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Norte da África, Oeste Africano

Crise no Mali

O Mali é um país africano pouquíssimo conhecido fora da África. Foi colônia francesa do final do século XIX até o ano da sua independência, ocorrida em 1960. Atualmente, vem chamando a atenção do mundo em decorrência de um golpe de Estado e de distúrbios no norte e na região onde fica a capital, Bamaco. O clima de guerra civil vem afetando profundamente a economia e prejudicando o cotidiano de milhares de pessoas.

O território que hoje pertence à República do Mali é uma área de transição entre o Norte da África e a chamada África Ocidental e foi berço de importantes civilizações e impérios africanos que ali floresceram bem antes da chegada dos europeus. Os imponentes Império de Gana, Império Mali e Império Songhai foram as mais expressivas organizações políticas que existiram naquela área na fase pré-colonial.

A conquista do território pelos franceses ocorreu num momento em que todos esses impérios já haviam ruído e que a região estava fragmentada em diversos reinos e unidades políticas menores, o que de certa forma facilitou a conquista. A colonização seguiu o modelo de exploração padrão francês, sem promover nenhum grande empreendimento na colônia.

Independente em 1960 o Mali surge como um Estado frágil, tanto em termos econômicos quanto institucionais. Houve uma tentativa inicial de criar uma federação envolvendo o Mali e o Senegal, conhecida como Federação do Mali, mas a experiência não deu certo e foi logo desfeita, dando lugar à existência dos dois países.

Sua história a partir da independência registra pelo menos três modelos políticos distintos. O primeiro foi o unipartidarismo dos anos iniciais, com inclinações pró-Soviéticas, depois veio um violento regime militar e, por último, a partira da década de 1990, a instauração de uma democracia pluripartidária, frequentemente colocada à prova por várias tentativas de golpes de Estado, mas que foi considerada por algum tempo como estável e que poderia ser um exemplo para outros países africanos.

São três os principais problemas políticos do Mali no momento. Em primeiro lugar, destaca-se a intenção de uma facção dos tuaregues de proclamar a independência da região chamada de Azawad. Em segundo, outro grupo tuaregue busca impor uma ordem essencialmente religiosa para o Mali, porém sem a secessão desejada pelo primeiro. Em terceiro, um grupo de militares insurgentes que se rebelou contra o governo e provocou a queda do regime do presidente Amadou Toumani Touré.

O primeiro grupo citado está congregado em torno do Movimento Nacional de Libertação Azauade (MNLA), que liderou a rebelião tuaregue visando a independência do território Azawad, que engloba boa parte do país. O grupo se viu subitamente fortalecido quando do retorno de muitos tuaregues que lutaram como mercenários ao lado de Kadaffi, na guerra civil da Líbia, e que regressaram fortemente armados do conflito. Vale lembrar que os tuaregues estão dispersos entre Mali, Níger, sul da Argélia, Chade, Burkina Faso e sudoeste da Líbia.

O segundo movimento é o chamado Ansar Dine (Defensores da Fé), um grupo predominantemente formado por tuaregues fundamentalistas que querem a implementação de um Estado teocrático baseado na Sharia em todo o Mali. O Ansar Dine foi um aliado de ocasião do MNLA, principalmente pelos laços étnicos comuns. Todavia, seus objetivos são muito mais religiosos que políticos, o que já levou a confrontos entre ambos. Há evidências de que possui relações com outros grupos fundamentalistas islâmicos, como a Al-Qaeda.

Por fim, e como reação à condução da política governamental contra os tuaregues, um grupo de militares de média patente, liderados pelo capitão Amadou Konaré, criou o chamado Comitê Nacional para a Restauração da Democracia e do Estado (CNRDR). Foi justamente esse grupo que promoveu o golpe de Estado em março desse ano. É curioso notar que os argumentos dos militares são quase sempre os mesmos em toda a África e alhures: em nome da restauração democrática um grupo de militares derruba o governo como se salvadores da pátria fossem!

Enquanto o impasse permanece, o terror islâmico no norte do Mali está aumentando. Os militantes religiosos estão aplicando penas sumárias e severas, bem ao estilo da sharia, como cortar a mão de pessoas acusadas de roubo ou apedrejar até a morte supostos adúlteros ou casais com condutas incompatíveis com os princípios religiosos por eles defendidos.

O Mali vive atualmente seus terríveis dilemas políticos. Parte de sua população está submetida ao terror do fundamentalismo islâmico e outra parte à mercê da vontade e da violência de militares golpistas que, em nome da democracia, derrubaram um governo democraticamente eleito. Por enquanto não existem boas perspectivas para o país. A solução passa, pelo menos por ora, necessariamente por maior envolvimento da comunidade internacional, que infelizmente não está muito interessada e com disposição para agir.

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Sobre Pio Penna Filho

Professor - Universidade de Brasília

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O Observatório

Este observatório é uma iniciativa do Grupo de Estudos Africanos vinculado ao Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (GEA/IREL-UnB), que busca refletir sobre a vida política, social e econômica da África contemporânea, com destaque para sua inserção internacional. Preocupando-se com o continente marcado pela diversidade, o Grupo de Estudos Africanos, por meio do Observatório, propõe um olhar crítico e compreensivo sobre temas africanos, em suas mais diversas dimensões.
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