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A Zona de Paz e Cooperação no Atlântico Sul: gênese e encontros

 

Diego Bielinski Carvalho*

Foi realizada recentemente a VII Reunião Ministerial da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul, ocorrida nos dias 15 e 16 de janeiro, em Montevidéu, no Uruguai. Após as iniciativas angolanas adotadas em 2007 para a revitalização da entidade, seria esse encontro, portanto, um marco para o relançamento estratégico do Atlântico Sul? Objetivo deste artigo é, então, mostrar a evolução histórica desde projeto intercontinental, abordando suas diretrizes e seus sete encontros ministeriais.

Visando a segurança militar e o fomento da paz na região, na criação de uma Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul “fala-se em paz, em zonas de cooperação, mas não se abre mão do poderio bélico (MIYAMOTO, 1987)”. Assim, permitir-se-ia o desenvolvimento dos poderes navais dos países da região, delimitando responsabilidades e buscando evitar interferências externas (PENHA, 2011, p. 187).

Desta forma, constituída em 1986, pela Resolução 41/11 da Assembleia Geral das Nações Unidas, com base em iniciativa brasileira, a ZOPACAS é integrada por 24 países: África do Sul, Angola, Argentina, Benin, Brasil, Cabo Verde, Camarões, Congo, Côte d’Ivoire, Gabão, Gâmbia, Gana, Guiné, Guiné-Bissau, Guiné-Equatorial, Libéria, Namíbia, Nigéria, República Democrática do Congo, São Tomé e Príncipe, Senegal, Serra Leoa, Togo e Uruguai.

Em termos gerais, a resolução anunciava diversos princípios da zona e exortava para quatro áreas de ação. A primeira delas seria o meio ambiente, relacionada à proteção dos recursos marinhos no Atlântico Sul, com base no Capítulo 17 da Agenda 21 da Conferência do Meio Ambiente e Desenvolvimentos, realizada no Rio de Janeiro em 1992 (ECO-92) e na Convenção Internacional do Direito do Mar, cujo Artigo 191 recomenda a adoção de tratados regionais para a proteção do meio ambiente dos oceanos.

Além disso, em tal ação, havia a necessidade de criação de uma rede de vigilância que poderia prevenir acidentes ecológicos e implementação de medidas para a questão da poluição das águas acarretadas pelos navios que se servem da rota sul-atlântica (SARAIVA, 1996, p. 212).

Por conseguinte, se ressaltaria a importância da adoção de um sistema de preservação mais eficaz do meio ambiente marinho, com pesquisas oceanográficas, geofísicas e meteorológicas e a cooperação técnico-científica – além do incentivo aos investimentos para a exploração responsável dos recursos (PENHA, 2011).

Outra área de ação seria a desnuclearização do Atlântico Sul, com vistas ao desmantelamento dos seis artefatos nucleares construídos na África do Sul ao longo dos anos 80. Contudo, as desconfianças que remetiam às ideias da Guerra Fria foram mitigadas pelo fato dos países da região serem signatários dos tratados de Tlatelolco, no caso da América do Sul, e Pelindaba, no caso da África.

Por fim, outras duas áreas de ação seriam a cooperação econômica e comercial. Os países observaram a necessidade de intensificar a cooperação Sul-Sul (CERVO, 2002). Em seus diversos encontros, muitos acordos foram realizados.

Além disso, faz-se necessidade a observação de que as resoluções que formalizam a ZOPACAS incorporam dos Direitos Humanos, igualdade racial, justiça e liberdade como elementos integrais da paz, desenvolvimento e cooperação nos níveis nacional e regional. Não só enfatizando, portanto, a importância do Atlântico Sul nas transações marítima e comercial global (PENHA, 2011, p. 188).

O debate intercontinental e a evolução do projeto das Zopacas

O primeiro encontro de representantes de países da ZOPACAS foi realizado no Rio de Janeiro, entre 25 a 29 de julho de 1988, no qual se debateram questões envolvendo as metas propostas para a Zona (SARAIVA, 1996, p. 213).

Já o segundo encontro teve lugar em Abuja, na Nigéria, no período de 25 a 29 de julho de 1990. Tal acontecimento representou a cristalização de novas linhas mestras de ações entre os Estados-membros da Zona. Cabe ressaltar, no entanto, que com o fim da Guerra Fria, de certa forma, do ponto de vista geopolítico, a posição estratégia relativamente relevante desempenhada pelo Atlântico Sul foi gradativamente perdendo importância (CERVO, 2002).

