamo ao exército moçambicano. Por vezes pode surgir um azar:

O camião avariou e teve de ficar na estrada [no troço dos conflitos com Renamo] durante a noite. Fui dormir, não fiquei aflito que o queimassem”, diz o empresário Alexandre Assunção

No dia seguinte ligou o motorista e estava tudo bem. “Nem todos os dias há ataques”, remata.

“Este país é calmo e tranquilo e vai continuar a atrair pessoas para viver aqui”, garante o sócio-gerente da Betar. A sua empresa projetou a Nova Katembe, na outra margem da baía de Maputo, que está a ser ligada por uma ponte (o engenheiro civil tem várias pontes da sua autoria pelo país) também por si planeada. O projeto é a menina dos seus olhos, foi ao almoço com o prospeto debaixo do braço e mostra com orgulho o “maior projeto urbano de África”: “Uma nova zona urbana para 400 mil pessoas”, que espera poder ver arrancar dentro de um ano. A ponte, que já está em obra, estará pronta “entre o final de 2017 e o início de 2018”.

Uma hora antes, tinham estado a ouvir Marcelo Rebelo de Sousa vender a ideia de que investir “trará um retorno a quem acreditar neste grande país”.Carlos Palhares, CEO da Mecwide, também o ouviu e mais: preparava-se para levar o Presidente a visitar as instalações da fábrica que está a instalar em Boane (a cerca de 50 km de Maputo). A empresa de metalomecânica originária de Barcelos está em Moçambique há três anos — já o conflito político-militar estava no terreno — e trouxe 5 milhões de euros para investir. Diz ao Observador que não está assustado com conflitos ou a suspensão de apoio financeiro dos doadores ao país, apesar de admitir que isto “retrai o ambiente de negócios”. “O dinheiro não gosta de ruído”, atira mas para logo a seguir garantir que a Mecwide “não veio para ficar três meses, mas com um projeto industrial”.

Acreditamos que Moçambique vai encontrar o caminho rapidamente e que não quer problemas”. É a esperança do CEO da Mecwide.

Na Petrogal Moçambique a perspetiva vai no mesmo sentido. A petrolífera portuguesa está no país desde 1957, assistiu ao fim do período colonial, a 16 anos de guerra civil. “O país já passou por momentos muito difíceis, este é difícil mas será resolvido”, diz Paulo Varela, diretor da empresa que está em Moçambique há 20 anos, tendo passado também pela Visabeira ao longo destes anos. No entanto, a “situação preocupa” e está a ser seguida “atentamente”, mas sem alterações de planos de investimento.

O empenho de Marcelo não é por acaso. O Presidente sabe que há menos portugueses a investir num país que levanta problemas de que outros empresários preferem não falar publicamente, mas que passam pelo funcionamento do país, a falta de agilidade legal e a corrupção. Há também episódios de empresas apreensivas com a polémica da dívida e as consequentes suspensão dos apoios internacionais, que podem ser fatais para uma economia já frágil, que enfrenta ainda uma crise de divisa. Isto além da seca a Sul, das cheias a Norte.

Bruno Bobone, o Presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa, garante que “os empresários não se assustam, tomam decisões em função das perspetivas que têm” e que “são essencialmente otimistas, senão não investiam em lado nenhum, no entanto, assume que “nestas alturas em que há turbulência há menos decisões de investimento”.Também esteve no almoço e diz, ainda assim, ter saído com “esperança que as coisas se vão resolver” no país, até porque “Portugal precisa” dele.

Moçambique é uma maratona. Não é chegar aqui e vencer, é preciso saber estar aqui”, avisa Tiago Mendonça.

O Presidente de Moçambique deu essa garantia aos empresários e acrescentou que é um país “facilitador” de negócios para quem quer investir. Sem esquecer os pontos sensíveis para a plateia ali presente, como o da“consolidação da paz e estabilidade”: “Sabíamos ser uma mensagem que os nossos empresários esperam”. Mas também a garantia de que “os moçambicanos não estão desesperados, continuam empenhados em manter estáveis os desafios da economia”.

Antes dele, Marcelo apelou à “resiliência, quando as conjunturas apresentam maiores constrangimentos”. Mas o caminho, avisa quem sabe, será sempre para resistentes, mesmo que não haja turbulência. É uma maratona.

http://observador.pt/2016/05/05/empresarios-mocambique-dinheiro-nao-gosta-ruido/

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O Observatório

Este observatório é uma iniciativa do Grupo de Estudos Africanos vinculado ao Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (GEA/IREL-UnB), que busca refletir sobre a vida política, social e econômica da África contemporânea, com destaque para sua inserção internacional. Preocupando-se com o continente marcado pela diversidade, o Grupo de Estudos Africanos, por meio do Observatório, propõe um olhar crítico e compreensivo sobre temas africanos, em suas mais diversas dimensões.
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