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As asas do sul, uma da paz e a outra do desenvolvimento

 

José Flávio Sombra Saraiva*

 

A presidente Dilma atravessa, pela segunda vez em seu governo, as asas do Atlântico Sul na direção do continente ribeirinho. O pretexto é a cúpula América do Sul-África, cuja sigla é exatamente ASA. Pode parecer romântico o voo oceânico de aproximação a tantos países que, junto a América do Sul, conforma um dos maiores conglomerados demográficos da Terra, quase um bilhão e meio de habitantes.

O retorno do Brasil ao outro lado do oceano, no entanto, tem pouco de idílico, embora contenha elementos que emulem a formação nacional brasileira e o discurso da dívida histórica da escravidão. A África, adocicada pelo sentido de urgência conferido pela diplomacia de Lula, retorna em 2013 na condição de confirmação categórica de alguma prioridade à fronteira oriental do Brasil. Diplomacia, negócios, comércio atlântico, defesa das nossas riquezas marítimas, democracia, paz e cooperação para o desenvolvimento movem nosso projeto para as milhas que nos levam ao outro lado do oceano.

Mesmo na forma de opções seletivas, mas congruentes com o quadro diversificado de países e meios limitados para agir de forma mais rápida nas diferentes possibilidades de uma política africana arrojada do Brasil, o plano de adensamento da paz e do desenvolvimento no Atlântico Sul é uma obrigação estratégica que deve ser resguardada pelo Estado nacional. Duas asas animam a feição do voo de retomada da dimensão africana na inserção internacional do Brasil.

A primeira é a defesa das riquezas comuns aos africanos e sul-americanos no Atlântico Sul. Não faltam interessados em trazer para o nosso oceano ribeirinho o léxico e as propostas da Otan. Que o digam os argentinos. Ou os antigos rebeldes angolanos nas lutas de libertação. Ou a saga da defesa das 200 milhas marítimas do Brasil nos anos 1970. E até mesmo o plano de uma primeira bomba atômica do aparthaid sul-africano no início dos anos 1980.

A lógica das sanções e guerras contra o terrorismo nos dias de hoje, bem como nos tempos das influências da lógica da Guerra Fria, não justificariam a militarização de nossa fronteira atlântica nos dias de hoje. Não é essa a postulação da arquitetura de defesa ensaiada pela União Africana. Tampouco é essa a métrica dos ensaios ainda difíceis de convergência nos processos de discussão nas áreas de defesa e segurança na América do Sul.

A Otan do Atlântico Sul existe e funciona. É fraca, discreta, mas funciona como uma asa da paz. Refiro-me àquela instituição que, criada por brasileiros e africanos nos anos 1980 e que possui o peso histórico de ter impedida, como contraponto, a iniciativa sul-africana da Otas (uma Otan do sul). A Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul é a nossa pax atlântica. E segue uma conquista histórica da cooperação africano-brasileira.

A segunda razão é o quadro crescente de parcerias atlânticas que se desenham nos campos econômicos e sociais. O momento de trabalhar com os africanos é hoje e agora. A internacionalização positiva das economias de 23 países, em um total de 54 Estados africanos, é a grande novidade da economia política internacional do início do século 21, associado em geral ao sistema econômico chinês. Na África abaixo do Saara já são 300 milhões de pessoas nas classes médias consumidoras que vivem como as nossas, em padrões de consumo assemelhados ao nosso povo em grande parte das cidades brasileiras.

A resiliência das economias africanas à crise global é o traço mais importante dos últimos 5 anos. Mantém a África, particularmente a subsaariana, o padrão já mais que decenal de crescimento econômico anual do PIB médio de 5,5% ao ano. Crescem acima das economias da América do Sul e bastante mais do que a quadra pífia do crescer no Brasil. As parcerias econômicas estão abertas pelos africanos aos brasileiros. Mas andamos devagar e respondemos tarde.

As asas do sul, as que ligam as economias africanas às da América do Sul, animam um PIB conjunto de US$ 5,5 trilhões (segundo o FMI), o que não é desprezível na economia mundial. Além disso, as economias africanas crescem mais que a média dos países avançados, particularmente os europeus e os Estados Unidos, ainda atolados na crise. Há brecha, por meio do Atlântico Sul, de ensaio mais ousado ao lado da América do Sul, em torno de novas articulações Sul-Sul, mais abrangentes, dotadas de novas hierarquias econômicas internas, mas dotadas de comércio e negócios vivos e diretos, sem intermediações, com proveito ampliado para as antigas economias subdesenvolvidas do continente ribeirinho. O Brasil tem muito a ganhar.


* José Flávio Sombra Saraiva, PhD pela Universidade de Birmingham, Inglaterra, é professor titular da UnB e autor dos livros O lugar da África (1996) e África parceira do Brasil atlântico (2012)

 

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O Observatório

Este observatório é uma iniciativa do Grupo de Estudos Africanos vinculado ao Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (GEA/IREL-UnB), que busca refletir sobre a vida política, social e econômica da África contemporânea, com destaque para sua inserção internacional. Preocupando-se com o continente marcado pela diversidade, o Grupo de Estudos Africanos, por meio do Observatório, propõe um olhar crítico e compreensivo sobre temas africanos, em suas mais diversas dimensões.