De fato, a iniciativa da Zona estagnou-se e quase foi abandonada, não fosse a atitude da diplomacia brasileira em relançar o projeto em novas bases, em 1992, levando em consideração a nova realidade internacional no pós-Guerra Fria. Considerou-se, então, que a Zona poderia contribuir para fomentar o desenvolvimento das economias da região. Para esta nova etapa, a Zona Econômica do Atlântico Sul foi fundamental (PENHA, 2011, p. 188).

O terceiro encontro dos países da Zona, realizado em Brasília nos dias 21 e 22 de setembro de 1994 adotou a Declaração de Desnuclearização do Atlântico Sul, a Declaração do Meio Ambiente Marítimo e a Declaração da Cooperação Comercial no Atlântico Sul. Além disso, decidiu o estabelecimento de um Comitê Permanente da ZOPACAS.

Um novo encontro dos Estados-membros ocorreu em 1996, na Cidade do Cabo, na África do Sul, na tentativa de revitalizar os princípios da ZOPACAS e fomentar o desenvolvimento econômico na região. Ainda, diversos outros temas foram abordados, tais como a cooperação nos campos tecnológico, ambiental, cultural e esportivo, as questões de manutenção da paz e segurança, a ênfase no papel dos organismos de integração regional (SADC, CEDEAO e MERCOSUL), a importância das medidas antitráfico e de prevenção de danos ecológicos e o estabelecimento de ligações aéreas e de cooperação acadêmica (PENHA, 2011, p. 188)

Em 1998, ocorreu a reunião de Buenos Aires, na Argentina, buscando adotar um plano de ação. Contudo, a ausência de uma estrutura organizacional mínima esvaziou o conteúdo da reunião e enfraqueceu a iniciativa dos países da zona a não darem continuidade ao projeto de cooperação. À época, as iniciativas se esgotaram de tal forma que a próxima reunião que ocorreria em Cotonou, no Benin, não se concretizou (SARAIVA, 1996).

Somente quase uma década depois, em 2007, por iniciativa do governo angolano, uma nova reunião foi realizada, nos dias 18 e 19 de junho, em Luanda. Expressou-se, portanto, um forte desejo para a revitalização da entidade – estavam presentes 24 Estados-membros.

O documento apresentado no final da reunião, além de revitalizar os objetivos anteriores, pleiteou-se a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidades para torná-lo mais representativo dos países em desenvolvimento. Ainda, observou-se a necessidade de um regime comercial global mais justo e equitativo (PENHA, 2011, p. 189).

Em outubro de 2007, meses depois da reunião em Luanda, os EUA criaram o United States Africa Command (AFRICOM), como o objetivo de garantir a segurança da região, em função das ameaças terroristas, da pirataria e dos conflitos. Porém, tal iniciativa sofreu relutância dos países africanos, face às desconfianças suscitadas quanto aos objetivos reais estadunidenses (PENHA, 2011).

A América do Sul, por sua vez, respondeu à proposta com a criação de um Conselho Sul-Americano de Defesa, integrado a UNASUL. Mais uma vez, os EUA responderam com a reativação da Quarta Frota, que havia sido desativada em 1950, com a mesma alegação que foi feita para os africanos, de proteção da navegação e de luta contra o terrorismo. Fez-se clara, portanto, as iniciativas de inibir a formação de blocos de poder no Atlântico Sul.

O sétimo e mais recente encontro da Zona, ocorrido em Montevidéu, no Uruguai, adotou a Declaração de Montevidéu e teve como principal pauta as questões de defesa, relacionados com as situações na República Democrática do Congo e na Guiné-Bissau. Os países presentes reafirmaram o desejo de revitalização da Zona e seu comprometimento em fazê-la um espaço de diálogo, cooperação e livre de armas de destruição em massa. Ainda, manifestaram seu apoio ao Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, pela nomeação de Ramos Horta como enviado especial para a Guiné-Bissau e ressaltaram a importância da atuação da União Africana, CEDEAO e CPLP para solucionar a situação na região.

Considerações Finais

Pode-se analisar, por conseguinte, que a combinação dos efeitos das estratégias política, econômica e geopolítica – desenvolvidas desde 1960 – mudou radicalmente a face do Brasil perante a África. Além de maiores investimentos no comércio intercontinental, a política brasileira para o Atlântico levou ao estreitamento dos laços com as nações africanas (PENHA, 2011). Sendo produto do período da Guerra Fria, então, a ideia de transformar o Atlântico Sul em uma zona de paz e cooperação representou um grande esforço brasileiro-africano no sentido de manter a rota sul-atlântica afastada do conflito Leste-Oeste (CERVO, 2002).

Tendo em vista a evolução do debate acerca da Zona, nota-se que a sobrevivência da ZOPACAS depende do pensamento de ambas as costas do Atlântico Sul, numa mesma dimensão estratégica (REIS, 2012, p. 77). Portanto, o desenvolvimento de um pensamento estratégico fusionado é efetivamente uma tarefa complexa, ainda mais se considerarmos a obsolescência das marinhas dos países da região (PENHA, 2011, p. 189)

Ainda, Eli Penha observa que a ZOPACAS revitalizada pode se constituir num fórum privilegiado de reflexões e ações, não só relativo aos esforços de integração regional, mas como meio de assegurar a defesa e segurança dos interesses dos países no âmbito dessa bacia.

De fato, pode-se afirmar que há a necessidade da constituição de uma nova geopolítica no Atlântico Sul, ao observarmos a importância da América do Sul, do Brasil e da África no contexto do cenário internacional atual.

Diego Bielinski Carvalho é estudante de graduação do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília e pesquisador do programa de iniciação científica do CNPq.

 

Referências Bibliográficas

 

– CERVO, Amado e BUENO, Clodoaldo. História da Política Exterior do Brasil. Brasília: EdUnB, 2002.

– PENHA, Eli Alves. Relações Brasil-África e a Geopolítica do Atlântico Sul. Editora: EDUFBA, Salvador, 2011.

– SARAIVA, José Flávio Sombra. O lugar da África: A dimensão atlântica da política externa brasileira (de 1946 a nossos dias). Editora UnB: Brasília, 1996.

– REIS, Reginaldo Gomes Garcia. Atlântico Sul: um desafio para o século XXI – as velhas ameaças se perpetuam na “novas”? In: Prospectiva, Estratégias e Cenários Globais Visões de Atlântico Sul, África Lusófona, América do Sul e Amazônia. Luciana Acioly e Rodrigo Fracalossi de Moraes (Org). IPEA: Brasília, 2012.

– MIYAMOTO, Shiguenoli. Atlântico Sul: zona de paz e de cooperação? Lua Nova vol.3 no.3 São Paulo Mar. 1987.

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Jihadismo e intervenção francesa no Mali

 

A recente intervenção francesa no Mali, que está tendo grande repercussão internacional, envolve também outros estados europeus que estão lhe dando apoio político e logístico, entretanto, a iniciativa é antes de tudo francesa. Mas o que quer a França no Mali? Por que os franceses estão se metendo numa nova guerra longe de casa? Seriam os rebeldes do Mali, de fato, uma ameaça para a segurança da Europa como afirmou recentemente a chanceler alemã Angela Merkel? Quais as intenções dos insurgentes do Mali? O objetivo desse breve artigo é justamente discutir e tentar entender um pouco as questões envolvendo o Jihadismo no Mali e a intervenção militar francesa no país.

Incapaz de controlar e impor a ordem no seu território, o governo do Mali foi buscar apoio externo para conter o avanço dos insurgentes vindos do norte. Vale lembrar que o país passou por um golpe militar em março de 2012, justificado pelos seus perpetradores justamente pela fraqueza demonstrada pelas autoridades diante da atuação de grupos armados, uma vez que, segundo os militares golpistas, o governo não apresentava disposição para o combate e deixou o Exército desamparado e sem condições de fazer frente às investidas dos insurgentes, o que fragilizou ainda mais a precária estrutura governamental.

O Mali vive um clima de conflito em seu extremo norte desde a década de 1990, quando populações tuaregs se revoltaram e desencadearam operações militares contra o poder central. Mas o conflito atual, com o avanço de grupos jihadistas em direção à capital, possui uma conotação diferenciada e marca um novo momento no conturbado contexto político do país.

Outro agravante que colocou ainda mais combustível na fogueira política do Mali foi o retorno de mercenários vindos da Líbia após a queda de Muammar Khadafi. Grande parte deles acabou se juntando aos grupos rebeldes que atuam no norte, com o detalhe que retornaram bem armados e municiados com as “sobras” da campanha na Líbia. Esse aspecto foi decisivo para dar a conformação atual aos insurgentes, com os jihadistas tomando a frente da oposição armada.

Antes da ascensão do jihadismo no norte do país, que é predominantemente muçulmano (cerca de 90% da sua população professa o Islã), o principal grupo que contestava o governo central era o Movimento Nacional para a Liberação da Azawad (MNLA), um movimento notadamente de caráter étnico vinculado ao grupo Tuareg.  No caso do MNLA o objetivo é essencialmente político, haja vista que intentam separar a região habitada pelo grupo Tuareg ou, alternativamente, conquistar um alto grau de autonomia frente a Bamaco. O argumento dos tuaregs é que conformam um grupo cultural e étnico específico e que o governo central historicamente deu muito pouca atenção para a região. Enfim, utilizam o argumento do direito à autodeterminação. De toda forma, o MNLA praticamente saiu de cena, uma vez que foi derrotado em confrontos violentos com os jihadistas do MUJAO em meados de 2012.

Mas o que despertou mais a atenção internacional para o país foi a presença crescente de militantes islâmicos radicais atuando no sul da Argélia e no norte do Mali, e nem tanto a atuação do MNLA. Dentre os fundamentalistas se destacam o Ansar Dine e o Movimento pela Unidade e Jihad no Oeste da África (MUJAO). Um aspecto preocupante é que esses grupos jihadistas estão intensificando suas operações na África subsaariana e uma das consequências mais imediatas é a desestabilização política da região, com considerável potencial de crescimento e, naturalmente, acabam se revelando uma ameaça concreta aos interesses Ocidentais, sobretudo franceses, em toda a região. No norte Nigéria, por exemplo, se verifica a atuação de grupos semelhantes com objetivos fundamentalistas. Todavia, é preciso destacar que não há, pelo menos por enquanto, nenhuma aliança entre os grupos atuantes nessa região, a não ser o fato de que alguns são considerados afins à chamada rede Al Qaeda, o que no fundo é até questionável.

O Ansar Dine (Defensores da Fé) surgiu no primeiro semestre de 2012 e sua principal liderança, Iyad Ag Ghaly, foi um quadro ativo do MNLA. Em abril de 2012 começou a ganhar notoriedade internacional quando tomou a cidade de Timbuktu e anunciou a promoção da Jihad contra os oponentes da Sharia. Além disso, seus militantes começaram a destruir monumentos históricos importantes, além de impor a severa lei islâmica (na interpretação da Sharia) às populações sob seu controle, o que causou um grande temor entre muitos habitantes que não tiveram muita escolha a não ser tentar se evadir dessas áreas. Aliás, o objetivo principal do Ansar Dine é justamente impor a Sharia ao Mali e repelir a influência Ocidental sobre o país, nesse caso, predominantemente francesa.

O MUJAO é atualmente o grupo jihadista mais ativo no Mali. Sua estreia ocorreu em dezembro de 2011 e o seu objetivo é lançar a Jihad em toda a África Ocidental, portanto, não se restringindo apenas ao Mali, um dos aspectos que o distingue do Ansar Dine. Além do Mali, o MUJAO está em plena atividade também no sul da Argélia. O grupo conta com apoio internacional e suas forças multinacionais revelam o caráter internacionalista dos grupos jihadistas. Assim, estão presentes em seus quadros militantes do Mali, Somália, Costa do Marfim, Senegal, Gana, Gâmbia, Mauritânia, Argélia, Guiné e Níger.

É de se notar que nenhum desses grupos prega uma Jihad global ou uma ação específica contra o Ocidente. Seus objetivos professados são todos locais, ou seja, limitam-se ao Mali e à região da África Ocidental. Ao passo que o MNLA segue uma lógica político-separatista, os fundamentalistas são movidos pelo sentimento da fé islâmica mais ortodoxa, num contexto em que a grande maioria da população previamente segue o Islã. Mas é fundamental não perder de vista na análise o fato de que todos eles se insurgem contra governantes não afeitos ao diálogo e a concessões políticas, tendo como pano de fundo um país que conta com uma estrutura econômica precária, no qual o Estado não consegue atender minimamente as intensas demandas sociais de sua população, principalmente as parcelas que vivem mais afastadas da capital ou dos centros econômicos mais ativos.

 

A França entra em cena

 

No caso do Mali, com esses grupos estabilizados e controlando a maior parte do território do país e sem nenhuma perspectiva de vitória das forças governamentais, a França decidiu colocar sua máquina de guerra para funcionar. Para tanto, buscou apoio político entre os seus parceiros europeus, além dos Estados Unidos, e também assegurou que a intervenção fosse legitimada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. As considerações regionais, ou seja, o envolvimento direto dos africanos para a solução do conflito ficou em segundo plano, pelo menos na perspectiva francesa. Apenas após iniciada a ofensiva militar os franceses se preocuparam, de fato, em desencadear iniciativas diplomáticas para que os países africanos, principalmente os vinculados à Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (ECOWAS) se comprometessem efetivamente com o envio de tropas, medida considerada por Paris como de grande importância para dar uma feição “africana” à intervenção.

Tão logo os franceses anunciaram o seu engajamento militar direto, vários países europeus anunciaram apoio logístico para a intervenção, disponibilizando aviões e outros tipos de suporte. De toda forma, o mais importante foi, sem dúvida, o apoio político, haja vista que a rigor a França não necessita desse tipo de ajuda para levar adiante as operações militares no Mali. Os franceses dispõem de bases militares minimamente equipadas e com pessoal experiente na África, sem contar que já estão razoavelmente acostumados a entrar em ação em países africanos, portanto, puderam se mobilizar rapidamente. Ademais, nenhum outro país ocidental se mostrou disposto a se envolver diretamente no conflito no Mali, sobretudo porque pelas suas características seria necessário, justamente como está acontecendo, o emprego do poder aéreo associado a uma investida terrestre, uma vez que o emprego isolado do poder aéreo não seria capaz de trazer resultados práticos.

De toda forma, trata-se de uma arriscada aventura militar. Não é à toa que muitos analistas preveem que os problemas franceses tendem a se agravar rapidamente. Isso porque é muito difícil imaginar uma vitória rápida sobre os jihadistas, que provavelmente irão evitar o embate direto com as tropas francesas, recuando e se escondendo para depois se reagruparem em unidades menores ou mesmo deslocarem sua atuação para outras áreas. Ou seja, esse tipo de guerra implica numa custosa ocupação efetiva de vasto território por um tempo indeterminado, mas presumivelmente longo.

Uma parte da explicação para a intervenção francesa no Mali é que a França, como ex-potência colonial, mesmo após o processo de descolonização continuou mantendo a maior parte das suas ex-colônias como zonas de influência. Ou seja, os franceses não se retiraram totalmente da África e mantiveram uma política muito ativa para a maior parte das ex-colônias, inclusive mantendo bases militares em diversos países e interferindo regularmente nos assuntos internos desses países.

Curioso é observar que há um elevado grau de apoio na sociedade francesa com relação a política africana da França. As intervenções e a permanência de bases militares na África são vistos com certa naturalidade, embora seja a França o único país a se comportar dessa maneira. Assim, sucessivos governos mantém um padrão muito semelhante quando o assunto é África, independente se possuem uma conotação de “esquerda” ou de “direita”.

A França teve, ao longo das últimas décadas, um comportamento político deplorável no seu relacionamento com a África. Não é à toa que muitos ex-ditadores africanos buscaram, em algum momento, refúgio na França, seja para si e os seus familiares, seja para os seus bens (“naturalmente” adquiridos de forma ilícita, às expensas das populações africanas). Ademais, é sempre bom lembrar que no caso do genocídio em Ruanda, ocorrido em 1994, os franceses dispunham de tropas no país e acabaram ficando ao lado dos genocidas, um fato que arranha profundamente a imagem de um país que se considera portador de valores morais e civilizacionais superiores. Muitos líderes africanos, por sua vez, tem a sua parcela de culpa nessa relação, haja vista que a maior parte das ingerências francesas aconteceu – e continua acontecendo – com o beneplácito desses dirigentes, que veem na ex-metrópole a forma mais segura e garantida de manterem-se no poder.

O padrão do relacionamento da França com a África sugere que a afirmação do país como uma potência mundial passa pela permanente tutela dos estados francófonos africanos. Além disso, existem também os interesses materiais, embora esses, por si sós, não expliquem as características especiais da política africana francesa. Mas é sempre bom ressaltar que a exploração dos recursos naturais de algumas das antigas colônias permaneceu sendo uma atividade quase exclusiva de empresas francesas, como a mineração de urânio e outros minerais estratégicos.

É de se notar também uma contradição no discurso francês com relação a África. Recentemente, o presidente da França, François Hollande, chegou a afirmar que o seu governo estava decidido a mudar a tradicional política intervencionista nos países africanos. Sua declaração foi feita quando o presidente da República Centro Africana solicitou apoio militar francês para conter o avanço de grupos insurgentes, que estão bem próximos de Bangui, a capital do país. Embora a França disponha de tropas na capital, Paris anunciou que não iria se envolver diretamente, o que acabou de certa forma forçando os países africanos aliados ao governo da República Centro Africana a agirem, principalmente o Chade.

O grande problema do Mali e de tantos outros países africanos reside na pobreza generalizada e na falta de um poder público que alcance a população. Não é à toa que as revoltas frequentemente surgem na periferia dos Estados, justamente nas áreas mais abandonadas. Enquanto o problema da inclusão social não for enfrentado, as esperanças são poucas. Não há solução estritamente militar para essa questão e o fundamentalismo religioso surge como um elemento complicador a mais em contextos de instabilidade crônica.

É difícil acreditar que o Mali seja uma ameaça para o futuro da Europa, mesmo que controlado por islamitas radicais. Se esse for o caso, é de se prever que a guerra contra os jihadistas não irá acabar tão cedo. Estão aí o Paquistão, o Afeganistão e a Somália para provarem essa assertiva.

Insurgência na República Centro Africana

A República Centro Africana (RCA) está passando por uma fase política complicada nos últimos dois meses. Embora a maior parte da imprensa brasileira não esteja noticiando os acontecimentos no país, a mídia internacional tem dado certo destaque à ameaça de queda do governo e da intervenção internacional no conflito.

Ocorre que vários grupos insurgentes se rebelaram novamente e retomaram o processo violento de contestação ao governo do presidente François Bozize. Assim, os rebeldes de três distintos grupos criaram uma coalização chamada Seleka, que na língua Sango significa aliança. Vindos do nordeste do país, em aproximadamente três semanas passaram a controlar cerca de um terço do território da RCA, incluindo importantes cidades do interior do país. Hoje, estão há apenas 75 quilômetros da capital, Bangui.

A aliança Seleka exige o fim do governo de Bozize, que constitucionalmente só terminará no início de 2016, alegando principalmente que o seu governo não cumpriu os acordos de paz celebrados entre grupos insurgentes e o governo central entre 2007 e 2011.

Vale ressaltar que esses acordos estabeleciam a deposição das armas por parte dos rebeldes em troca de indenizações e da integração de seus membros ao Exército do país, o que não ocorreu. De acordo com o governo, a causa para o não cumprimento dos acordos foi a falta de recursos, embora seja um tanto evidente que houve também uma grande falta de vontade política das autoridades para encaminhar a questão.

O país é um dos mais pobres do continente africano e possui uma economia pouco diversificada, o que não seria, em tese, um grande problema caso houvesse uma melhor distribuição de renda, haja vista que conta com uma população modesta, de aproximadamente 5 milhões de pessoas. A expectativa de vida, de apenas 50 anos, é um dado revelador da pobreza generalizada e da falta de ações públicas em todos os campos.

O país conta com certos minerais considerados estratégicos ou valiosos no mercado internacional, como ouro, diamante e urânio. Além disso, a madeira é outro produto de destaque nas exportações do país, que ainda registra em sua pauta algodão, café e tabaco. Nota-se, portanto, uma forte dependência de matérias-primas e produtos agrícolas para a sua sustentação econômica.

Um marco na história recente da RCA foi a sua independência da França, conquistada em 1960. Mas desde então, o país não conseguiu superar as características principais de uma economia colonial, dependente da exportação de poucos produtos e que foi acompanhada de forte instabilidade política, daí os longos períodos de governos ditatoriais.

O que está acontecendo hoje na RCA é reflexo de um país com economia precária, instabilidade política, pobreza e escassez generalizadas, além de baixíssimo grau de desenvolvimento institucional. Tudo isso combinado distanciou muito o Estado da Sociedade, levando a uma situação de conflito de difícil solução.

O Observatório

Este observatório é uma iniciativa do Grupo de Estudos Africanos vinculado ao Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (GEA/IREL-UnB), que busca refletir sobre a vida política, social e econômica da África contemporânea, com destaque para sua inserção internacional. Preocupando-se com o continente marcado pela diversidade, o Grupo de Estudos Africanos, por meio do Observatório, propõe um olhar crítico e compreensivo sobre temas africanos, em suas mais diversas dimensões.